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Nina Lemos

Mel Maia e roupa "antiassédio": como ainda ensinamos meninas a se cobrirem?

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Imagem: TodaTeen
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00

A atriz Mel Maia causou polêmica essa semana na internet. Motivo: a garota de 16 anos postou nas redes sociais uma imagem dela usando camisa e calça larga e escreveu: "como não ser assediada."

Mel foi criticada. E com razão. Não é a roupa que uma mulher usa que faz com que ela não seja assediada. É mais complicado. Tenho amigas que já foram, inclusive, assediadas grávidas e de moletom. O buraco é mais embaixo. E se mulheres são assediadas, é porque vivemos em uma sociedade machista onde ainda somos vistas como objeto.

Bem, e o Brasil é um país tão machista que é comum que uma menina de 16 anos como Mel já tenha suas estratégias para lidar com assédio.

Apavorante.

Moro na Alemanha, tenho uma enteada de 13 anos que parece uma modelo. Duvido que ela tenha que "se preparar para a guerra" quando vai para a rua. Se ela morasse no Brasil, seria diferente e ela já teria suas táticas também.

Mel foi muito criticada por postar a foto do suposto modelito "antiassédio". Mas eu entendo a atriz. Lembro-me de, com a idade dela, ouvir do meu pai o seguinte: "não usa um short tão curto. Eu sou homem, sei o que os homens vão falar quando você passar na frente do bar".

Sim. Meu pai era um esquerdomacho.

Eu e todas as meninas da minha geração, e também as mais novas, aprendemos a lidar com o assédio desde muito cedo. E, entre as táticas, estava, por exemplo, amarrar uma camisa na cintura em cima da saia do colégio. Sim, meninas são assediadas quando saem da escola, de uniforme. E que ninguém venha me dizer que isso é "paquera".

"A gente aprendia essas coisas por osmose", comenta uma amiga, sobre o tal moletom amarrado na cintura. Pois é: como crescemos em um país onde a cultura do assédio é gigante, a gente aprende naturalmente táticas de defesa.

Infelizmente isso não é algo do meu tempo, que ficou lá atrás. A foto de Mel é uma prova. E no fim de semana outra famosa adolescente reclamou de assédio. A apresentadora Maisa, de 18 anos, escreveu em seu perfil no Twitter: "Que ódio desses caras que assobiam pra gente na rua, sério. Meu Deus. Maior calor e eu até perdi a vontade de usar o shorts que eu tô"."

Maisa, muito consciente, discutiu com seguidores e trocou experiências com outras meninas. Sim, o assédio continua sendo rotina para meninas como ela.

lojas vendem peça "tapa bumbum" : não é possível que isso seja normal" - Reprodução/ Internet - Reprodução/ Internet
lojas vendem peça "tapa bumbum" : não é possível que isso seja normal"
Imagem: Reprodução/ Internet

Prova do absurdo. Existe para vender nas grandes lojas brasileiras uma peça chamada "tapa bumbum": trata-se de uma peça de roupa que parece um moletom, feita exclusivamente para ser amarrada na cintura. É possível também comprar bermudas e calças de ginástica que já vem com o "tapa bumbum" incluso. Não é possível que alguém ache isso normal..

Somos educadas a nos cobrir. Não é deprimente?

Não acho que nossos pais e amigos nos deram esses conselhos do tipo "não saia assim" por mal, de jeito algum. Era proteção.

Mas...em vez de ensinar para meninas que elas não podem sair na rua de short curto porque um marmanjo pode não conseguir se controlar, é muito mais efetivo ensinar os meninos que mulheres não são coisas, que eles não podem mexer com as meninas etc. Não é possível que seja tão difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL