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Como assim, você não quer ficar comigo? Entenda a "síndrome do cara legal"

Mulheres relatam casos de homens "amigos", que só se aproximaram por interesse romântico ou sexual - Getty Images/iStockphoto
Mulheres relatam casos de homens "amigos", que só se aproximaram por interesse romântico ou sexual Imagem: Getty Images/iStockphoto

Jacqueline Elise

Da Universa

10/06/2019 04h00

Aos 15 anos, a figurinista Bianca*, 29, tinha um melhor amigo, Carlos*. Ele a ajudou quando ela terminou um namoro e eles ficaram bem próximos -- até demais, na visão dela. "Alguns meses após o término, ele começou a ficar estranho. Queria me abraçar toda hora, e isso me incomodava. Uma amiga nossa me convenceu de que eu gostava dele mais do que só como amigo. Tentei ficar com ele, mas não consegui", conta Bianca.

Bianca diz que depois dessa tentativa ele se transformou: "Como tínhamos um grupo de amigos em comum ele não se afastou, mas sempre me ignorava na roda. Era grosso, fazia piadas sobre mim e espalhava para todos que a gente tinha ficado, numa época em que eu já estava de volta com meu ex. Bianca terminou se afastando não só de Carlos, mas dos amigos que tinham em comum. "Ele se via como um cara muito legal, e que merecia ficar comigo", diz Bianca.

"Síndrome do cara legal"

O terapeuta familiar norte-americano Robert Glover cunhou o termo "nice guy syndrome" ("síndrome do cara legal" em inglês) no livro "No More Mr. Nice Guy!", de 2003, para falar sobre homens que só tratam bem as mulheres com quem desejam se relacionar. Eles se definem como "muito bacanas" e "melhores do que a maioria", mas se transformam completamente quando são rejeitados. Em tempo, apesar do termo síndrome, esse é apenas um comportamento; e não uma doença.

A estudante e operadora de telemarketing Ângela*, 23, sentiu isso na pele quando tinha 17 anos. "Tive esse 'amigo', que vou chamar de B., e ele era super legal, gentil, conversava comigo direto. Um dia, ele pediu para ficar comigo e eu disse que não queria. Ele então espalhou para a escola toda que tinha transado comigo. Postou no Facebook, WhatsApp, e todo mundo ficou perguntando se era verdade".

Ana Maria Fonseca Zampieri, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP e autora do livro "Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade", explica que, apesar de este comportamento não ser exclusivo dos homens, eles acabam levando a fama por causa da intensidade da reação pós-rejeição. "As mulheres ficam mais magoadas e tristes quando isso acontece. Já os caras são mais reativos: dizem aos outros que 'ela é louca', espalham mentiras, e às vezes são agressivos", diz.

Ela relata que pessoas com dificuldades de empatia, narcisistas ou aquelas que são imaturas emocionalmente são as que mais apresentam essa "síndrome". "Normalmente, elas têm baixa percepção de sutilezas; então, pegam uma demonstração de gentileza e as potencializam. Essas pessoas também têm problemas para lidar com frustração. Reagem de uma maneira agressiva, como se tivessem sido enganadas, humilhadas. Confundem o 'eu não quero ficar com você' com 'eu não gosto de você'".

A escritora e psicóloga clínica Luisa Mascarenhas também enxerga um problema de autoestima: "O cara que tem uma insegurança social ou física, que nunca se sentiu desejado na vida, tenta encobrir isso com excesso de gentileza -- que faz parte do jogo de sedução, sim, mas o problema é quando só se é gentil para receber algo em troca. Ele conta com o fato de estar muito presente como amigo da mulher para acreditar que 'merece' ter uma relação amorosa com ela, como se fosse um prêmio".

Veja os sinais mais comuns de alguém com "síndrome do cara legal":

  • Ele só trata a mulher bem para seduzi-la: O propósito dele nunca é tratar uma mulher decentemente porque ela merece respeito, e sim, porque ele quer algo a mais com ela;
  • Ele confunde simpatia com algo a mais: O "cara legal" enxerga qualquer demonstração de gentileza como um sinal de que a mulher está correspondendo às investidas dele, mas não leva em consideração que, na verdade, ela só estava sendo simpática;
  • Ele tem ressentimento com outros homens: Com a justificativa de que os outros caras "só tratam as meninas igual lixo", ele repudia qualquer homem que chame a atenção das mulheres, especialmente se ele se encaixar dentro de algum padrão de beleza. Enxergam o outro como um concorrente, uma ameaça;
  • Ele acha que ter um relacionamento é um prêmio: Por tratar bem as mulheres que deseja, ele acredita que elas devem ficar com ele porque ele merece -- afinal, "ele está sendo muito bom com elas";
  • Quando é rejeitado, ele reage mal: Todo mundo já levou um fora em algum momento, mas o "cara legal" acha um absurdo ser rejeitado. Ele vai reverter a situação e tentar culpar a mulher, seja xingando-a ou difamando-a para os amigos em comum. Costuma dizer que foi jogado na "friendzone" (zona da amizade, em inglês) quando escuta que ela só o vê como amigo. Pode espalhar boatos sobre a mulher e, em casos mais extremos, agir de forma agressiva.

O que fazer?

Para as especialistas, quem age desta forma precisa buscar terapia para entender de onde vem a imaturidade emocional. "As pessoas precisam saber receber o 'não'. Se cada vez que você for rejeitado receber mal a negativa, é um problema sério", afirma Luisa.

Gabriela Souza, advogada especialista em direitos da mulher e sócia-fundadora do escritório Gabriela Souza - Advocacia para Mulheres, afirma que quem passou por isso pode recorrer à justiça. "Ela pode registrar um boletim de ocorrência por crimes contra a honra presentes no Código Penal: injúria [art. 140, quando ofende a dignidade da pessoa], difamação [art. 139, quando ofende a reputação da pessoa] ou calúnia [art. 138, quando acusa alguém de cometer um crime], depende do caso. Se ele espalhou mentiras sobe ela, também dá para entender como falso testemunho".

Em casos mais violentos, quando há briga física por exemplo, pode-se registrar B.O. por agressão (art. 129 do Código Penal). "Se a pessoa é só uma amiga, o caso não entra na Lei Maria da Penha, vai para o Direito Penal comum. Isso porque a Maria da Penha foi feita para mulheres vítimas de violência por parte de companheiros e de quem tem relações mais próximas com ela".

*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.