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Nina Lemos

Casos Melhem e Robinho: homens podem ajudar mulheres a combater abusos

Divulgação/Globo
Imagem: Divulgação/Globo
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

No início do mês, quando o conteúdo das conversas de Robinho e seus amigos foi divulgado, alguns dos seus colegas jogadores de futebol reagiram imediatamente. A reação: ficar ao lado do "parça", falar que, "imagina, ele é um pai de família", ou "Imagina, ele nunca faria uma coisa dessas!".

O jogador foi condenado por estupro em primeira instância na Itália. Em entrevista, ele contou que recebeu uma ligação de solidariedade de Neymar.

Esta semana, quando detalhes sobre as acusações de denúncia contra o humorista Marcius Melhem foram divulgados, a reação foi diferente. Colegas de profissão do humorista, como Marcelo Adnet e Gregório Duvivier , manifestaram apoio às vítimas. Fábio Porchat já tinha feito o mesmo em agosto.

A reação causou surpresa. Isso porque apoiar as mulheres nesses casos ainda é raro entre os homens, principalmente quando o sujeito acusado é colega de profissão ou de trabalho.

Nessas horas, é mais fácil falar "ah, não quero me envolver", "ah, ela deve estar exagerando". Ainda mais se, como no caso de Melhem, o acusado for um sujeito poderoso, com quem você já trabalhou. E, no pior dos casos, ´é seu chefe.

O próprio Adnet, ex-marido de Daniela Calabresa, uma das mulheres que participaram da denúncia, disse em agosto no programa Roda Viva que sua posição sobre o caso era "de dúvida".

Não estou falando, de forma alguma, em acusar alguém sem provas. Mas, puxa, Adnet poderia ter ligado para as amigas e perguntado, ouvido suas histórias, não?

Há alguns anos, seria impensável que denúncias desse porte acontecessem. A gente não sabia como fazer, não existiam políticas claras nas empresas para o combate ao abuso. De um tempo para cá, isso se tornou possível. Mas sabe por quê? Bem, porque mulheres passaram a se organizar e se apoiar nesses casos. Mas, e os homens? Bem, eles também podem (e devem) ajudar.

Casos de abuso no trabalho, infelizmente, são comuns. Segundo pesquisa realizada esse ano pela rede social Linkedin e a rede Think Olga, 47,2% das mulheres brasileiras já sofreram assédio sexual em ambientes profissionais.

Pode acontecer na firma de qualquer um de nós. Como ajudar?

Não é tão difícil. Se alguma mulher te contar que está sofrendo abuso, você pode apoiá-la, ouvir a sua história e refletir muito antes de afirmar que ela "não está entendendo direito", ou que o fulano "jamais faria uma coisa dessas".

Outra ajuda muito importante, talvez a mais importante de todas: se seus colegas falarem absurdos sobre mulheres ou se você perceber que algum deles não as trata como devia ou comete abusos, fale, reclame, brigue com o amigo. Não seja conivente.

Conversando com amigas, concluímos que o que mais nos enojou ao ler o conteúdo das conversas de Robinho e seus colegas sobre a noite em que passaram com a mulher que os acusa de estupro foi imaginar que muitos homens, inclusive nossos amigos ou familiares, poderiam participar de conversas onde as mulheres eram desrespeitadas e tratadas como objeto. Será que eles conversam nesses termos? E se conversarem, será que se manifestam ou ficam calados?

Homens, vocês não precisam ser assim. Não fiquem calados. Nós, mulheres, precisamos da ajuda de vocês.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL