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Violência contra a mulher

Corredora de rua sobre assédio: "Me aproximei e ele começou a se masturbar"

A professora Karla Silva, de Florianópolis  - Arquivo pessoal
A professora Karla Silva, de Florianópolis Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

Da Universa

21/02/2019 15h42

"Gostosa", "vai, cavala" ou "corre lá para casa" são algumas das falas constrangedores que a professora Karla Silva, de Florianópolis, já ouviu quando estava fazendo treinos de corrida na rua. Ela diz que esse é um comportamento masculino frequente, que acontece também contra outras corredoras. Elas contam que presenciam não apenas provocações verbais, mas agressões físicas e intimidações.

No episódio de assédio que considera o pior que viveu, Karla saiu para correr depois do trabalho, ainda sob o sol, em uma avenida da cidade. "De repente, vi um cara que, simplesmente, abaixou a calça e começou a se masturbar quando me aproximei. Passei do lado, mas continuei olhando para frente e acelerei. Não disse nada por medo de ele vir para cima", diz.

Recentemente, ao correr às 6h de um sábado, uma outra situação a deixou morrendo de medo: um grupo de rapazes, saindo de uma festa, correu atrás dela, falando palavrões. "Eu usava minha mochila e ouvi eles dizendo que iam puxá-la e me fazer cair. Isso durou alguns minutos, até que fui para o lado de um posto de polícia e eles pararam de correr."

Leia abaixo relatos de outras mulheres que passaram por situações parecidas.
 

"Respondi às provocações, eles desceram do carro e bateram no meu marido"

A paulistana Cacia Sodré saiu para treinar com o marido e, em certo trecho, quando ele havia ficado para trás, quatro homens de dentro de um carro começaram a assediá-la. O carro fazia zigue-zague, se aproximava e se afastava dela. "Fiquei super nervosa. Eles zombavam 'ei, mocinha, ei, gostosa'". Cacia então respondeu, com palavrões, e os homens pararam o carro no meio da pista, apesar das buzinas de quem estava atrás.

"Quatro homens desceram e vieram para cima de mim. Nisso, apareceu meu marido correndo. Chegou chegando, perguntou o que estavam fazendo e mandando saírem de lá. Eles jogaram meu marido no chão e o espancaram. Chutaram muito. Gritei, desesperada, e uma pessoa apareceu dizendo que ia chamar a polícia. Nessa hora, eles entraram no carro e fugiram."

Cacia diz que não fica mais sozinha em seus treinos na rua. "E prefiro ir para um parque ou para a academia. Mudei o comportamento até em relação à roupa. Se colocar um short mais curto, sei que vão mexer comigo."

"O cara puxou meu short e rasgou minha calcinha"

renata corredora assediada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A educadora física Renata Lopes
Imagem: Arquivo pessoal

A educadora física Renata Lopes corria às 6h de um domingo em uma avenida de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. "Um grupo de homens passou de carro e mexeu comigo, mas não liguei", conta. "Foi quando vi um deles saindo com metade do corpo do carro. Ele puxou meu short pra cima e me levantou. Foi tão forte, que minha calcinha arrebentou e eu caí. Foi horrível e tudo muito rápido", lembra.

Quando se levantou, Renata foi até uma loja, ainda fechada, e pediu ajuda ao segurança, que vendo seu desespero, abriu o lugar para ela entrar. De lá, ela ligou para o marido, que sugeriu que fossem fazer um boletim de ocorrência. "O problema é que eu não tinha visto a placa do carro. Minha cabeça estava a milhão, e achei que não daria em nada denunciar." 

"Um rapaz passou de bicicleta, diminuiu a velocidade e ficou colado ao meu corpo"

gisele corredora assediada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gisele Trento criou um perfil no Instagram com caso de assédio a corredoras
Imagem: Arquivo pessoal

A professora Giseli Trento Andrade e Silva passou por uma situação de intimidação em um de seus treinos. "Um rapaz passou de bicicleta, diminuiu a velocidade e ficou colado ao meu corpo. Depois, foi um pouco para frente, olhou para trás e fez gestos com a boca", conta Giseli.

"Ele deu a volta na quadra, reapareceu e colou do meu lado de novo. Fiquei com muito medo. Notei que havia umas crianças em uma escadaria, vi que era uma escola, e subi para pedir ajuda." Giseli então ligou para o marido e pediu que ele fosse buscá-la no lugar onde estava. 

"Medo real só senti dessa vez. Mas palavrões, gestos, assovios, palavras sobre as minhas partes íntimas, carro devagar do lado acompanhando... Isso tudo é muito frequente", diz. 

Conversando com outras mulheres, ela percebeu que os assédios eram mais comuns do que imaginava. Durante um treino, depois de mais um comentário inoportuno, disse para si mesma: "Me deixem em paz, só quero treinar", e teve a ideia de criar uma conta no Instagram com o nome Só Quero Treinar. O perfil, que tem três meses e cerca de 10 mil seguidores, compila relatos de corredoras assediadas.

"Muitas mulheres falam que é normal, que é assim mesmo. Mas não dá para tratar isso com naturalidade. Só queria que deixassem a gente correr sem ser importunada."

"Diminuí a velocidade achando que ele queria informação, mas me chamou para entrar no motel"

waleria corredora assediada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A corredora Waleria Furtado, de Fortaleza
Imagem: Arquivo pessoal

A gerente de contas Waleria Furtado corria em uma avenida de Fortaleza e estava prestes a passar em frente a um motel. Ela viu um senhor falando e olhando para ela, fazendo gestos como se a estivesse chamando. Imaginou que ele queria pedir informações. "Diminuí a velocidade para falar com ele. Parecia uma pessoa inofensiva. E aí ele fez um convite para entrarmos no motel" diz. "Quando me dei conta, fiquei sem reação. Não respondi e continuei meu treino."

Waleria também diz que assédios são rotineiros em suas corridas e que está "descolada". "Não parei de correr sozinha, sempre tem buzina, os homens falam coisas. Só coloco os fones e vou embora. Fazer o quê?"

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