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Morre o estilista Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel e da Fendi

Mariana Araújo e Andressa Zanandrea

da Universa, em São Paulo

19/02/2019 08h45

O estilista Karl Lagerfeld, diretor criativo das grifes Chanel e Fendi, morreu nesta terça-feira (19), em Paris. 

A informação sobre a perda do Kaiser, aos 85 anos, foi confirmada pela Chanel, em comunicado oficial. "É com grande tristeza que a Casa Chanel anuncia o falecimento de Karl Lagerfeld. Um indivíduo extraordinariamente criativo, Karl reinventou os códigos da marca criados por Gabrielle Chanel: a jaqueta e o terno, o vestidinho preto, os preciosos tweeds, sapatos bicolores, as pérolas e as joias", afirma o texto da grife.

Segundo a revista francesa "Closer", Karl faleceu no Hospital Americano de Paris, em Neuilly-sur-Seine, após ser admitido no pronto-socorro na segunda-feira (18) à noite. A causa da morte, segundo o jornal britânico "Daily Mail", teria sido câncer de pâncreas. A grife, no entanto, não citou publicamente a doença. Virginie Viard, braço direito Lagerfeld, assume a direção criativa da Chanel.

Uma de suas últimas aparições públicas: Karl Lagerfeld no encerramento do desfile de primavera/verão 2019 prêt-à-porter da Chanel na Semana de Moda de Paris, em 2 de outubro de 2018. - Getty Images
Uma de suas últimas aparições públicas: Karl Lagerfeld no encerramento do desfile de primavera/verão 2019 prêt-à-porter da Chanel na Semana de Moda de Paris, em 2 de outubro de 2018.
Imagem: Getty Images

Alain Wertheimer, CEO da Chanel também se pronunciou publicamente. "Graças ao seu gênio criativo, generosidade e intuição excepcionais, Karl Lagerfeld estava à frente de seu tempo, o que contribuiu vastamente para o sucesso da casa ao redor do mundo. Hoje, não só perdi um amigo, como todos nós perdemos uma mente extraordinária para quem eu dei carta-branca no início dos anos 80 para que ele reinventasse a marca."

O designer é, de fato, responsável por várias mudanças tanto na Chanel quanto na Fendi, bem como por dirigir e executar desfiles suntuosos, com cenários deslumbrantes Pelas mãos dele, o Grand Palais, em Paris, ganhou praia artificial com areia e ondas, colunas gregas, cachoeiras e corredores de supermercado, entre outros. Pela Fendi, em 2016, fez uma apresentação em uma passarela transparente em cima da Fontana di Trevi, em Roma, que foi revitalizada com patrocínio da grife.

Karl durante o desfile cubano da Chanel - Getty Images
Karl durante o desfile cubano da Chanel
Imagem: Getty Images

Origem e ascensão 

Karl Otto Lagerfeldt nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 10 de setembro de 1933, filho do empresário local Otto Lagerfeldt e da sueca Elisabeth Bahlmann. Mais tarde, ele mudaria seu nome para se tornar mais "comercial". 

O estilista se mudou para Paris quando tinha 14 anos, estudou história e desenho e se formou no Lycée Montaigne. "Meu pai... Ele nunca poderia me dizer não, então eu consegui tudo o que quis. Eu tive um Bentley aos 20 anos", confessou ao "Hollywood Reporter" sobre sua criação privilegiada.

Em 1955, ele ganhou um concurso em Paris ao desenhar um casaco de lã. A premiação o levou a se tornar assistente de Pierre Balmain. O alemão estava à frente da Fendi desde 1965, da Chanel desde 1983 e de sua grife homônima desde 1974. Ele ainda passou pela Jean Patou e pela Chloé, além de ter colaborado com diversas marcas fast-fashion, entre elas a brasileira Riachuelo.

O estilo e o impacto do Kaiser na moda

Ao longo dos anos, o estilista modernizou as estruturas da Chanel. De olho em consumidores mais jovens e de países em desenvolvimento, como indianos e chineses, levou irreverência às tradicionais jaquetas de tweed da grife, incorporando brilhos e formas mais leves às peças, além de referências da cultura pop contemporânea para os designs reconhecidos da fundadora, Gabrielle Chanel.

