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SPFW aposta em marcas jovens que pensam desfiles com seu próprio propósito

Desfile da Torinno durante a SPFW N46, em outubro de 2018 - Mauricio Santana/Getty Images
Desfile da Torinno durante a SPFW N46, em outubro de 2018 Imagem: Mauricio Santana/Getty Images

Pedro João

Colaboração para Universa

22/04/2019 04h00

O século 20 ensinou o mundo da moda a trabalhar por décadas. Quando se fala de "anos 1960", imediatamente temos em mente o retrofuturismo de estilistas como Pierre Cardin, André Courrèges e Paco Rabanne. A invenção da minissaia, a descoberta dos tecidos sintéticos e de suas possibilidades infinitas de tingimento, a exploração de não-tecidos: plástico, borracha, metal. No entanto, depois da virada do milênio, alguma coisa estranha aconteceu e esse sistema parou de funcionar. No que se refere aos "anos 2000", alguns modismos nos vêm à cabeça. Eles estão muito mais ligados à cultura de celebridades e a hits "palhaçada" (a exemplo dos bonés Von Dutch, dos conjuntinhos Juicy Couture à la Paris Hilton, e o jeans de cintura bem, bem, bem baixa) do que a avanços tecnológicos da indústria têxtil, silhuetas inovadoras inventadas por estilistas geniais ou qualquer coisa do gênero.

Esse fato, por si só, já é bastante representativo e dá dicas do que foi essa "alguma coisa estranha" que aconteceu depois de 1999. Se as passarelas deixaram de ser ouvidas, foi porque as ruas e a cultura pop passaram a falar mais alto. E isso só rolou por causa da internet. Estamos quase em 2020 e, só agora, dá para ter uma noção mais clara do que a democratização da informação fez com o sistema da moda.

Em primeira instância, o sagrado mundo das passarelas teve suas chaves roubadas, suas portas violadas, e o deslumbramento pelo segredo que residia nas salas de desfile foi descoberto. Se antes este era um conteúdo a que tínhamos acesso somente pelo que contavam os convidados da primeira fila; de repente, a primeira fila virou todo mundo. Perdi as contas de quantos "livestreams" -- a então novidade da vez -- assisti na conexão trágica da minha casa. De cara, houve um encantamento generalizado com a moda. Quem estava se formando no ensino médio nessa época (assim como eu), consegue lembrar bem de como as faculdades de moda eram tentadoras. E, quem já estava no mercado, se lembra de como a moda, em si, estava muito "na moda". Tinha reality show de moda ("Project Runway"), série de ficção de moda ("Sex and the City"), filme de moda ("O Diabo veste Prada"), tudo de moda!

Convidados na primeira fila não desgrudam dos celulares -- e registram os desfiles para as redes sociais - Alexandre Schneider/Getty Images
Convidados na primeira fila não desgrudam dos celulares -- e registram os desfiles para as redes sociais
Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images

Todo mundo queria dar um jeito de entrar no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera em época de São Paulo Fashion Week (evento cuja 47ª edição começa hoje em outra locação: o galpão industrial ARCA, na Vila Leopoldina). E, uma vez lá dentro, as bancadas das assessorias -- que agora se escondem na sala de imprensa -- ficavam na porta da sala de desfiles. Minimultidões de proto-fashionistas-clandestinos se amassavam por ali na esperança de que -- caso um convidado não aparecesse -- os assessores da marca em questão fossem generosos o suficiente para oferecê-los uma chance de ver um desfile ao vivo.

Alexandre Herchcovitch tinha marca própria, homônima, era o estilista mais celebrado e maduro da moda brasileira. Até desfile em Nova York ele fazia. Eram frequentes as apresentações em locações históricas da cidade de São Paulo (Cavalera já fez desfile em homenagem à metrópole paulista no Minhocão, Neon já criou uma Bauhaus tropical sobre a paisagem de concreto do MuBE etc.) e desfiles com cenários internos extraordinários.

Isso sem falar no panorama internacional: O britânico Alexander McQueen estava vivo e fazendo desfiles absurdos, fantásticos/fantasiosos, provocativos, diabólicos; Miuccia Prada estava influenciando diretamente os rumos que o mercado mundial tomava -- difícil esquecer a sua coleção 'Minimal Barroque' tamanho sucesso que fez ao redor do globo; Marc Jacobs inventava um sonho diferente para cada uma de suas viagens/coleções na Louis Vuitton; Phoebe Philo estava começando a fazer as peças que levavam técnicas e construções intrincadas, mas que, misteriosamente, tinham um resultado visual minimalista na Céline (que, agora, nem tem mais esse acento agudo no "e")...

