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Amor x covid: fechamento de fronteiras parte corações e põe casais à prova

A pandemia deixou inúmeras relações amorosas em um limbo, aferradas às frias telas - Getty Images
A pandemia deixou inúmeras relações amorosas em um limbo, aferradas às frias telas Imagem: Getty Images

Da AFP, em Montevidéu

17/09/2020 16h20

Nem juntos, nem separados. A pandemia fez uma vítima sobre a qual não se costuma falar, o amor, e deixou inúmeras relações amorosas em um limbo, aferradas às frias telas.

A AFP selecionou as histórias de quatro casais surpreendidos pelo coronavírus em diferentes países.

Rodrigo e Alejandra - El Salvador/Equador

O amor entre o salvadorenho Rodrigo Torres, de 24 anos, e a equatoriana Alejandra, de 28, nasceu no mesmo lugar que aquele que iria separá-los meses depois: os dois se conheceram na cidade chinesa de Wuhan, em dezembro de 2018.

Viviam na mesma república para estudantes estrangeiros.

"Morava em cima do meu apartamento, mas nunca tínhamos conversado", conta Rodrigo. Até que se esbarraram na cozinha comunitária.

"Me convidou para comer torresmo e foi assim que eu a conheci", completou.

Começaram a sair em junho de 2019, com a promessa de continuar a distância. Ela partiu para o Sri Lanka para estudar inglês, e ele, análises de dados em Hong Kong.

Quando os protestos contra o governo explodiram no território chinês, enchendo o ar de gás lacrimogêneo e de incerteza, Rodrigo decidiu visitar Alejandra no Sri Lanka.

"Hong Kong parecia uma zona de guerra", conta.

Na volta para a China, começou-se a falar de um vírus, e seu relacionamento passou para o terreno do WhatsApp.

"Ficou muito complicado para voltarmos a nos encontrar", lamenta Rodrigo. Eles acabaram terminando, há um mês, angustiados pela distância e pelas restrições.

"Se ela tivesse podido entrar como turista, acho que teríamos podido continuar juntos", completou.

Alejandra e Gary - Peru/Nova Zelândia

Alejandra, de 29, diz que nunca se esquecerá de seu último aniversário, em 15 de março. Nessa data, ela estava com sua família e o namorado, Gary, de 38. Ambos se conheceram em maio de 2019, na Nova Zelândia, aonde ela foi fazer um programa de trabalho e férias.

A visita à América do Sul era apenas uma parada antes de se instalar na Austrália, para depois voltar para a Nova Zelândia. Nesse dia, porém, com o anúncio do fechamento de fronteiras no Peru, tudo veio abaixo. Sem trabalho, o casal decidiu que Gary tomaria um voo de repatriação em abril. Seis dias depois, Alejandra soube que estava grávida. A notícia foi recebida com surpresa, mas também com alegria.

Alejandra solicitou um visto de exceção para viajar, várias vezes rejeitado. E, enquanto a pandemia aumentava no Peru, teve de se confinar: sem trabalho e afastada do namorado por dois oceanos.

Em uma consulta de rotina, sozinha, soube que a gestação não chegaria ao fim. "Já tinha me iludido, fizemos planos (...) Ele teve que me acompanhar, enquanto eu chorava por videochamada", conta.

Alejandra lamenta a rigidez do governo neozelandês, o qual acusa de privilegiar as empresas sobre as pessoas. "A última roda do carro foram as famílias", critica.

Agora, resta uma saída. Gary pode ir buscá-la no Peru, uma custosa exceção permitida pelo governo neozelandês, o que o obrigaria a se ausentar mais de um mês do único trabalho que conseguiu.

"Se conseguirmos superar isso, poderemos superar tudo", diz Alejandra.

María Teresa e Mario - Chile/Brasil

Foi amor à primeira vista. Mario, de 35, aproximou-se de María Teresa, de 30, durante uma festa em Santiago, em fevereiro de 2017.

Ela, uma enfermeira chilena, passava um tempo com as amigas. Ele, um biólogo brasileiro que se tornou paisagista, estava de férias no Chile. Estão juntos desde então.

Antes da pandemia, conseguiam se ver uma vez por mês. Mas os dois queriam mais, e Mario pediu María Teresa em casamento em dezembro de 2019. Ela disse sim.

Viram-se pela última vez em meados de abril, antes de o Chile fechar suas fronteiras. Cinco meses, mas o tempo voou. Mario, que tem uma loja de plantas ornamentais no Rio de Janeiro, teve um sucesso inesperado durante o confinamento. María Teresa tampouco ficou parada, entregue à luta contra a pandemia em um hospital público.

Ele liga para ela todas as manhãs, trocam mensagens por Whatsapp e, à noite, fazem videochamada.

Agora, o horizonte parece clarear. Querem se encontrar no fim do mês no Brasil, mas, se o plano falhar, estão tranquilos. Ambos dizem que têm muito tempo pela frente. "Isso nos consola", afirma.

Santiago e Nicolás - Colômbia/Reino Unido

Santiago, de 28, conheceu Nicolás, de 27, em Bogotá, há quase cinco anos no aplicativo de relacionamentos Tinder. E, desde então, nunca haviam se separado por tanto tempo como agora.

Nicolás embarcou para Londres, em maio de 2019, para fazer um programa na empresa em que trabalha na Colômbia. Esperavam passar o ano sem sentir tanto a falta um do outro. Em outubro, Santiago foi visitá-lo e, em dezembro, Nicolás voltou para as festas. O encontro seguinte, em março, foi frustrado.

"Quando o voo foi cancelado, pensei que seria apenas um adiamento por uma quarentena", conta Santiago. Nove meses já se passaram, e o retorno de seu namorado foi adiado duas vezes.

A diferença de fuso horário de seis horas tem complicado a comunicação.

"Falamos de manhã e depois mandamos um relato do dia. Conte de mim para ele e do nosso cachorro. Vira rotina. E também, quando tenho tempo para falar, ele quer dormir, porque já é meia-noite", acrescenta Santiago.

Ainda sem saber quando, Santiago faz planos para a volta de Nicolás. "Está decidido: depois de chegar e cumprir a quarentena, vamos viajar os três sozinhos" — eles e o cão.

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