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Nina Lemos

"Emily em Paris", do criador de "Sex and the City", decepciona com clichês

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

07/10/2020 04h00

Uma menina americana de 20 e poucos anos muda para Paris sozinha para trabalhar. Ela usa roupas lindas, é bonita e as imagens da cidade são maravilhosas. Devem ser essas características que fizeram do seriado "Emily em Paris" um sucesso nesses tempos de Coronavírus. Todos precisamos de escapismos. Ver séries bobas pode ser uma ótima maneira de relaxar disso tudo. Concordo totalmente.

Então, não é surpresa que a série, do mesmo criador de "Sex and The City",Darren Star, mal tenha estreado na Netflix e já esteja no Top 10 da plataforma de streaming em vários países, inclusive no Brasil. Mas até um prazer bobinho pode ser inteligente, informar e fazer rir. Não é o caso de "Emily em Paris", que é fofinho, mas abusa dos preconceitos e os estereótipos.

Falar sobre diferenças culturais é um tema que pode render muitas histórias curiosas e engraçadas. Por isso, como uma brasileira que mora na Europa, fui ver o seriado pensando em rir dessas diferenças. Mas me decepcionei.

A série tem irritado franceses, que ficaram ofendidos com os estereótipos. E não é que eu também me irritei?

Faz parte, quando a gente mora em um país que não é o nosso, fazer piada com os costumes locais e falar mal deles. Sim, a gente faz isso. Agora, a série aposta em clichês fáceis, do tipo, "ah, franceses fumam muito." Ou, "ah, eles chegam atrasados no trabalho". "Ah, eles são arrogantes e nacionalistas." "Olha, como eles são bons amantes".

Mas não só os franceses que são estereotipados. Se eu fosse americana, talvez me sentisse mais ofendida do que os franceses. A Emily da série preenche todos os requisitos da "americana ignorante", que só conhece a França pelos filmes da Disney e acha que tudo bem mudar para um país para trabalhar em uma empresa francesa sem falar francês!

No seriado, parece que os franceses que "são chatos" por não falarem a língua dela. Agora, já pensou se uma francesa, ou uma brasileira, muda para os Estados Unidos para trabalhar com marketing em uma agência sem falar inglês? Não ia acontecer? Pois é.

Esse estereótipo do americano que vive em uma bolha e só quer saber de Starbucks existe, sim, na Europa. Mas, bem, nem todos são assim. A série acaba reforçando mais esse clichê.

Carrie Millennial?

O fato de a produção ter os mesmos criadores de "Sex and the City" criou também uma expectativa de que Emily pudesse ser uma versão millennial de Carrie Bradshaw, a protagonista vivida por Sarah Jessica Parker na série que fez sucesso nos anos 90/2000.

Hummm, sinceramente? Acho que essa geração, a mesma que vai para a rua pelo "Black Lives Matter" e que luta contra o aquecimento global merece mais. Estou falando que o seriado é uma distração ruim? Não. Mas as garotas independentes de 2020 mereciam uma representante melhor.

No caso de seriados para adolescentes (sim, eu sou adulta, mas eu amo), ainda prefiro "Gilmore Girls" e "Anne with an E".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL