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Nina Lemos

Em série, Anitta humilha equipe. Já não deu de exaltar a chefe que grita?

Anitta na série documental Anitta: Made in Honório  - Reprodução / Netflix
Anitta na série documental Anitta: Made in Honório Imagem: Reprodução / Netflix
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

21/12/2020 04h00Atualizada em 22/12/2020 09h10

Em uma das cenas do documentário "Anitta: Made in Honório", que estreou semana passada na Netflix, a cantora pega o celular e dá uma bronca em pessoas de sua equipe: "Tô cansada dessa palhaçada. Tô falando há um ano dessa da p*** desse show". O resto da bronca é um enumerado de palavrões e grosserias impublicáveis. Mas esse não é o único momento em que a série mostra a cantora humilhando quem trabalha com ela.

A impressão que fica vendo "Anitta" é que a cantora é uma daquelas chefes que grita, causa medo em subordinados e faz funcionários chorarem — uma espécie de Miranda Priestly, a chefe do filme "O Diabo Veste Prada" — do Funk..

Mais exemplos: em uma reunião, ela diz: "Rasga essa folha, joga ela fora. Isso aqui não existe. Rasga essa folha e joga no lixo, queima ela." Em outra, diz para membros de sua equipe que eles não têm "capacidade de pensar".

O jeito com que Anitta trata a equipe é tão agressivo que virou um dos destaques da série. Nos episódios, funcionários dizem que sentiam medo dela. E a "exigência" da cantora é comentada várias vezes.

Fica claro que quem trabalha com Anitta sofre, sim, com o jeito dela. E que ela também se sente mal por ser assim. Os funcionários e amigos tentam entender e desculpar, explicando que ela é muito exigente, que trabalha muito, que as coisas não são fáceis para ela.

Entendo tudo e a série (que é muito boa) mostra mesmo que Anitta é uma mulher inteligente e batalhadora. Mas nada disso justifica humilhar funcionários, me desculpa.

Anitta não é a única, de jeito algum. Ela é apenas mais um exemplo de mulher em posição de poder que age dessa maneira. Eu já tive algumas chefes que operavam na base do grito. Acredito que vocês também.

Ser um chefe que grita não está ligado a ser homem ou mulher, claro. Mas existe um tipo de chefe em que a Anitta se encaixa bem. Trata-se da mulher que alcança uma posição de poder e ganha fama de "trator", "furacão". Em muitos casos, isso acaba sendo visto como um valor. Espera, passar por cima dos outros é legal?

É mais difícil para mulheres conquistar posições de poder e para isso temos que lidar com muito preconceito. O meio em que Anitta trabalha, o da música, é um dos mais machistas que existem. É comum que a gente aprenda que só consegue as coisas no grito (e, de fato, muitas vezes temos que gritar para sermos ouvidas). Não é nada fácil ser uma mulher com poder. Não mesmo. Mas vamos reagir a isso gritando com as pessoas e, muitas vezes, humilhando e cometendo abuso moral contra outras mulheres?

Na esteira das denúncias contra o ator e ex diretor da Globo Marcius Melhem, conversei com muitas amigas sobre abuso moral. Nas conversas ficou claro o quanto, infelizmente, é comum sofrer assédio de outras mulheres.

Sim, a gente devia estar se ajudando no trabalho (já que é fato que é mais difícil para nós). Mas, muitas vezes, gritar acaba sendo a maneira de tentar mostrar força. Nenhuma mulher precisa ser assim — e isso precisa deixar de ser algo comum ou justificável por "exigências". E no caso de Anitta, ela é muito nova, ainda dá tempo para mudar.