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"Se uma roupa custa pouco, a mão de obra está sendo muito mal remunerada"

Fabiana Milazzo apresenta sua nova coleção nesta terça (23) na SPFW - Divulgação
Fabiana Milazzo apresenta sua nova coleção nesta terça (23) na SPFW Imagem: Divulgação

Pedro João

Colaboração para Universa

23/04/2019 04h00

Depois de passar uma temporada fora do line-up da São Paulo Fashion Week, Fabiana Milazzo está de volta e apresenta suas propostas para a próxima temporada nesta terça-feira (23). Desta vez, a inspiração da estilista mineira especializada em vestidos de festa bordados é a obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz. A coleção, inclusive, leva seu nome, "Vik". "Depois que eu assisti ao documentário dele ["Lixo Extraordinário", de 2011, indicado ao Oscar] fiquei encantada. Entrei em contato com o estúdio e me emocionei quando eles me deram a permissão para fazer essa homenagem. Eles disseram que fazemos um trabalho parecido", contou.

De fato, Fabiana é uma das poucas designers de moda festa que se preocupam não só com os processos artesanais envolvidos na manufatura da sua roupa, mas também no impacto que eles têm no meio ambiente. Por meio de seu projeto Renovarte, ela separa por cor e textura os retalhos de suas coleções já produzidas. Assim, em seu ateliê, constrói novas peças a partir deles. À Universa, ela revela e detalha as iniciativas de sustentabilidade que permeiam a sua passarela e faz um apelo: "Precisamos lutar pelo nosso planeta e cada um tem que fazer a sua parte".

"Há muito tempo, eu estava fazendo uma consultoria para a minha marca e esse consultor específico me disse que eu tinha que assistir ao documentário 'The True Cost' [de 2015, que revela os bastidores desumanos do 'fast-fashion']. Foi aí que eu descobri uma série de informações que me deixou perplexa. Por exemplo, a gente não tem a menor noção do quanto de agrotóxico vai no algodão comum das nossas roupas do dia a dia. Na minha marca, passei usar a versão orgânica do tecido. Minha preocupação com esse tipo de coisa foi ficando cada vez maior. Parece bobagem, mas quando a gente para para pensar nos processos por trás de cada coisa que consome, acaba se deparando com um monte de problemas.

Essa questão ambiental, na verdade, transcende a moda: é uma responsabilidade individual. São pequenas ações que cada um de nós pode fazer que, quando somadas, fazem a diferença. Levar sua própria sacola para o supermercado, separar o lixo reciclável, tentar diminuir a quantidade de lixo que produz no dia a dia, tomar cuidado com a procedência de tudo aquilo que compramos.

Eu acho uma bobagem, por exemplo, essa história de que só pode usar um vestido de festa uma vez. Até porque há tantas outras maneiras de se vestir para uma festa... Dependendo do evento, dá para fazer diversas combinações: saia com camisa, corset e saia etc. Se você não quer repetir exatamente o mesmo o look -- o que, para mim, não é problema nenhum -- faça um styling diferente. E aproveite essa peça para o dia também, combine com uma calça jeans... As possibilidades são infinitas. A roupa não é um produto descartável.

Claro que se uma peça de roupa custa pouco é porque a mão de obra envolvida está sendo muito mal remunerada. Esse é o problema do 'fast-fashion' e o que a gente precisa fazer no Brasil é exatamente ir na contramão disso: investir e apoiar negócios com transparência e que garantem aos seus funcionários qualidade de vida. Não dá para ficar esperando essa mudança única e exclusivamente das empresas ou do governo. Precisamos lutar pelo nosso planeta e cada um tem que fazer a sua parte.

É um desafio enorme fazer moda festa levando sustentabilidade em consideração. Mas é possível. Eu trabalho com um produto de luxo, com um público de luxo e preciso estar à altura do que está disponível no mercado, mas que não tem a mesma transparência. Com muita dedicação, muita pesquisa e boa vontade, é possível, sim. Desde que assisti àquele documentário, fui perscrutando cada uma das etapas de produção da minha empresa para encontrar alternativas mais sustentáveis dentro de cada uma delas.

O Renovarte é um exemplo dessas iniciativas. Trata-se de um projeto interno que a gente criou para armazenar os retalhos de tecido das coleções passadas. Nossa proposta é não descartar nada para conseguir separar, catalogar, e descobrir uma maneira de reutilizar esse resíduo. É uma coisa que já faz parte do nosso DNA e que eu pretendo manter para sempre. Para o desfile, inclusive, duas peças foram inteiramente produzidas com essa técnica.

Outra novidade é uma coisa que eu já queria fazer há muito tempo e ainda não tinha conseguido: usar algum material reciclado para fazer os bordados. Com o grupo de mulheres Flores do Mar, do Espírito Santo, produzimos um paetê feito a partir de escamas de peixe. Essas escamas são totalmente descartáveis e iriam para o lixo, mas a gente conseguiu arranjar uma utilidade para elas e o melhor de tudo é que o efeito na peça ficou incrível: são camisetas até com ilusão de ótica.

Além disso, essas mesmas peças também são resultado do trabalho de um outro projeto que eu ajudo a promover, o Mulheres de Renda. Junto da ONG Ação Moradia, de Uberlândia (MG) [cidade natal da estilista e onde fica sua fábrica], oferecemos um espaço para mulheres em situação de vulnerabilidade onde elas aprendem um novo ofício -- o do bordado -- e, no contrafluxo escolar, levam suas crianças com elas.

Em geral, quando essas mulheres conseguem um emprego, sofrem para achar alguém que cuide dos filhos enquanto estão fora. Por lá, eles têm futebol, aula de música, recreação e uma série de atividades enquanto as mães estão trabalhando. É muito gratificante ver algumas delas, pela primeira vez na vida, conquistando sua independência, fazendo seu próprio dinheiro."