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Nina Lemos

Novo lockdown na Europa tem frustração e preocupação com saúde mental

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, durante anúncio de novas restrições para conter o coronavírus - Fabrizio Bensch/POOL/AFP
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, durante anúncio de novas restrições para conter o coronavírus Imagem: Fabrizio Bensch/POOL/AFP
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

30/10/2020 04h00

"Será um inverno difícil. Quatro meses longos e difíceis. Mas vai acabar". A frase foi dita pela chanceler Angela Merkel na quinta-feira enquanto ela defendia o modelo do "lockdown light" que será implementado na Alemanha a partir de segunda-feira. Na França, a situação é similar: "Por favor, vamos fazer um esforço todos juntos. Se nos esforçarmos podemos abrir algumas lojas para o Natal" disse Emmanuel Macron na noite de quarta-feira, quando anunciava um lockdown pesado no país no qual é presidente.

Os apelos, e o jeito de falar com os cidadãos fazem com que os chefes de estado pareçam pais lidando com crianças estressadas e cansadas. Quase que numa imitação do clássico: "se você se comportar bem no médico, ganha um doce". Por que eles falam assim? Pois sabem que o segundo lockdown, que vem sendo implementado em vários países da Europa, encontra uma população cansada, sem paciência, irritada.

Nos últimos meses, manifestantes "contra as medidas do Coronavírus" (que na época eram leves) fizeram passeatas sem máscara em cidades como Berlim e Londres. Na Itália são registradas manifestações violentas.

Mas o segundo lockdown é assustador até mesmo para quem não é negacionista, aceita as regras e vai ficar em casa. Afinal, algumas coisas fazem com que esse "repeteco" seja ainda mais apavorante que primeiro que vivemos em março.

Além dessa ser a segunda vez que vamos passar pelo mesmo estresse, os casos são exponencialmente mais numerosos do que na primeira onda. E, o pior de tudo, em se tratando de saúde mental: ele acontece no outono e deve se arrastar pelo inverno europeu.

Os tais quatro meses de que Merkel fala sempre são longos. A maioria dos dias é cinza, o sol é raro e escurece por volta das 17h. Tudo isso já aumenta o risco de depressão, insônia e outros distúrbios. Isso não é frescura, mas um distúrbio chamado pelos psicólogos de SAD (desordem afetiva sazonal) e que faz com que muitas pessoas experimentem sentimentos de tristeza e falta de energia. No caso de quem tem tendência a depressão, a desordem faz com que a doença corra o risco de aumentar.

Agora, como aguentar quatro meses de escuridão sem nenhuma atividade de lazer e, em alguns países, como a Irlanda e a França, sem poder sair de casa para encontrar amigos sob o risco de ser penalizado?

O jornalista e comerciante Rubinho Vitti, que mora na Irlanda (que decretou dia 24/10 um segundo lockdown) essa situação (e o medo de que ela se prolongue) tem gerado a crises de ansiedade.

"Na semana passada, quando o primeiro-ministro anunciou que iríamos entrar em lockdown, começou a ficar pesado. Eu me lembro de ver o anúncio e sentir aquele aperto no peito. Eu sou uma pessoa calma e não tenho facilidade de me deprimir, por isso estranhei. Tenho acordado no meio da noite com o peito acelerado e suado da cabeça aos pés", conta.

Para driblar a ansiedade, ele tem acordado cedo, tomado sol (quando tem) e conversado com amigos.

Rubinho não é o único. Segundo uma pesquisa realizada pelo governo Inglês, o Coronavírus aumentou os casos de depressão no país. Outro ponto: no primeiro lockdown, em março, estávamos otimistas com a missão de achatar a curva. Depois disso, tudo melhoraria. Mas depois de um verão tranquilo, tudo voltou. E sem prazo de acabar. E agora?

"Eu tento me segurar e acalmar as pessoas ao meu redor, mas está muito difícil. É muita incerteza. A gente não sabe mais quando isso vai passar", diz a produtora cultural Micaela Trigo, que mora em Berlim, onde produz peças de teatro (que foram desmarcadas, já que as casas de espetáculo vão fechar).

"Ainda estamos feridos. Essa segunda onda chegou em uma hora em que ainda estamos traumatizados", diz a psicóloga Patricia Bastos, que mora na Alemanha e detecta o aumento da depressão e do uso de drogas no país.

Segundo a especialista, o segundo lockdown causa impacto maior porque ainda não nos recuperamos do primeiro.

Mas o que fazer para não perder o controle da saúde mental enquanto tentamos cuidar da nossa saúde física? Segundo Patrícia, focar em atividades que temos controle, fazer exercícios e tentar manter uma rotina.

Vai passar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL