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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Merkel se aposenta esse mês e alemães não estão prontos para viver sem ela

Pool/Getty Images
Imagem: Pool/Getty Images
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

17/09/2021 04h00

"Eu vou sentir tanta falta dela!", minha amiga Agnes, uma sul-africana, que mora na Alemanha há 30 anos, se lamenta. Ela fala de Angela Merkel, a chanceler que em dez dias deixará o cargo de chefe de estado de um dos países mais poderosos do mundo.

Por escolha própria, ela não participa das próximas eleições, que acontecem em 26 de setembro. A mulher mais poderosa do mundo, chanceler há 16 anos, decidiu que era hora de se aposentar. Se não tivesse decidido, certamente seria eleita de novo.

Os alemães não gostam de mudança. E Angela é a imagem da solidez e da calma.

Sua popularidade cresceu mais ainda durante a crise do coronavírus. Em março de 2020, ela fez um discurso histórico, onde preparou a população para "a pior crise desde a Segunda Guerra" e mostrou muita empatia, sugerindo, por exemplo, que os jovens escrevessem cartas e mandassem emails para seus avós. Alguns dias depois, foi fotografada no supermercado comprando papel higiênico (uma mania nacional em tempo de pandemia) e uma garrafa de vinho.

Sim, a mulher mais poderosa do mundo mora no centro de Berlim em um apartamento comum com o marido, o professor universitário Joachim Sauer, e é vista com frequência fazendo suas próprias compras. Ao ser questionada sobre seu padrão de vida modesto, costuma dizer que "é apenas uma funcionária pública".

Tem como não admirar?

Na verdade, não é só a minha amiga que vai sentir saudades dela, mas a maioria dos alemães. Sessenta e sete por cento da população avaliam Angela Merkel positivamente. Fora do país, ela também é quase uma unanimidade, que conta com admiração de gente de esquerda, centro e direita.

Perdidos sem a mãe

Há anos, Merkel ganhou o apelido de "mutti" ("mamãe", em alemão). O termo é usado com sarcasmo, mas também com carinho. E olhando para a cena política na Alemanha agora parece que esse apelido faz sentido.

A menos de duas semanas da eleição, tudo está confuso. A impressão que dá é que, agora que a "mãe" vai embora, "as crianças" não sabem muito o que fazer.

O partido de Merkel, o conservador CDU, está à beira de um ataque de nervos e corre o risco de amargar uma derrota com a qual eles não contavam. Isso porque o escolhido para disputar o cargo, Armin Laschet é cada dia mais impopular e comete inúmeras gafes.

As tentativas da chanceler de socorrer o colega de partido não estão dando certo e o partido tem muita chance de perder a eleição. Segundo analistas, o CDU ficou tão dependente da figura de Angela Merkel que se perdeu.

No momento, o candidato com maior chance de ganhar é Olaf Scholz, do SPD, de centro-esquerda. Scholz, além de se mostrar um homem equilibrado, tem chance de ganhar justamente porque também pode ser considerado um herdeiro de Merkel.

Explico. Na Alemanha, o governo é parlamentarista e as pessoas votam em partidos e parlamentares, que constroem coalizões para governar. O governo atual é formado pelo CDU e pelo SPD, partido de Olaf Scholz, que é ministro das Finanças de Merkel.

Scholz tem se apresentado como o verdadeiro herdeiro de Angela. A pedido de um jornal, ele posou fazendo a concha com a mão que se tornou característica da chanceler.

Eles tentam. Mas a verdade amarga, que os eleitores alemães sabem muito bem é: é impossível substituir uma líder como Angela Merkel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL