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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homens de 'A Fazenda' são tóxicos, mas haters miram mulheres. Por que será?

Tati Quebra Barraco em "A Fazenda 2021" - Reprodução/Playplus
Tati Quebra Barraco em 'A Fazenda 2021' Imagem: Reprodução/Playplus
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

19/10/2021 13h33

Essa edição do programa "A Fazenda" vem batendo recordes de toxicidade masculina. Já teve um homem expulso acusado de estupro (Nego do Borel) e praticamente toda semana há um cara dando declarações machistas e homofóbicas.

Entre os destaques do horror: Solange Gomes foi chamada de "velha coroca" por Rico Melquiades. Erasmo, um dos mais machistas, disse que mulher precisa "se dar o respeito". E por aí vai. É curioso, mas, mesmo com tanta toxicidade por parte dos homens, nas redes sociais, os maiores ataques são contra mulheres.

Semana passada, a equipe de Tati Quebra Barraco alertou que a cantora vinha sofrendo ataques racistas. A crueldade é tamanha que a maior tragédia de sua vida tem sido usada contra ela. Tati perdeu um filho de 19 anos durante uma operação policial em 2016. E, sim, estão usando esse fato terrível para atacá-la. Um horror.

Enquanto Tati é vítima de racismo, Solange Gomes, de etarismo (preconceito contra a idade). Na terça-feira, Solange, de 47 anos, era chamada de velha no Twitter. "Essa Solange é uma velha chata do c*!" ou "Essa velha precisa parar de se vitimizar" eram alguns dos comentários. A família da bailarina já disse que está preocupada, já que ela vem recebendo ameaças online.

As torcidas de realities shows costumam ser muito apaixonadas e alguns participantes que não caem no gosto do público apanham bastante nas redes sociais. Mas, no caso, as três personagens mais atacadas nem são as campeãs em rejeição.

Pelo jeito, não são as atitudes delas no programa que fazem com que sejam tão atacadas, mas o racismo e o machismo mesmo. E, ao que parece, isso não é só uma impressão que nós, brasileiros, temos quando acompanhamos o desenrolar de realities.

Uma pesquisa feita na Inglaterra e divulgada essa semana pelo jornal "The Guardian" concluiu que mulheres que participam de reality shows são atacadas nas redes de forma diferente dos homens.

O estudo analisou postagens referentes aos programas "Love Island" e "Love of the First Sight" e levantou que 26% das postagens que se referiam às mulheres participantes do programa eram abusivos. No caso dos homens, o número caiu para 14%. Os pesquisadores perceberam que as postagens sobre mulheres tinham não só críticas, mas ataques violentos e ameaças. O quadro piora no caso de postagens contra mulheres negras. O ódio vem com tudo.

Eles perceberam também que muitos dos posts tratam as mulheres como instáveis mentalmente, vulneráveis emocionalmente, diabólicas, falsas e chatas. Se você der uma olhada nos comentários sobre participantes de realities em redes sociais, vai perceber que a pesquisa faz muito sentido. É comum que nos realities (e também na vida real) mulheres sejam chamadas de loucas, de chatas, e de falsas. E muitos desses comentários são feitos por mulheres, que nem percebem o preconceito que estão reproduzindo.

Enquanto isso, os homens abusivos, machistas e preconceituosos dos programas de TV costumam ficar de boa. Não estou dizendo que algum participante de um reality show (ou qualquer pessoa) mereça receber ameaças e ataques de ódio. Ninguém deveria passar por isso. Apavorante é ver que o mesmo padrão se reproduz a cada edição de algum reality: o ódio sempre sobra para as mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL