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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que fazer com livros e textos escritos por intelectuais assediadores?

Universidade de Coimbra, em Portugal - Getty Images/iStockphoto
Universidade de Coimbra, em Portugal Imagem: Getty Images/iStockphoto

Colunista de Universa

16/04/2023 04h00

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Como receber a notícia de que um intelectual renomado de uma importante universidade foi acusado de assédio por algumas ex-alunas?

Como escutar essa notícia sem desconsiderá-la ou diminuí-la e sem, por outro lado, transformá-la em um massacre virtual? Como garantir ao suposto agressor o direito a uma defesa justa como é de direito?

Como interpretar uma denúncia dentro de seu contexto, o de uma instituição estruturalmente machista? Há, no mundo de hoje, alguma associação de estudo ou trabalho que já tenha conseguido deixar de ser estruturalmente machista?

Como desimpregnar o mundo da combinação desastrosa de machismo e racismo com capitalismo? O que sobraria? Ainda teríamos onde pisar?

Como questionar estruturas, por mais nefastas que sejam, sem perder o chão? Seria mesmo chão o que perderíamos ou apenas a falsa sensação de segurança — necessária para a manutenção dessas mesmas estruturas?

Como distinguir o prestígio conquistado pelo privilégio de ser homem de um reconhecimento merecido? Como, no segundo caso, manter acesas suas ideias sem reforçar seus privilégios?

Como lidar com o conhecimento sem endeusar quem o produz? Como lidar com o conhecimento sem execrar quem o produz?

É possível separar vida e obra?

É necessário separar vida e obra?

É perigoso separar vida e obra?

Como pensar em tempos de internet? Como manter contas em redes sociais e não aderir ao comportamento de manada?

Há alguma mulher que não tenha sido vítima de assédio? Há algum homem crescido e formado numa sociedade machista que não tenha jamais sido abusivo?

Como cuidar das infinitas vítimas de assédio? Como escutá-las, legitimar sua dor e protegê-las? Como ajudar uma mulher a reconhecer comportamentos abusivos? Como separar as tantas vítimas da minoria que faz falsas denúncias e prejudica, muito além de reputações, a própria luta contra o assédio?

Como viver e trabalhar em um ambiente de clima persecutório, tanto para homens quanto para mulheres? Como transformar exemplos individuais em reflexão e em proposição, em vez de medo? Como contribuir para a transformação do próprio exemplo individual?

Como mudar? A mudança é individual, coletiva ou ambas?

O cancelamento favorece a mudança ou opera segundo a mesma lógica do que cancela?

Que bom seria ter todas essas respostas.