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Nina Lemos

Em entrevistas, tática de defesa de Robinho é atacar "mulheres más"

Robinho, durante entrevista ao UOL - Marcelo Ferraz/UOL
Robinho, durante entrevista ao UOL Imagem: Marcelo Ferraz/UOL
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

19/10/2020 13h32

"Infelizmente, existe esse movimento feminista, que não sei o que... Muitas mulheres que não são nem mulheres, para falar o português claro." A frase do jogador de futebol Robinho, dita em entrevista ao UOL no sábado, corre o mundo e causa espanto. Esse não foi o único ataque a mulheres feito por ele nos últimos dias.

Robinho, condenado em primeira instância por estupro pela Justiça italiana, cada vez que tenta se justificar, volta a atacar as mulheres novamente.

"Sou uma vítima inocente dessas mulheres malvadas" —essa parece ser a tática de defesa do jogador para lidar com a onda de repulsa que vem recebendo desde desde que o "Globo Esporte" publicou uma reportagem com conversas suas e de seus amigos, gravadas pela Justiça italiana.

Nas conversas, eles falam, entre outras coisas, que a mulher estaria bêbada quando o crime foi cometido. Baixarias de revirar o estômago são ditas por eles na maior tranquilidade. Robinho, entretanto, não pediu desculpas pelas coisas que disse. Sua tática é dizer que o "único crime" que cometeu foi trair a esposa, que o ajudou a ser um homem de Deus.

Claro que sua esposa merece respeito. Mas, e as outras mulheres? Bem, segundo a lógica do jogador, elas nem são mulheres.

"Estou rindo porque não estou nem aí. A mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu. Ela pode dizer o que quiser, pois eu nem toquei nela, foram os caras que a pegaram." Essa foi uma das frases ditas por ele e divulgadas na reportagem do "Globo Esporte".

Robinho, nas entrevistas que tem dado para se defender, parece não se arrepender de frases como essa e nem perceber a falta de respeito que é se referir a uma mulher dessa forma.

Pelo contrário, ele disse que os diálogos divulgados são "conversas com coisas que os homens falam entre si". Bem, nem todos. Muitos homens inclusive também estão chocados com a maneira com que o jogador e seus amigos tratam as mulheres.

Mas, no mundo do jogador, ouvindo suas entrevistas, dá até para achar que muitos são como ele. Esse seria um planeta onde homens coitadinhos são atacados por "maria chuteiras".

Em entrevista ao Fox Sports, Robinho disse: "Quantas vezes uma mulher não te atacou? Com todo respeito, existem as maria chuteira". Na mesma entrevista, ele diz que já foi atacado por mulheres "várias vezes" e que mulheres podem cantar homens, mas quando um homem canta uma mulher, ele é preso.

O que se percebe é que ele não tem a menor ideia do que é assédio.

A noite na boate que culminou na acusação de estupro aconteceu há sete anos. Robinho diz que mudou muito de lá para cá. Mas o desprezo às mulheres parece não ter mudado em nada.

Para ele, as mulheres (com exceção de sua esposa), parecem ser "seres maldosos que querem roubar o seu dinheiro" ou feministas que "nem são mulheres."

As entrevistas do jogador são aulas de ódio a mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL