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Nina Lemos

Mansplaining na Globo News: até quando vamos educar "macho palestrinha"?

Maria Beltrão passou por um "mansplaining" ao vivo - Reprodução/GloboNews
Maria Beltrão passou por um "mansplaining" ao vivo Imagem: Reprodução/GloboNews
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

19/11/2020 04h00

Você está em uma reunião. Quando fala, percebe que alguns homens não prestam atenção. Quando um colega vai falar, ele olha para outro homem, como se você não estivesse na sala, ou fosse burra demais para entender. Quando você faz um comentário, o colega vira e solta um "na verdade eu acho que" e explica o que você acabou de falar... Para você mesma!

Sim, é bizarro. Mas acontece o tempo todo (no trabalho e fora dele). Nós, mulheres, estamos acostumadas a lidar com o tal "macho palestrinha", esses homens que não nos escutam, nos interrompem quando falamos e muitas vezes repetem o que a gente acabou de falar. Isso é tão comum que algumas dessas atitudes ganharam nomes próprios em inglês: "mansplaining" (homem que explica) e "manterrupting" (homem que interrompe). A jornalista Maria Beltrão, apresentadora da Globonews, teve que lidar com esse comportamento ao vivo, na segunda-feira (17). E rebateu dando uma aula.

Durante o programa "Estúdio I,/" Beltrão fez um comentário sobre a cúpula do Brics. Em seguida, ouviu o companheiro de bancada, Octavio Guedes, explicar o que ela havia acabado de dizer. Maria Beltrão não deixou passar. "Você não acha que colocou tecla SAP em mim?", perguntou. O colega negou, meio surpreso.

Sim. Ouvir explicações sobre coisas que nós mesmas dizemos e aulas sobre assuntos que obviamente nós sabemos é algo rotineiro para nós, mulheres.

Por exemplo. Outro dia comentei no Twitter que pouquíssimas pessoas usavam máscara em Berlim, cidade onde eu moro. Na mesma hora, um sujeito que mora no Brasil respondeu: "não é verdade, na Alemanha as pessoas usam máscara sim." E continuou tentando me convencer que o que eu via da minha janela e nas minhas idas ao supermercado não era verdade.

No caso da Globonews, essa não foi a primeira vez que Maria Beltrão teve que colocar limites no colega Octavio Guedes. Em junho, ela comentava uma matéria, até que percebeu que o colega mexia no celular. Ela precisou pedir para que ele parasse. Com bom humor, Maria mesmo disse para ele que estava agindo como "professora primária" e "tia".

Não acho que o colega de Maria Beltrão ou a maioria dos homens nos ignorem ou nos expliquem coisas que já sabemos por maldade. De jeito algum. Na verdade, acho que o machismo está tão entranhado neles, que os homens reproduzem esse comportamento sem nem perceber.

A nós, mulheres, cabe o papel de pontuar e avisar. E, sim, viramos "professoras de noção" dos caras. Claro, não recebemos para isso. Ensinar noção é algo que mesclamos com todas as nossas outras atividades.

Se é cansativo? Claro. Mas alguém tem que fazer esse trabalho. Agora, os homens bem que podiam prestar mais atenção, não? Ou nós, as tias, vamos ter que repetir o conteúdo da aula todos os dias?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL