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Nina Lemos

Jogador de futebol tira onda sobre dopar mulher. Isso não é piada, é crime

Matheus Monteiro não é mais jogador das categorias de base do Inter - Repdrodução
Matheus Monteiro não é mais jogador das categorias de base do Inter Imagem: Repdrodução
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

02/12/2020 04h00

A cena é a seguinte: um jovem conta um caso rindo, como se fosse uma aventura bacana que ele viveu. "Eu coloquei a bala no copo dela, aí, ela ficou daquele jeito. Ela nem se ligou na cena... Ela ficou mal. E eu entrei para o quarto e..." Nessa parte, o sujeito faz um movimento com a mão, como se quisesse dizer, "já era", "peguei", "comi." Ele conta isso para a câmera sem constrangimento. O amigo que filmou tudo parece ter curtido, tanto que postou o relato nas redes sociais com emojis de carinhas rindo.

A cena deplorável circula nas redes sociais desde segunda-feira e envolve dois jogadores de futebol. Quem conta o "causo" é Matheus Monteiro, de 20 anos. E quem achou engraçado foi Luiz Vinícius. Os dois eram jogadores da equipe sub-20 do clube Internacional e foram dispensados ontem, depois que o vídeo viralizou.

O fato é chocante de muitas formas. É impressionante que os envolvidos achem a história legal, maneira, como se fosse uma vantagem. Não passa pela cabeça deles que isso seja errado e, muito menos, que seja um crime. Pelo jeito, "dopar mulher" em certos círculos pega bem.

Que sociedade é essa na qual contar que abusou de uma mulher é uma "tiração de onda?" E onde esses crimes são contados publicamente como se fosse algo engraçado?

Esse é o Brasil em 2020, lugar onde oito mulheres são estupradas por minuto e onde acontecem absurdos como famosos contarem crimes contra mulher como se fosse piada.

Em 2015, por exemplo, o hoje deputado Alexandre Frota contou em um programa de entrevistas sobre como "apagou" uma mãe de santo para transar com ela. A plateia gargalhou. Hoje, Frota diz que a cena é fictícia. Mesmo se for. Estupro é algo que eles contam para fazer sucesso? Rir? Se gabar? Estupro não é entretenimento!

E também não deve ser "coisa que todos os homens falam entre si", usando a frase de Robinho, o jogador de futebol que foi condenado em primeira instância por estupro na Itália. Robinho usou o termo "conversa de homem" para explicar os áudios entre ele e seus amigos que vazaram durante uma investigação policial. Nesses áudios, ele fala, entre outras coisas, o seguinte sobre a vítima que o acusa de estupro: "Estou rindo porque não estou nem aí. A mulher estava estava completamente bêbada."

É esse o nível das conversas nos vestiários de futebol? Eles trocam experiências sobre violência contra mulher, como se não tivesse nada de errado nisso? Esperamos que não. De verdade.

Estupro de vulnerável

Sobre colocar bala (o apelido para ecstasy) no copo de uma mulher para ter vantagem sexual, bem, quando a gente era pequena, ouvia de nossas mães: "cuidado que alguém pode colocar algo na sua bebida". Achávamos que era lenda. Mas cada dia parece ser mais real, inclusive, comum.

Mês passado, o senador Irajá Silvestre Filho, de Tocantins, foi acusado de estupro por uma modelo de São Paulo. Segundo a vítima e testemunhas, a modelo estaria bêbada ao entrar em um flat com o senador. Ela teria, inclusive, perguntando "onde estou?". Segundo a modelo, ela foi dopada pelo senador. O caso aconteceu depois que eles saíram de uma festa na filial paulistana do Café de La Musique. Sim, é a mesma rede de bares na qual a influencer Mariana Ferrer afirma ter sido drogada e estuprada por André de Camargo Aranha.

Transar com uma mulher drogada ou bêbada é crime, mais especificamente, estupro de vulnerável.

Muitos homens, pelo jeito, ainda não sabem disso. Pelo contrário. Eles acham que é algo "maneiro".

É desesperador.

p.s. A violência contra mulher no Brasil é assunto tão urgente e constante que Universa lançou um Manual de Jornalismo com diretrizes para a cobertura de tais crimes. Leia, aprenda, divulgue. Esse assunto não pode ser banalizado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL