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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Solteira e sem filhos': quantos preconceitos cabem em concursos de beleza?

A atual Miss Universo, Andrea Meza (que também é Miss México), quase perdeu o reinado depois de ser "acusada " de ser casada - Reprodução/Instagram
A atual Miss Universo, Andrea Meza (que também é Miss México), quase perdeu o reinado depois de ser "acusada " de ser casada Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

27/10/2021 04h00

Desde terça-feira (26) os regulamentos do concurso "Rainha da Uva", uma celebração tradicional que acontece em São Miguel do Arcanjo, no interior de São Paulo, vêm causando alvoroço nas redes sociais. Isso porque, ao divulgar a competição, os organizadores divulgaram na internet um "card" onde estão escritos os requisitos: 1. Ter entre 18 e 25 anos; ser solteira; não ter filhos.

Na internet, essas regras causaram uma justa indignação e protestos. Afinal, quantos preconceitos cabem nessas "regras"? Uma mulher que tenha filho é excluída? O nome disso é discriminação. E por que excluir uma mãe e uma mulher casada? Porque elas não servem ao modelo de ninfeta que eles querem vender? Ou porque acham que mães não podem ser bonitas e se divertir?

Concursos de beleza são uma instituição anacrônica. Afinal, não combina com os tempos feministas de hoje que mulheres desfilem de maiô enquanto homens analisam suas medidas e dão notas. Mas ok, esses concursos têm sua tradição e há mulheres que gostam de participar. Mas eles poderiam (e precisam) se adaptar aos tempos atuais.

Não é possível que mulheres tenham que praticamente apresentar um documento comprovando virgindade (estou exagerando, mas nem tanto) para participar de um concurso. Mas, pelo jeito, pouca coisa mudou entre 1950 e 2021 no que se refere a esses eventos.

No passado, havia uma distinção entre solteiras, casadas e mães. No caso das mães solteiras, elas eram mal faladas, banidas da sociedade. Não podemos aceitar essa ideia de mais de 50 anos atrás.

No caso da Rainha da Uva, ela não pode ser casada nem mãe. Além de preconceituoso e antiquado, também é sem sentido, já que a "rainha" é uma chefe de um povo, de uma família, de uma tribo.

Acusada de ser casada

É revoltante que essa festa exponha regras antigas e preconceituosas dessa forma. Mas o buraco é mais embaixo. Ser solteira e sem filhos ainda é um requisito da maioria dos concursos do gênero.

A atual Miss Universo, Andrea Meza (que também é Miss México), quase perdeu o reinado depois de ser "acusada " de ser casada. Sim, parece história de filme dos anos 50. Mas não é. E ela só não perdeu porque tratava-se de uma fake news e ela comprovou ser solteira. Que tal?

Essa é uma estrutura que precisa mudar e as pressões para isso já começaram. Semana passada, três ex-concorrentes do Miss França se uniram ao grupo feminista Osez le Feminisme (Ouse o feminismo) para avisar que processariam os organizadores do concurso por discriminação. Isso porque as candidatas do concurso francês precisam ser solteiras, ter mais de 1 metro e 70 e exibir um documento que comprove que elas não têm filhos.

O mais curioso (e revoltante) é que esses concursos agora usam termos que remetem ao feminismo, como "empoderamento", dizem que é importante premiar mulheres fortes e por aí vai. Essa é uma tentativa de reposicionamento no mercado de um formato que não funciona mais. Mas as estruturas, pelo jeito, continuam sendo um museu de velhas novidades. Até quando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL