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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ataque contra Simone Tebet expõe machismo como real descontrole da política

Simone Tebet (MDB-MS) e Wagner Rosário discutiram após ele a chamar de "descontrolada" na CPI da Covid - Roque de Sá/Agência Senado
Simone Tebet (MDB-MS) e Wagner Rosário discutiram após ele a chamar de "descontrolada" na CPI da Covid Imagem: Roque de Sá/Agência Senado
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

21/09/2021 19h05

Na noite de ontem, enquanto manifestantes cercaram o ônibus que levava a comitiva do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em Nova York, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga teve uma atitude "super madura" para uma autoridade em viagem oficial. Ele foi até a janela do ônibus e passou a dar o dedo do meio para os manifestantes. Ou seja, ele agiu como? Um completo descontrolado.

O descontrole anda atingindo muitos poderosos que andam por aí ameaçando o STF (Supremo Tribunal Federal) e mandando jornalista calar a boca.

Mas quem foi chamada de descontrolada foi uma senadora da República, Simone Tebet (MDB-MS), durante uma sessão da CPI da Covid de hoje. Tebet, que vem se destacando na comissão e feito um ótimo trabalho, discutia com o ministro da CGU Wagner Rosário, que estava lá na posição de depoente. Ou seja, ela, como membro da comissão, faria perguntas que ele teria obrigação de responder.

Rosário, super "a vontade", falou, em tom de ordem: "Bem, Senadora, com todo respeito à senhora, eu recomendo que a senhora lesse tudo de novo, porque a senhora falou uma série de inverdades aí". (Ah, sim, alguns homens acham que sempre somos suas secretárias). O clima esquentou. E, em certo momento, ele disse:

"A senhora está totalmente descontrolada." No mesmo momento, alguns senadores gritaram: "isso é machismo". E o que se viu foi uma discussão entre homens descontrolados, uma briga mesmo, daquelas que chegam perto de virar violência física. Depois disso, a sessão foi interrompida.

Simone, assim como a maioria das mulheres, principalmente as que ocupam posição de poder, tem consciência do machismo que sofre todos os dias. Em entrevista a Universa, ela afirmou: "O timbre feminino tem que ser ouvido. Temos demonstrado com resultados o quanto podemos agregar não apenas na CPI, mas em todos os espaços da vida pública."

Ela sabe muito bem que nossas vozes, metaforicamente ou não, incomodam. E que todos os dias sofremos pequenos ataques.

Agora, uma senadora da república ser chamada de "descontrolada" é um passo a mais até dentro de um ambiente misógino como a política brasileira.

Esse é um daqueles machismos clássicos, tão óbvios que até senadores homens foram capazes de reconhecer.

O tal timbre, citado por Simone, incomoda todos os dias. Na política, no trabalho e em qualquer discussão do dia a dia, é rotineiro que sejamos chamadas de loucas — enquanto homens ficam irritados, são duros, incisivos e dão "declarações fortes". Nós, mulheres, somos loucas, surtadas, damos ataque. Somos "descontroladas".

No dia a dia, estamos acostumadas a ouvir frequentemente frases como "a senhora tem que se acalmar". Me digam, quantas vezes vocês já ouviram, em discussões rotineiras, falarem "o senhor tem que se acalmar"? Pois saibam que em qualquer briguinha no trânsito uma mulher já escuta um "mas a senhora está muito nervosa". E quem fala isso, claro, é um homem super sereno e pleno (contém muita ironia).

O fato de ser rotineiro que uma mulher seja desrespeitada no trabalho e na vida não significa, de forma alguma, que isso possa ser normalizado. Temos que ter o direito básico de fazermos nossos trabalhos, sermos duras quando precisarmos, incisivas, sem que isso seja visto como descontrole. Aceitem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL