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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB: Karol pode ser opressora e oprimida, mas racismo reverso não existe

Flávia Martinelli

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Colunista de Universa

12/02/2021 04h00Atualizada em 12/02/2021 09h33

Às voltas com a monografia de conclusão de curso que usa o Teatro do Oprimido para pensar questões raciais, a estudante de psicologia da Universidade Federal de Sergipe Tayná Gomes, 23, foi uma das muitas mulheres a buscar as redes sociais nas últimas semanas para analisar BBB. Ela aprofundou questões e tenta fugir da mera defesa ou ataque de Karol Conká no episódio com Lucas no BBB21. "Dentro ou fora da casa, ainda não existe uma existência pacífica no que diz respeito às questões raciais", diz a jovem de Cruz das Almas, no interior da Bahia.

"O BBB mostra que as pessoas assumem diferentes papéis e que podemos ser oprimidos e opressores; são papéis que coexistem em todos nós", defende a futura psicóloga que estuda a metodologia teatral que considera o palco como ferramenta de transformação da sociedade. O Teatro do Oprimido entende que atores são, também, pessoas comuns, com suas lutas pessoais e coletivas.

Tayná Gomes, estudante de psicologia  - Acervo pessoal - Acervo pessoal
A estudante de psicologia Tayná Gomes, que foi às redes sociais aprofundar questões sobre BBB21
Imagem: Acervo pessoal

Karol, vista por esse ângulo, certamente tem inúmeros outros papéis e o que mostra no BBB são alguns dentre muitos. Sabe-se que a cantora sofreu na infância com o alcoolismo do pai, que enfrentou o machismo do rap em momento em que questões de gênero eram mencionadas aos sussurros e carrega diferentes traumas. Desde de ter sido preterida por mulheres brancas à dificuldade para controlar sua "animosidade", como contou no próprio reality show.

A estudante pontua que o racismo é uma construção histórica e cultural e faz parte de uma estrutura reafirmada por toda uma sociedade. "E que precisa levar em consideração aspectos políticos, dados, fatos concretos e relações de poder que atingem toda a nossa existência coletiva, marcando de maneira perversa determinadas raças", pontua.

O blog Mulherias convidou Tayná para uma leitura muito além da lacração da internet e das vozes, por todos os lados, que estão julgando aspectos individuais de menos de dez pessoas pretas como se isso representasse a luta de milhares.

"Pessoas pretas precisam ser entendidas em suas complexidades"

Por Tayná Gomes, especial para o blog MULHERIAS

"Em menos de 1 mês, vimos uma amostra gratuita em rede nacional de como as violências vão além das físicas e são subjetivas, afetivas e psicológicas. Interferem na experiência de vida como um todo sem que o agressor encoste um dedo sequer na vítima. Humilhação, isolamento, tortura psicológica e ofensas múltiplas (que afetam também a autoimagem e o bem-estar físico) têm sido temas recorrentes quando se trata de BBB21.

Após demonstrar esgotamento psicológico, Lucas Koka saiu sem ser acolhido de maneira responsável pelo programa. Karol Conká, apontada como principal agressora, tem sido duramente criticada nas redes sociais. Mas é preciso refletir sobre as complexidades das pessoas pretas.

Não comparo Karol a uma "torturadora" como habitualmente conhecemos e sei que enquanto mulher preta ela está vulnerável a ser culpabilizada com força e perversidade por seus atos. Mas entendo que existem diversos níveis de tortura psicológica e as posturas da cantora têm sido violentas de muitas maneiras, sim.

Porém, tal qual na sociedade, precisamos responsabilizar também o coletivo. Na casa com 20 participantes, por exemplo, não houve qualquer manifestação no momento em que as agressões contra Lucas ocorreram. E, diante da sociedade como um todo, percebo a reprodução de sempre: o uso da cor das pessoas para legitimar quem pode ou não errar. E quem merece ou não ser perdoado(a).

Pouco se discute sobre tortura e violência psicológica, muito menos as consequências disso para as vítimas. Se no BBB21, um espaço controlado, não houve intervenções diante da seriedade da questão, imagine fora dele?

Adoecer é social, cuidar também deve ser. Mas a sociedade, que cria mazelas e dificulta a existência dos corpos pretos, também se isenta destas responsabilidades. E sabe, no entanto, punir cruelmente os comportamentos destas mesmas pessoas.

A violência expurgada é, como diria a poeta, ensaísta, feminista intersecional e ativista dos direitos civis Audre Lorde, uma resposta ao ódio da exclusão, do privilégio não questionado, das distorções raciais, do silenciamento. Um convite para pensar sobre os discursos que reforçam os estereótipos das mulheres pretas "raivosas", atribuídos a participantes como Karol e Lumena Aleluia.

E há outro questionamento importante: por que existe violência de uma pessoa preta para outra pessoa preta? É preciso entender, primeiro, que elas têm conflitos como quaisquer outras pessoas. Independente de nossas raças, somos ensinadas(os) sobre o mundo na mesma sociedade racista.

Pessoas pretas reproduzem comportamentos racistas, o que contribui para um processo que chamamos de "auto-ódio". O que é triste e grave.

Mas esses conflitos, ao envolverem participantes brancas ou brancos não podem ser adotados como práticas de 'racismo reverso'. Pessoas brancas não foram exploradas, dizimadas e não possuem marcadores sociais que são consequências do racismo, ou seja, o mecanismo de poder que demarca exploração, segregação e violências diversas sob a justificativa da raça. E, por isso, na relação entre pessoas pretas e brancas, não se pode atribuir qualquer comparativo neste sentido.

O que fica de toda essa discussão, portanto, é a importância de se prestar atenção ao passado e ter consciência da nossa história como coletivo, não apenas como indivíduos. E acredito que antes de atacar Karol, Lucas, Lumena ou qualquer outra(o) participante do BBB21, vale olhar para si, assumir a nossa capacidade de errar e principalmente de aprender."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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