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Nina Lemos

Lola, a feminista mais ameaçada do Brasil: "atacam até minha mãe de 85"

Lola Aronovich tem uma lei com seu nome - sancionada em abril de 2018. A 13.642 atribui à Polícia Federal a investigação de crimes cibernéticos contra as mulheres.  - arquivo pessoal
Lola Aronovich tem uma lei com seu nome - sancionada em abril de 2018. A 13.642 atribui à Polícia Federal a investigação de crimes cibernéticos contra as mulheres. Imagem: arquivo pessoal
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

20/01/2021 04h00

No início do mês, a professora e blogueira feminista Lola Aronovich dividiu com seus mais de 150 mil seguidores no Twitter que sua mãe de 85 anos, que mora com ela em Fortaleza (CE), havia sofrido uma queda. Muitos seguidores e amigos se solidarizaram e ofereceram ajuda. Mas, no mesmo dia, ela recebeu a seguinte mensagem: "eu e mais três camaradas estamos em Fortaleza. Iremos passar em cada hospital da cidade procurando sua mãe. Quando a acharmos, iremos passar a faca no pescoço dela. Sua mãe irá se arrepender de ter parido o demônio".

Esse tipo de ameaça, apesar de nos chocar profundamente, não é exatamente novidade na vida de Lola, a feminista mais ameaçada no Brasil. Ela recebe ameaças de morte desde 2008, quando criou o blog "Escreva, Lola, Escreva".

Dois de seus perseguidores, Emerson Eduardo Rodrigues e Marcelo Silveira Mello, inclusive, foram julgados, condenados e presos.

Mas as ameaças, a maioria delas por e-mail ou comentários em seu blog, não pararam e muitas vezes incluem o endereço de Lola e o caminho que ela faz para o trabalho.

Em dezembro os ataques se intensificaram. Dessa vez, o "mascus", (como ela chama, esses misóginos perigosos, que se unem nos porões da internet e odeiam mulher a ponto de alguns planejarem atos terroristas) passaram a telefonar para sua casa e deram uma data: até 30 de dezembro ela estaria morta. A polícia pediu para Lola deixar a casa onde mora. Ela negou e encarou a ameaça como faz há dez anos, com uma calma surpreendente.

Lola começa 2021 viva e encarnado as ameaças com calma, como faz há mais de dez anos. E conversou com a coluna sobre os ataques recentes:

Você recebe ameaças desde 2008, quando criou seu blog. As ameaças pioraram?
Não mudou muita coisa. O que aconteceu recentemente foi que levei minha mãe para o hospital por causa de uma queda. Ela tem 85 anos e está muito debilitada, piorou muito esse ano, estamos correndo atrás para descobrir o que ela tem. Nesse dia eu e meu marido não conseguimos colocá-la de pé. O pessoal veio, super atencioso e viu que tinha um galo na cabeça e disse que era melhor fazer uma tomografia. Meu marido foi com ela para o hospital. Logo depois coloquei no meu Twitter pessoal que minha mãe tinha caído, que eu achava que era por causa da idade. Recebi muito apoio, muita gente desejando melhoras, oferecendo ajuda. Foi muito bacana. Só que depois eu vi uma ameaça no blog onde diziam que já estavam em Fortaleza, que iriam passar uma faca no pescoço. Ela já estava em casa. E também não sei o que eles pensam. Acham que o nordeste é o que? Que entram em um hospital e matam alguém?

Que tipo de ameaças você vem recebendo?
Na época do Natal e do Ano-Novo estava recebendo ameaças mais pesadas, violentas. Além das ameaças normais que recebo por comentários do blog e por email, comecei a receber telefonemas. Um cara me ligava aos berros, falando o endereço da minha casa, totalmente fora de si. Só não sei se é da mesma quadrilha que ameaçou matar a minha mãe no hospital porque quando telefonavam só ameaçavam a mim. Em geral, eles ameaçam me matar e também levar meu marido e minha mãe. Felizmente não tenho filhos, se não ameaçavam as crianças.

Você não se assusta com essas ameaças?
Não. Eles já sabem e divulgam o endereço da minha casa há oito anos. Se morassem aqui (em Fortaleza), eu ficaria receosa, mas eles moram no sul e no sudeste do Brasil. O que me assusta, por exemplo, é que ocorra algo como um caso que aconteceu nos Estados Unidos ano passado. O cara, que também era um masculinista [homens fundamentalmente misóginos, de extrema-direita e que se identificam com valores neonazistas], se vestiu como funcionário do correio e foi matar uma juíza. O filho dela abriu a porta e foi morto. Esse tipo de coisa sim, me deixa muito receosa.

Você mudou algo em sua vida por causa das ameaças? Sempre mantém a calma?
Uma coisa assim é traumática para a maioria das pessoas. No começo era chocante. Eu entendo o medo que as pessoas têm e não acho que a minha maneira de reagir seja a melhor. É só meu jeito de lidar. Mas recebo essas ameaças há dez anos. Imagina se eu tivesse mudado minha vida por causa disso? Em dezembro, a delegada queria que eu saísse de casa, já que existia uma ameaça com data. Mas eu expliquei minha situação: estou na minha casa, com a minha mãe idosa. Não dá para simplesmente sair.

Como você se protege?
Faço parte de um programa de proteção a defensores dos direitos humanos desde 2016. Não é proteção física, como muitos pensam, mas é bom. Eles têm, por exemplo, advogados, que me auxiliam quando preciso ir a uma delegacia fazer uma denúncia. E quando acontece uma dessas ameaças, comunico para eles. No caso dessas últimas ameaças, fiz B.O. online e estou esperando para depor.

Como são esses "mascus" que te ameaçam?
Esses caras são muito lunáticos. Imagina, um cara que acorda no meio da madrugada e escreve um post no meu blog onde fala que teve um sonho erótico onde me matava? Isso acontece muito. São tão doentes que não me amedrontam. São homens que vivem em um universo diferente do nosso, em chans (fóruns anônimos muito usados para propagação de ódio) e na deep web (parte da internet que não é encontrada pelos mecanismos de busca) , sem vida social. São adultos que não tem emprego, geralmente vivem na casa da mãe. E olha a incoerência, eles odeiam as mulheres, mas são muitas vezes sustentados pelas mães...