Os anos se passaram e tudo isso mudou: Alexandre não tem mais sua marca própria -- ele está à frente da À La Garçonne, de seu marido Fábio Souza, fazendo uma moda totalmente diferente (nem melhor, nem pior, só diferente); A Neon não faz mais parte do line-up da SPFW e a Cavalera ficou anos sem desfilar. No cenário internacional, Alexander McQueen se matou, a fórmula da Miuccia Prada não parece ter o mesmo impacto, Marc Jacobs não está mais na Louis Vuitton, Phoebe Philo não está mais na Celine... As minimultidões de proto-fashionistas-clandestinos se transformaram em "wannabe" influencers que, na maioria das vezes, estão lá pelo clique e não pela moda.

Nesse sentido, o cenário parece mais deprê. Mas não sei se isso procede. O fato é que a velocidade com que a informação chega até o consumidor final aumentou radicalmente. Com isso, um mercado que tinha uma estrutura semestral se viu forçado a encontrar soluções para se encaixar entre um milésimo de segundo e outro.

Para a Tommy Hilfiger, o "see now, buy now" funcionou -- assim como a parceria com celebridades - Getty Images
Para a Tommy Hilfiger, o "see now, buy now" funcionou -- assim como a parceria com celebridades
Imagem: Getty Images

"See-now-buy-when?"

Com a imagem de moda chegando ao espectador imediatamente depois do desfile, o desejo pela roupa passou a se manifestar muito mais cedo. O problema é que quando a roupa desfilada chega às araras das lojas -- isso quando ela, de fato, chega lá --, já está parecendo velha. Já fomos bombardeados por Stories, "livestreams", capas de revista, blogueiras etc. Uma das tentativas de solucionar essa questão foi o esquema "see-now-buy-now": em vez de a roupa demorar seis meses para chegar na loja, algumas marcas se prontificaram a encher as prateleiras logo depois do desfile. Para etiquetas como as gigantes Tommy Hilfiger e Burberry, isso deu certo. Para outras, menos estruturadas, esse reposicionamento quase virou uma tragédia.

Logo que o "see-now-buy-now" surgiu, a SPFW, corajosa e imediatamente, extinguiu o paralelo entre as estações do ano e suas temporadas de moda. Era o fim do Primavera-Verão/Outono-Inverno, a partir dali, as edições passaram a ser intituladas N43, N44, N45? O idealizador da principal semana de moda do Brasil, Paulo Borges, evidentemente, não obrigou todas as marcas a entrarem no sistema de compra imediata, mas a aposta nessa possibilidade de futuro estava ali.

O "see-now-buy-now", sem dúvida, foi um efeito dessa aproximação entre a passarela e o cliente. Uma resposta, de certa forma, impulsiva frente a uma nova realidade. A longo prazo, não deu tão certo. O que realmente tem se mostrado uma alternativa mais inteligente, na verdade, não está no aspecto exclusivamente mercadológico das semanas de moda, mas sim no criativo. De forma que, enquanto antes esperávamos do estilista um desfile que fosse um retrato singular de sua visão de mundo, de suas referências estéticas, de suas propostas de beleza; hoje a passarela não está totalmente sob seu comando. Agora, é preciso intencionalmente criar um diálogo com o mundo e suas questões.

Assim, a cada temporada fica mais difícil encontrar desfiles que se posicionam como independentes das tendências, que se fecham dentro de si mesmos e esperam que as pessoas -- deslumbradas com aquele universo -- queiram fazer parte dele. Os esforços estão concentrados em oferecer algo que faça sentido na vida de quem vai comprar uma peça: no seu cotidiano, no seu trabalho, nas suas ideologias, na sua cultura. Por isso, o debate que, há alguns anos, parecia eterno ou sem resposta -- moda é arte? -- parece ter se solucionado. A moda se afastou do lugar em que tangenciava a arte, mas passou a ser entendida como o espaço político do belo. Quem vai dizer se isso é bom ou ruim não sou eu. O que eu posso dizer é que é aí que começam novas e instigantes disputas.

Na temporada Inverno 2016 de alta-costura, a Vetements apresentou suas roupas na luxuosa Galeries Lafayette - Getty Images
Na temporada Inverno 2016 de alta-costura, a Vetements apresentou suas roupas na luxuosa Galeries Lafayette
Imagem: Getty Images

Uma marca chamada "Vestimenta"

Há alguns anos (ou talvez até hoje), se você chamar um fashionista de canto e perguntar por que a moda é tão interessante, provavelmente, ele vai elaborar uma resposta que quase não fala sobre roupas. Ele vai falar de semiótica, de cultura, de narrativas, de linguagem, de história, de originalidade, de performance, de estética? De roupas, pouco. Até entendo esse ponto de vista porque, de certa forma, ele foi o meu por muito tempo. O triste é que esse fashionista que se importa mais com a magia do desfile do que com a praticidade da roupa é um frustrado crônico. Um crítico irresoluto. Principalmente tendo em vista que essa, claramente, não é mais a intenção das marcas. É claro que nas semanas de moda internacionais, a parafernalha ainda está lá. As "experiências imersivas", os cenários escalafobéticos, o zum-zum-zum na porta do desfile? Mas a roupa em si -- que deveria vir carregada dessa criatividade, dessa originalidade -- decepciona. Tudo parece um grande lookbook pré-preparado para o Instagram.

