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Nina Lemos

Adeus à expectativas e menos cobrança de arrasar: o lado bom do isolamento

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

13/11/2020 04h00

Ontem foi meu aniversário. Como milhares de pessoas (todo mundo que nasceu entre março e novembro e não é a Kim Kardashian, que alugou uma ilha e levou amigos para brincarem de vida normal) passei em casa, em isolamento. A maior loucura que fiz foi ir a uma padaria e comprar pastel de nata, que comi dentro do carro junto com um café em copo plástico.

É tão bizarro que chega a ser engraçado. E, como tudo na vida, tem um lado bom (além dos vários horríveis, claro). Eu, por exemplo, não fiquei ansiosa pensando que teria que ter uma festa incrível nem em quem iria ou não na minha festa. Não tive que responder a amigos sobre o que fiz de maravilhoso e especial para celebrar a data. Basicamente, não me cobrei, não fui cobrada e não esperei nada incrível.

E essa é, na minha opinião, a maior vantagem da pandemia: a diminuição das expectativas e o nivelamento por baixo.

Não tem nada de filosofia de "ah, a pandemia vai nos fazer virar pessoas melhores". Não, não vai. O que temos vivido é um momento tão horrível que nos permite esperar o pior, o que torna algumas coisas mais fáceis. A baixa das expectativas atinge quase todas as áreas. Por exemplo:

Vida amorosa e sexual: nunca os solteiros tiveram tão pouca cobrança sobre o "arrumar um namorado (a)". Pelo contrário, arrumar alguém novo é quase proibido, o que é horrível. Mas não se cobrar em "sair" para conhecer alguém ou se sentir um lixo por estar a meses sem sexo é um alívio e tanto. E isso vale também para os casados, que não precisam se cobrar pela falta de "noites românticas".

Vida social: uma das áreas mais prejudicadas. E, por isso mesmo, com muitas vantagens. É horrível e desesperador não poder ir a um show, um bar com os amigos, uma festa. Horrível. Mas claro que isso também tem um lado bom. Não passamos mais pela culpa de ficar em casa em uma sexta a noite. Não sofremos de FOMO (expressão em inglês que significa medo de perder algo).

Vida intelectual: ao mesmo tempo em que não sentimos que "temos que ir a um show", o isolamento nos permite um relaxamento intelectual. Ninguém te cobra se você diz que mal pode esperar o final de semana para a estreia da nova temporada de "The Crown" ou que maratonou "Emily em Paris".

Planos em geral: não é possível que alguém ainda se cobre por não ter feito aquela "grande viagem" ou conquistado aquele posto no trabalho. Do jeito que as coisas estão, o objetivo máximo é conseguir pagar as contas. Claro, o desemprego causado pela pandemia, assim como a crise econômica, não têm nenhum lado positivo. Por isso mesmo, por estar tão pesado, não faz sentido algum se cobrar sobre coisas com "onde eu vou passar o ano novo". Inclusive porque o melhor que você pode fazer é passar o ano novo em casa, sinto informar.

Ah, e se você continua indo a shows, eventos, planejando viajar de avião no ano novo, fazer festa com a galera... Nesse caso você precisa fazer um exame de consciência e se cobrar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL