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Declarações polêmicas: por que a gente "passa pano" para quem gosta?

Anitta - Reprodução/Instagram
Anitta Imagem: Reprodução/Instagram

Lucas Vasconcellos

Colaboração para Universa

06/03/2019 04h00

Aconteceu quando Anitta levou Nego do Borel ao palco para uma participação durante um show, logo após comentário transfóbico que o cantor fez em uma foto contra Luísa Marilac no Instagram. O público não gostou e, sob vaias, a estrela pop brasileiro saiu em defesa do amigo: "ele tá aprendendo, gente!"

Outro caso mais recente, foi o de Valesca Popozuda, que fez um vídeo enaltecendo o amigo Augustin Fernandez. Augustin é maquiador e ficou sob os holofotes por ser gay e militante do presidente Bolsonaro -- político que tem a trajetória marcada por comentários homofóbicos. Valesca foi criticada pelos fãs, pelo posicionamento incoerente de acordo com o discurso que a cantora sempre defendeu.

Já aconteceu comigo e provavelmente com você: fechar os olhos para atitudes que não concordamos quando elas são cometidas por alguém que temos carinho. Ou, como diz a expressão da moda, 'passar pano' para fulano. "Quando a gente gosta de uma pessoa, a gente tende a relevar mais coisas e diminuir a intensidade da atitudes. Vemos como um ato que não foi maldoso e garantimos o benefício da dúvida, ignorando a situação por conta do amor", revela o psicólogo e doutor em neurociência do comportamento Yuri Busin. 

Ainda de acordo com Busin, é como se colocássemos uma venda sobre os olhos para não perder o amigo, parente ou parceiro amoroso. "Se o ente querido comete algo negativo, que vai contra seus princípios, o seu lado racional se mistura com o lado emocional. E você acaba defendendo aquilo que genuinamente não concorda, quando na verdade deveria usar o momento para orientar e dialogar", conclui. 

'Casa de ferreiro, espeto de pau'

É fácil criticar a atitude de alguém que você não conhece. Como ressalta a personal coach pela Sociedade Brasileira de Coach Silvia Donatti, "a falta de vínculo diminui o medo em julgar, já que não tem consequência imediata. É o que vemos muito nas redes sociais. Quando você tem carinho, tem medo de machucar. Por isso é importante fazer uma crítica construtiva e não só apontar os erros. Ninguém é perfeito e todo mundo tem o direito de aprender".

Existem maneiras simples e eficientes para esse tipo de diálogo: não ataque, mostre para a pessoa a sua interpretação de uma atitude equivocada e pergunte se ela não pensou pelo seu ponto de vista. "Você pode falar tudo, desde que construa isso de maneira aberta e não combativa", diz Silvia. 

Até que ponto?

O famoso passar pano para alguém pode ser uma porta para situações ainda mais delicadas. Silvia Donatti detalha que em alguns casos, deixar de corrigir ou orientar pode indicar uma dependência da relação, seja financeira ou emocional, por exemplo. "Na sua cabeça, qualquer reclamação que fizer, essa pessoa vai abandonar você. E acaba fechando os olhos para absolutamente tudo. E isso abre precedente para a submissão, onde você ignora coisas que vão contra os seus ideais e valores, levando inclusive a casos de agressão", explica.  

É preciso se posicionar

Quando você percebe uma situação constrangedora e se cala, não está ajudando a preservar a relação. Não se posicionar é mais nocivo do que corrigir, já que não é oferecida uma possível chance de abrir os olhos da pessoa.

Qualquer laço é saudável quando você pode se posicionar. Relacionamento é uma arte e vale a pena fazer a reflexão se esse que você mantém com quem detona suas crenças faz bem para você

O caso de Valesca foi além de virar alvo de críticas de seguidores. Depois da polêmica com Augustin, a funkeira perdeu contrato para um evento voltado ao público LGBTQI+. Portanto, mais do que preservar o amigo, é preciso se preservar. Qual é o sentido em manter relações com alguém que fere seus valores, causa momentos vexatórios e não respeita você e nem os demais? Se depois de conversar e perceber que nada mudou ou vai mudar, "passar pano" pode não ser uma boa ideia.

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