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Nina Lemos

REPORTAGEM

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Piovani sobre Dolabella: 'Não preciso de desculpa por Twitter após 13 anos'

Luana Piovani celebrou os avanços no acolhimento às vítimas de violência doméstica - Reprodução/Instagram
Luana Piovani celebrou os avanços no acolhimento às vítimas de violência doméstica Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

17/07/2021 04h00

Em 2008, a atriz Luana Piovani comemorava a estreia de um espetáculo em uma boate do Rio de Janeiro quando foi agredida pelo então namorado, o ator Dado Dolabella. Ela foi a delegacia, abriu boletim de ocorrência "Fiz tudo sozinha. Não quis ir com meus pais porque eles iriam sofrer muito". Sua jornada foi dura e solitária. "Contei com minha família, meus amigos íntimos e a Irene Ravache. Da Globo (onde fazia um trabalho na época) não recebeu nenhum abraço. Cerca de seis meses depois da agressão, ela ainda teve que ver o seu agressor ganhar o reality "A Fazenda" e ficar milionário.

Luana se lembrou dessa fase da sua vida e desse horror que viveu essa semana, depois que um vídeo onde DJ Ivis aparece batendo na esposa, Pâmella Holanda, viralizou na internet. Em seu Instagram, Luana desabafou: "Fico feliz em ver as mulheres se unindo e denunciando porque quando eu fui agredida não tinha campanha, nem Instagram. O agressor ganhou um reality 6 meses depois e as mulheres diziam: "vem bater em mim".

Com o post, Luana recebeu apoio de seguidoras. E também um pedido de desculpas insólito. Treze anos depois, seu agressor admitiu a agressão e pediu desculpa pelo Twitter. "Pessoalmente ele nunca pediu, né? Vem falar disso agora?", disse Luana, em conversa com a coluna sobre esse caso e sobre a importância de denunciar agressores. Leia trechos da entrevista abaixo:

Como foi denunciar agressão há 13 anos

"Meu caso foi difícil. Não era um momento onde era moda, não se falava em denunciar. Não tinha essa consciência das pessoas. E não tinha hashtag. Ele não ganhou um reality como se nada tivesse acontecido?

Depois do meu caso, vieram mais denúncias de agressão contra ele. Três ex namoradas dele vieram me dizer que já tinham sido agredidas. Eu falei: "nossa, que legal, só me avisaram agora". Se tivessem avisado antes, eu não teria namorado ele.

Depois de mim, outras mulheres também o denunciaram. E é por isso que é importante denunciar. Você ajuda outras mulheres a terem coragem de fazer o mesmo e salva outras de não entrar na mesma história, né?

Pedido de desculpas via Twitter

"Você viu o testemunho dele? Ele ainda culpa o veganismo. Nenhum vegano vai se levantar contra ele e falar que não é isso o veganismo? Que alguém pode agredir o outro porque come carne? Não tem nada a ver. Aquilo de falar que me ama... Para mim aquilo foi sarcasmo, coisa de malandrinho carioca. Como assim?

Vai falar isso 13 anos depois e pelo Twitter? Por que não me falou pessoalmente? Quando me encontrou dois meses depois não botou 15 amigos me chamando de 'piranha' no Baixo Leblon? Acha que vou ligar para desculpas pela internet?

Tive medida restritiva contra ele por uns seis meses. Ele tinha que manter distância de 250 metros de mim. Uma vez estava em um restaurante e ele apareceu com um grupo de torcedores. Foi um pesadelo. Ficaram todos gritando em coro "piranha, piranha, piranha!". E eu não tinha feito nada, só tinha ido jantar. Tive que chamar a polícia. Foi só umas das coisas que aconteceram. Foram meses de loucura.

Dado Dolabella venceu "A Fazenda" seis meses depois

"Lembro exatamente do fim de semana em que ele ganhou. Eu estava viajando com meu monólogo pelo Brasil e estava em Vitória (ES).

Chorei sábado e domingo inteiro. Um choro muito sentido. E escondido, porque não queria que as pessoas me vissem chorando, porque ainda iam falar que eu era invejosa, que eu queria o dinheiro dele. Ele foi premiado. E ficou milionário. Ele ganhou um milhão!

E quem o levantou foram as mulheres. São mulheres que votam mais em reality show. Se ele não tivesse o apoio dessas mulheres, não teria vencido.

Meses depois ele saiu na capa da revista "Caras", lindo e maravilhoso, romântico, se declarando para uma ex-mulher dele, linda. Ele estava um galã, as fotos eram lindas. Aí você pensa: "será que eu sou maluca? Olha esse cara, que lindo, que fofo". Isso me coloca mais ainda no lugar de louca e diminui a minha denúncia.

Eu lembro de olhar e dizer: "nossa, então ele é um anjo, eu que sou louca?" Vão achar o quê? Que eu apanhei porque eu mereci? Ouvi muita coisa na época.

Não tinha rede social como hoje, mas eu tinha blog e comentavam: 'será que ele fez mesmo?', 'você não está querendo aparecer?'. E rolou algo mais assustador ainda: as mulheres que comentavam em matérias sobre ele "Quer bater em mim?"

Falta de apoio da sociedade

"Hoje, graças a Deus, falo sobre isso e não movimenta um cabelo do meu corpo. Não me incomoda em nada. Mas já sofri muito. Foi horrível a ressaca moral que a sociedade me fez sentir depois da minha agressão. As pessoas falavam que eu estava fazendo isso só para não ser esquecida, que eu era louca. Que ele era maravilhoso. Isso me doeu muito."

Puxada de tapete da Globo

"Quando a agressão aconteceu, eu tinha fechado um trabalho com a TV Globo. Claro que a minha vontade não era fazer, mas eu fiz, porque já tinha assinado e quis ser ética. Logo depois disso, uma produtora inventou que eu tinha batido nela. Tinham quatro pessoas na sala e viram o que aconteceu, mas ninguém falou nada, ninguém me defendeu. Ela veio me transformar de agredida em agressora. A Globo comprou a história e me tirou do trabalho. [Na época, houve uma denúncia formal de agressão a Luana, que foi afastada do programa "Faça sua história". Luana sempre negou o ocorrido, segundo ela, foi apenas uma discussão, sem violência física]. Na Globo é assim, ou pelo menos era na minha época, se você não é uma pessoa que fala amém, que se impõe, eles não querem nada com você. As pessoas trabalham lá e fica tipo um neon piscando: "existem mil pessoas que queriam estar em seu lugar". E ninguém se posiciona por medo.

O que merece um agressor

Eles têm que perder patrocínio, tem que perder rede social, perder tudo. E aprender a ser um ser humano. Não pode dar status para uma pessoa dessas. Depois uma criança vai se identificar com um cara assim? O seu vizinho desequilibrado vai se inspirar nele para te agredir? Vão falar que as pessoas têm que ser ressocializadas e tem esse ponto sim. Mas as pessoas têm que perder os privilégios. Agrediu mulher, foi homofóbico, racista? No mínimo, tem que perder todos os patrocínios e outros privilégios.