Na contramão de tudo e de todos, em 2015, surge a Vetements, marca do russo Demna Gvasalia que hoje é diretor criativo também da Balenciaga. É ele o criador dos "tênis feios" que custam caríssimo e são hit entre a geração Z. Mas, antes de ele ser esse fenômeno, Gvasalia era -- e continua sendo -- um provocador. "Vetements", do francês, quer dizer "roupa, vestimenta". Já do nome, entende-se a ironia: um lembrete ácido de que, no fim das contas, o que estamos fazendo ao armar um desfile, é mostrar roupas para o mundo. De modo que as peças que ele desenha são absolutamente comuns. Elas falam diretamente com o que está acontecendo nas ruas agora. Quase não há interferência do designer nesse sentido e, curiosamente, é aí que reside a sua coragem.

No verão 2016, na semana de Alta-Costura, ele desfilou sua Vetements na Galeries Lafayette -- loja de departamentos de luxo, em Paris. No meio desse cenário em que se pressupõe o refinamento, o bordado intrincado, a alfaiataria impecável, riscaram a passarela roupas que são o total oposto disso. Quase como se, no fundo, ele estivesse querendo provar que essas peças supostamente banais tem o mesmo valor, a mesma importância, do que um vestido de noiva da Ralph & Russo. Bom, pelo menos os preços elevados (mesmo para os padrões do luxo) que ele cobra por suas jaquetas e calças oversized passam essa mensagem.

E Gvasalia não está sozinho. O sportswear tomou uma proporção que vai muito além de usar o repertório da roupa de ginástica para criar peças "diferentonas". Conforto importa. Ninguém mais aceita que um estilista chegue com propostas absurdas de roupas "investíveis". O trabalho de Virgil Abloh em sua Off-White -- e agora também no masculino da Louis Vuitton -- é o de colocar a bermuda de ciclista no mesmo patamar do blazer de alfaiataria, a camiseta GGG frente a frente com a saia de georgette em camadas etc. Isso sem contar na herança cultural que essa roupa carrega. Virgil é, provavelmente, o estilista mais representativo do hip-hop na moda. Considerando o quão importante o gênero se tornou na cultura pop, Virgil e Gvasalia talvez sejam a novidade mais verdadeira desse novo momento.

Na coleção Verão 2017, a Christian Dior apresentou sua camiseta "Todos deveríamos ser feministas" - AFP
Na coleção Verão 2017, a Christian Dior apresentou sua camiseta "Todos deveríamos ser feministas"
Imagem: AFP

"Todos nós deveríamos ser feministas", mas será que conseguimos?

Essa frase, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, estampava uma camiseta da primeira coleção de Maria Grazia Chiuri para a Dior. A estilista italiana entrou na direção criativa da histórica maison francesa logo depois da saída do belga Raf Simons e, com esse statement -- aliado a um desfile de roupas fáceis de entender e de usar -- provou que a moda precisa se posicionar. Principalmente, porque precisa desesperadamente falar com alguém, fazer parte da realidade. Foi-se o tempo em que a realidade podia ser ignorada por completo. John Galliano, estilista da casa antes ainda de Raf Simons, seguia única e exclusivamente a batuta de sua própria caixola. Volumes absurdos, técnicas minuciosas, temas completamente malucos? O desfile era feito sem pensar em ninguém e agora o desfile é feito pensando em todo mundo. O problema é que ao colocar a passarela como esse espaço de realidade, a diversidade se agrava enquanto questão a ser resolvida. Se é para que nos vejamos representados ali, se é para falar com as pessoas e se conectar com elas que existe um desfile, por que as modelos ainda representam 1% da população mundial (garotas majoritariamente brancas com quase 1,80 metro pesando 60 quilos)?

Alguns esforços em termos de diversidade se destacam, principalmente aqueles oriundos do trabalho de estilistas negros. A marca nova-iorquina Pyer Moss é um bom exemplo, o próprio Virgil Abloh na Off-White e na Louis Vuitton também. Aqui no Brasil, Isaac Silva -- na semana de moda alternativa Casa de Criadores -- é um dos nomes mais importantes. Na SPFW, já tivemos a LAB, do rapper Emicida que, para além de fazer um casting majoritariamente negro, trabalhou com corpos de diferentes tamanhos, coisa que raramente se vê.

