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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cancelado? Não. No Instagram, número de seguidores de Maurício Souza dobra

Maurício Souza foi demitido do Minas Clube após declaração homofóbica no Instagram - Reprodução/Instagram
Maurício Souza foi demitido do Minas Clube após declaração homofóbica no Instagram Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

28/10/2021 14h10

Essa semana, o jogador de vôlei Maurício Souza foi parar em todos os noticiários por um motivo péssimo. Depois de fazer uma declaração homofóbica no Instagram, ele foi demitido do clube onde jogava, o Minas Tênis Clube. A demissão, tudo indica, aconteceu depois que patrocinadores (pressionados por setores da sociedade civil) cobraram isso do clube.

É importante que um jogador seja demitido por causa de uma posição homofóbica, ainda mais em um ambiente cheio de testosterona como o mundo dos esportes. As coisas estão mudando. Mas, pelo jeito, Maurício, apesar de ter perdido o trabalho, vai fazer sucesso e ser recompensado pela sua atitude errada. Sim, em um país como o Brasil, machismo e homofobia, na maioria das vezes, compensam.

Uma prova disso: Maurício mais do que dobrou seu número de seguidores no Instagram depois de ser acusado de homofobia. Antes da acusação, ele tinha cerca de 250 mil seguidores. Na manhã de quinta-feira (28), o número já passava de 530 mil.

Esse é um fenômeno comum no Brasil, onde homens ganham seguidores até depois de serem presos acusados de agredir mulheres. Esse foi o caso do DJ Ivis, preso em julho depois que um vídeo dele agredindo a ex-mulher viralizou. Na ocasião, ele ganhou 100 mil seguidores em algumas horas.

No caso de Maurício, ele parece ter percebido que, apesar de demitido, fala por muita gente e parece estar aproveitando o "sucesso". Sim, apesar de intensamente criticado, ele agradou parte da população preconceituosa do país e tem recebido agradecimentos, como se fosse um herói que luta pela liberdade. É possível que seu cachê para fazer presença vip em eventos aumente.

Apesar de ter sido demitido, não acho que sua carreira tenha acabado. Já vimos isso acontecer antes. Os homens, principalmente os héteros e brancos, que desfrutam de todos os privilégios, costumam se dar bem mesmo quando são "cancelados". No caso das mulheres não é bem assim. Principalmente se se tratar de uma mulher negra.

O caso Karol Conká

O exemplo mais gritante disso é o caso Karol Conká. A cantora, que teve uma participação péssima no Big Brother Brasil, teve recorde de rejeição no programa. Só que, diferentemente do que acontece com a maioria dos homens "polêmicos", ela não foi recompensada pelo seu comportamento.

Enquanto homens acusados de agredir mulheres ganham reality shows, Karol, depois de sair do BBB, viu sua oferta para shows diminuir, assim como o seu cachê. Segundo um levantamento do jornal "Extra", a cantora continua, em outubro de 2021, com dificuldade de marcar shows, já que a maioria dos contratantes não quer se ligar ao seu nome.

Ao mesmo tempo, o cachê de Rodolffo, que foi acusado de machismo e racismo durante o programa, continua lucrando com sua persona pós-BBB.

De acordo com o jornal "Extra", a dupla sertaneja da qual faz parte, Israel e Rodolffo, cobrava 80 mil reais por show antes do programa. Agora, eles cobram cerca de 300 mil reais e têm a agenda lotada. A dupla vai ganhar 700 mil reais só com um show em uma festa de Réveillon.

Pois é. Karol, mulher e negra, por enquanto é a única cancelada do Brasil. Por que será?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL