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"Não queria mais dizer para gordinhas usarem preto e ditar regras de moda"

Chiara Gadaleta, 48, trabalhou como modelo na Europa e estilista - Caue Moreno/Discovery
Chiara Gadaleta, 48, trabalhou como modelo na Europa e estilista Imagem: Caue Moreno/Discovery

Natália Eiras

Da Universa

29/04/2019 04h00

Chiara Gadaleta, 48, diz que se tornou sustentável por causa do coração. "Foi algo natural porque nunca fui muito consumista", diz à Universa. Em uma carreira meteórica, a ex-modelo desfilou, nos anos 1990, para grifes como Chanel e Versace. Mas, segundo ela, só se sentiu "em sua verdadeira pele" quando vestiu a roupa da sustentabilidade na indústria da moda e na tevê. "Sempre quis me expressar e queria usar a minha voz de forma engajada. Não podemos mais pensar em moda como algo desconectado do planeta."

Há 11 anos, quando o fast fashion "democratizou" a moda e o trabalho escravo não era assunto, ela fundou a Ecoera, plataforma que encontra soluções de sustentabilidade para o mercado fashion e outras empresas. No ano passado, estreou como apresentadora do programa "Menos é Demais", do canal fechado Discovery Home & Health.

Chiara está sempre com uma garrafinha térmica para colocar água, usa copos de papel reutilizáveis para evitar o plástico e anda quilômetros em vez de usar um carro. Para suprir as vontades da filha de 14 anos, promove bazares de trocas da garota com as amigas. Na tevê e fora dela, a consultora, nascida na Itália e criada no Brasil, tenta transformar os hábitos de consumo das pessoas. Inclusive o próprio --ela é uma grande fã de produtos vintage. "Sou humana, às vezes exagero nas roupas de brechó, mas o importante é questionar sua forma de consumir", fala.

Veja como ela saiu da passarela e se tornou porta-voz da sustentabilidade:

"Desde muito cedo eu ouvia que tinha que ser modelo, mas não queria. Na minha época, havia muito preconceito sobre trabalhar como manequim. Em 1992, quando tinha 22 anos, eu estava fazendo estágio na 'Casa Vogue' e a editora de moda da 'Vogue" na época, a Patricia Carta, me mandou para o estúdio do Bob Wolfenson. Eu tentei fugir, mas não consegui. No fim, saí em um catálogo de moda com as modelos mais conhecidas da época.

Minha carreira de modelo começou em apenas um dia. Trabalhei durante dois anos e meio na França. Já casada com o pai do meu primeiro filho, fiz faculdade de moda e voltei para o Brasil para atuar como estilista.

Em 2007, abri a Tarântula. Como fazia os produtos com tecidos antigos e muito queridos que eu havia garimpado, tentava reaproveitar tudo o que podia: fazia roupas e, do que sobrava, costurava almofadas. Das sobras das almofadas, fazia roupas infantis. Era muito natural para mim. No entanto, a marca quebrou em 2008 porque não quis usar fornecedores da Índia e da China.

Chiara é, atualmente, apresentadora do programa "Menos é Demais", do Discovery Channel - Caue Moreno/Discovery
Chiara é, atualmente, apresentadora do programa "Menos é Demais", do Discovery Channel
Imagem: Caue Moreno/Discovery

Ao mesmo tempo, tinha um programa no canal GNT, o 'Tamanho Único'. Mas eu ficava meio desconfortável porque tinha que dizer para as gordinhas usarem preto, as magrinhas usarem branco. Aquele tipo de ideia não estava mais fazendo sentido para mim. Foi aí que comecei a pensar no planeta, nas pessoas que não tinham comida. Em vez de ditar regras de moda, queria usar a minha voz de forma mais engajada.

Eu me lembro como se fosse hoje: entrei em um site que mostrava várias formas de se tornar o mundo mais sustentável. Uma delas era ser um porta-voz na sua comunidade e percebi que isso eu poderia ser. Porque eu tinha um grupo que me respeitava, a imprensa ouvia as doideiras que eu falava, então resolvi usar a minha voz para isso.

Criei, então, a Ecoera [plataforma que divulga soluções de sustentabilidade], porque achava que não tinha mais como falar de moda sem nenhuma conexão com o planeta. A gente tinha que descobrir uma moda mais conectada ao nosso tempo. Hoje criamos ferramentas para mudança de negócios, para adaptar o sistema e torná-lo mais sustentável.

Em 2018, veio a primeira edição do 'Menos é Demais'. Eu e a Fe Cortez levamos para a tevê a questão do consumo consciente, porque entendemos que era uma necessidade compartilhada.

Como foi virar a chave

Nunca fui consumista, então isso para mim foi mais fácil. Eu não queria o que todo mundo tinha, era mais de comprar o vintage. Às vezes tenho que me controlar para não exagerar nas roupas de brechó. Mas quando sinto que tenho muita coisa, eu doo.

A ex-modelo criou o Ecoera, plataforma que encontra soluções sustentáveis para negócios - Caue Moreno/Discovery
A ex-modelo criou o Ecoera, plataforma que encontra soluções sustentáveis para negócios
Imagem: Caue Moreno/Discovery

Outro dia comprei dois vestidos envelope em um brechó. Por que dois? Podia ter sido apenas um. Precisamos estar constantemente atentas à nossa forma de consumir. Tenho um projeto de fazer um guarda-roupa cápsula com 15 cabides. Ainda não consegui, é o meu projeto para 2020. Não acho que vai ser difícil, porque tenho um prazer enorme em desapegar.

Eu consumia também muito livro, mas logo percebi que tinha que deixar circular. Teve uma época que estava fazendo muito tricô e crochê, então estava obcecada por linhas e agulhas e comecei a acumular muita coisa. Para diminuir a quantidade, comprava casacos no brechó, os desfazia e montava um novelo.

Os meus filhos [Gianluca, 23, e Laila, 14] foram criados assim. Minha filha, quando era pequena, fazia presentes para as crianças. A gente transformava as embalagens em brinquedo. Isso virou rotina em casa.

Quando ela começou a ficar adolescente, ela se deparou com o outro, né? Aí ficou um pouco mais complicado. Hoje ela coloca na balança. Mas não tem consumismo desenfreado. A gente faz muito bazar de troca entre as meninas. E eu adoro, porque vira uma bagunça. Hoje que ela está quase com a minha altura [Chiara tem 1,80m], a gente divide roupa. Ela começou a customizar camisetas para vender na escola e, em vez de comprar na Rua 25 de Março, comprou 30 peças no brechó.

Sustentabilidade em pequenas atitudes

Lidar com embalagens é uma questão desafiadora. Quando vou ao mercado, por exemplo, deixo as minhas embalagens lá porque sei que vão para o centro de reciclagem. Tiro tudo do plástico e coloco na ecobag. Compro muito arroz a granel. Quando compro frios, levo um pote para guardá-los. É um saco ficar tirando o lixo, então é até mais fácil ser sustentável.

Não dirijo e não quero dirigir. Uso bastante metrô, saio de casa uma ou duas horas antes e vou a pé. Pego bastante carona com os outros e eventualmente chamo um carro por aplicativo. Tenho algumas amigas mais peruas que nunca pegaram um metrô e as ensino a usar o transporte público.

Porém, não importa se a pessoa é superengajada pela sustentabilidade e o meio ambiente: se eu a vejo maltratando uma pessoa, para mim é o fim. Não pode. Não adianta ficar se esforçando para não usar plástico no dia a dia, mas maltratar as pessoas que estão ao seu lado."

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