Em outubro de 2013, Karl Lagerfeld veio ao Brasil para a abertura exposição "Little Black Jacket", que celebrava a história da peça icônica da Chanel, em 133 imagens, fotografadas por Karl. A mostra ficou em cartaz na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. No ano seguinte, ele elaborou um desfile-protesto, em que as modelos cruzaram as passarelas mostrando não só a coleção de primavera/verão 2015, mas cartazes feministas.

Em 2016, Karl promoveu o primeiro desfile de uma marca internacional em Cuba após a abertura econômica, mostrando a coleção Cruise 2016/2017 no Paseo del Prado, em Havana. Já em dezembro de 2018, ele decidiu que a grife não usaria mais peles de animais em suas criações.

Ele já foi chamado pela "Vogue" americana de "mestre da reinvenção" e um "homem da renascença francesa sempre em mutação". Segundo o "WWD", o impacto de seu estilo rocker nas bolsas e terninhos da grife era tão intenso que "Karl Lagerfeld era quase tão sinônimo de Chanel quanto a própria Coco Chanel".

Ao longo de sua carreira, ele ainda se tornou reconhecido por seu envolvimento em polêmicas, a mais recente, a respeito do movimento #MeToo. Em entrevista à revista francesa "Numéro" em abril de 2018, Karl Lagerfeld duvidou da veracidade das alegações das sobreviventes famosas de assédios e abusos sexuais.

"Estou cansado disso... O que me choca mais é que todas essas estrelas levaram 20 anos para se lembrar do que aconteceu. Além disso, não há nenhuma testemunha de acusação". No entanto, o estilista fez questão de pontuar que "não suportava" Harvey Weinstein. 

"Li em algum lugar que agora você precisa perguntar a uma modelo se ela se sente confortável ao posar. É demais. De agora em diante, como estilista, você não pode fazer mais nada".

Colaboradores e amigos famosos de Karl

Em sua carreira paralela, a fotografia, ele chegou a clicar modelos tão distintas como Kendall Jenner, Conchita Wurst e o brasileiro Cauã Reymond. Até mesmo sua gata Choupette, de 7 anos, se converteu em contínua fonte de inspiração de coleções de sua grife -- e se tornou um ícone no Instagram, com mais de 117 mil seguidores. Entre as clientes e musas famosas do alemão estão Lady Gaga, Carine Roitfeld, Kristen Stewart e Lily Rose-Depp, Madonna, Pharrell Williams, Keira Knightley e Justin Bieber.

"Karl sempre, desde o começo, me fez sentir como se ser eu mesma fosse a coisa certa a fazer. E, no mundo da moda, esta é uma raridade. Ele é um artista compulsivo e obsessivo e isso é contagiante. Ele é gentil. Ele é quem é por uma razão. Sinto que sou tão sortuda por estar perto dele com frequência", disse Kristen à revista "V" em 2017.

Os últimos anos de trabalho

Ao longo das últimas décadas, ele conquistou e colecionou diversos prêmios. "Eu desenho como eu respiro. Você não pede para respirar, apenas acontece", explicou sobre seu processo criativo ao receber o Couture Council Fashion Visionary Award, em 2010.

Notoriamente ativo, sua ausência no último desfile de alta-costura da Chanel em Paris, em 22 de janeiro, surpreendeu o mundo da moda. Em comunicado, a companhia havia justificado que Karl estava se sentindo bastante cansado.

De acordo com o site especializado "WWD", o designer deixou instruções para o desfile de outono/inverno prêt-à-porter da Fendi, que acontece na quinta-feira (21), em Milão. A apresentação da Chanel na Semana de Moda de Paris está programada para terça-feira (5). 

Relembre algumas das últimas criações do Kaiser: o desfile Métiers d'Arts 2018/2019 da Chanel, que aconteceu em dezembro em Nova York.

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