Dentro dessa nova configuração do papel do desfile, muitas questões que anteriormente nem seriam debatidas tornaram-se pontos centrais que devem ser levados em consideração. Se o mundo da moda ambiciona esse crescimento, é preciso tirar alguns de seus principais agentes de sua posição de conforto. Já estava passando da hora.

Quem é o papa?

No tarô, o arcano do papa representa a relação que temos com as instituições as quais nos submetemos para alcançar um bem maior. Pode ser uma religião, é claro, mas não para por aí: serve para empresas, grupos, clubes etc. O papa fala sobre essa estrutura organizada em que cada um cumpre um papel e o resultado desses esforços é aproveitado por todos os envolvidos. O que me parece é que a moda, nesse momento, é um "papa quebrado". No sentido de que a instituição da semana de moda permanece lá, continua acontecendo, mas cada desfile parece seguir o seu próprio propósito. Alguns mantêm-se completamente alienados a essa transformação que vem acontecendo na passarela, enquanto outros parecem liderar o movimento.

Na 47ª edição da SPFW, é evidente o trabalho da organização do evento em tentar consertar esse papa. Não à toa, há no line-up uma profusão de marcas jovens que já nascem com essa nova maneira de pensar desfiles. Para além do corpo já espesso de estreantes, também existe uma série de grifes que passaram a se apresentar muito recentemente. Só de bater o olho no cronograma, dá para entender com clareza que, de alguma maneira, a SPFW está apostando em etiquetas que podem ser os nomes de peso do futuro. O resultado é um line-up incerto, cheio de lacunas, de perguntas e de não-saberes. Mas, por outro lado, ele pode ser primeiro esboço de consistência depois de anos com um cardápio flutuante de marcas que se apresentam e nunca mais voltam. Sem dúvida, a SPFW, enquanto evento, compreendeu a sua necessidade de renovação e está fazendo o que pode para que isso aconteça. O que vamos descobrir nesta semana é se estas foram as escolhas certas para alcançar esse objetivo.

Mauricio Santana/Getty Images
Imagem: Mauricio Santana/Getty Images

Fique de olho nestes desfiles

Neriage: Marca estreante da estilista Rafaella Caniello que se inspira em grandes clássicos da literatura para desenvolver coleções com poucos looks, mas muito esmero artesanal. Antes da SPFW, já desfilou algumas vezes, com sucesso de críticas, na Casa de Criadores.

LED: Do mineiro Célio Dias, a marca é querida por celebridades como Liniker, Jaloo, Ludmilla e Rico Dalasam, principalmente por sua veia política. Na temporada passada, o estilista entrou na passarela com uma camiseta com os dizeres "Ele Não".

Ocksa: Ex-Casa de Criadores, a etiqueta gaúcha de Igor Crivellaro já é conhecida por seus exercícios complexos de modelagem e sua ligação o estilo neo-clubber que tem fervido pelos galpões abandonados de São Paulo em festas de música eletrônica.

Another Place: Estrelas do pop como Anitta e Pabllo Vittar estão entre as clientes dos pernambucanos Rafael Nascimento e Caio Fortes. A dupla é especializada em uma moda esportiva que promete vestir qualquer gênero.

Cacete Company: Tiago Carvalho e Raphael Ribeiro estrearam oficialmente na temporada passada no line-up da SPFW. Juntos, eles se inspiram no universo do underground e até da pornografia para criar suas peças esportivas e "logomaníacas".

Modem: A marca de André Boffano é, sem dúvida, a mais próxima de um prêt-à-porter completo. Profundamente ligada ao universo das artes plásticas, trabalha modelagens arquitetônicas possíveis para o dia a dia e ainda conta com uma linha de acessórios repleta de identidade.

PIET: Pedro Andrade mistura alfaiataria e sportswear com rara naturalidade. Seu produto final não parece forçado. Sua habilidade em fazer essa combinação com maestria chamou atenção de marcas como Nike e Rider que já fecharam parcerias de sucesso com ele.

Ponto Firme: Gustavo Silvestre ensina crochê para os detentos da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande São Paulo. O resultado da produção de seus alunos é compilado neste desfile. Na primeira vez em que se apresentou na SPFW, o projeto falou sobre o dia a dia na prisão com uma coleção cheia de vida, emocionante e antenada.

Flávia Aranha: Comemorando dez anos de marca própria, a estilista que é um dos nomes mais importantes da moda sustentável e do slow-fashion no Brasil finalmente se apresenta na SPFW. Espere por processos artesanais transparentes e novas propostas de fazer uma indústria da moda mais verde.

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