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Mapa da mina


Ela começou vendendo doces na rua e hoje produz até cinco toneladas por mês

Maria José de Lima Freitas, da Mazé Doces - Arquivo pessoal
Maria José de Lima Freitas, da Mazé Doces Imagem: Arquivo pessoal

Simone Cunha

Colaboração para Universa

08/02/2019 04h00

Maria José de Lima Freitas, 48, é a empreendedora responsável pela Mazé Doces. Mineira, de fala tranquila, ela conta sua história com um sentimento de gratidão por tudo o que passou, até pelos momentos mais difíceis. "Mesmo quando tudo parecia dar errado, eu não podia desistir, tinha dívida para pagar, dois filhos para sustentar... E ainda bem que continuei", diz. 

Ela lembra que, na roça, ainda menina, a mãe lhe atribuía o dever de fazer os doces: "Eu não gostava, pois vinha marimbondo por causa do açúcar das frutas. Mas entendo que minha mãe estava plantando uma semente que, mais tarde, iria florescer. E foi no momento em que eu mais precisava, para comprar alimento para a minha família". 

Ela passou a infância no campo, em um pequeno vilarejo, e, ao se casar, mudou-se para Carmópolis (MG). Na cidade, conseguiu emprego para fazer limpeza em uma cooperativa de crédito. E garante que foi feliz por quatro anos nesse trabalho. Nessa época, já era mãe de Tirzah (hoje com 28 anos) e engravidou do segundo filho, o Gabriel, que está com 21. Ela então saiu de licença maternidade e, quando voltou, foi demitida: "Perdi algo que muito amava, o meu trabalho, e a renda que provia a minha casa". 

Foi vivendo com o dinheiro da rescisão o quanto deu, procurando emprego, sem conseguir nada. Depois de quase um ano, percebeu que precisava mudar de rumo. Acordou com a ideia de fazer algo para vender. Pegou leite fiado, arrumou um tacho emprestado e fez doce de leite com amendoim. Saiu na rua, ao lado da filha, e conseguiu cerca de R$ 20 com as vendas, que dividiu entre uma comprinha de alimentos e mais ingredientes para repetir a receita. 

Depois de um mês, tomou coragem e ofereceu seus doces em uma lanchonete da cidade. O dono olhou e perguntou se ela fazia cristalizado. Ela nunca havia feito, mas se sentiu desafiada a tentar.

Em busca de formação e apoio

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Procurou uma doceira da região que a ensinou, só que a receita não deu certo. Mas, naquelas condições, não podia desperdiçar nada. Saiu para a rua assim mesmo e conseguiu vender tudo. Desde esse dia, passou a fazer os doces de terça a quinta-feira e, na sexta, saía para vender nas ruas. Logo depois, houve uma festa na cidade e ela montou uma barraca para vender seus doces.

O dono da lanchonete apareceu, provou e criticou, disse que os doces estavam ruins. Foi aí que ela ficou sabendo de um curso em uma cidade próxima e decidiu se aprofundar. Depois das aulas, percebeu que precisava investir um pouco mais na sua cozinha. "Tentei um empréstimo de R$ 5 mil no banco, mas não foi aprovado. Consegui o dinheiro com pessoas conhecidas, com juros mais altos, para fazer o que precisava. Levei quatro anos e meio para pagar essa dívida, quitada em 2004", lembra. 

De um orelhão, ligou para o Sebrae para pedir algumas orientações e eles lhe mandaram um tipo de cartilha, chamada Ponto de Partida, com informações sobre como desenvolver o negócio. "Não podia fazer uma coisa de cada vez. Tinha que preparar os doces e ainda entender como funcionava uma pequena empresa. Era complicado, um vocabulário pouco comum, por isso, voltei a estudar. Terminei o Ensino Médio para conseguir ler mais, compreender e fazer contas", afirma. 

As primeiras críticas, recebidas do comerciante da cidade, foram feitas em julho de 1999. Em setembro, ela fez o doce novamente e mandou entregar na casa dele: "Tinha feito 16 bandejas de doce. Logo depois, a mulher do dono da lanchonete apareceu e disse que ele havia mandando levar o que eu tivesse. Comprou tudo. Na época, me rendeu R$ 64 reais".

Fábrica e loja próprias 

Por mais quatro anos, Mazé continuou vendendo os doces tradicionais em casa e fazia os cristalizados para a lanchonete. Já conseguia o suficiente para cobrir os gastos básicos, mas sem excessos. O que sobrava era guardado. Nesse período, outro cliente a procurou para levar os doces para o Rio de Janeiro. Em 2003, ela contratou sua primeira funcionária e, em 2004, fez seu primeiro curso no Sebrae, o Empretec.   

"O curso me deu clareza e resgatou minhas caraterísticas empreendedoras", diz. Mazé registrou a empresa em 2005, no mesmo ano em que comprou um terreno e montou a sua fábrica. Naquela época, já estava com a vida financeira estabilizada e, só para a lanchonete, vendia semanalmente entre R$ 600 e R$ 800. Em 2007, inaugurou sua loja que, até hoje, vende compotas, geleias, doces em barra e cristalizados. São cerca de 70 variações.   

Empolgada, decidiu abrir outra loja em Divinópolis alguns anos mais tarde. Mas o empreendimento não deu o retorno esperado. Rapidamente, Mazé fechou o negócio, administrou as dívidas que ficaram e conseguiu se recuperar. Atualmente, ela produz de três a cinco toneladas de doces por mês, que podem ser encontrados em vários estados da região sudeste do país. Para dar conta de tudo isso, emprega 21 funcionários.

Maria José de Lima Freitas, da Mazé Doces, e os filhos - Arquivo pessoal
Maria José de Lima Freitas, da Mazé Doces, e os filhos
Imagem: Arquivo pessoal

A doce Mazé 

Hoje, ela garante que vive com conforto. Pôde realizar alguns sonhos: investir em carros, uma paixão, e viajar algumas vezes para seus destinos favoritos, que são Paris, Punta del Leste e Chile. "Continuo trabalhando muito, mas a vida não é só caminhar, é preciso curtir o caminho", diz. Diariamente, ela vai à fábrica e supervisiona todos os processos. Seu trabalho é sua paixão.

Para quem pretende empreender, ela reforça que é preciso acreditar no próprio sonho, além de se reinventar de tempos em tempos, para acompanhar as mudanças que acontecem com os consumidores: "Já tenho muitos novos planos, só não posso contar ainda. Mas minha mente não para de criar".