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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Chega de figuração! Plataforma reúne narrativas, heróis e produções negras

Flávia Martinelli

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Colunista de Universa

12/03/2021 04h00

Com reportagem de Clarice Tatyer e edição de Ariane Silva, especial para o blog MULHERIAS

Enxergar-se na tela, ver histórias de periferias como a sua sendo contadas ainda é difícil nas plataformas de vídeo sob demanda. Para resolver esse problema, como sempre, o povo negro se reúne e faz acontecer. Assim chegou ao mercado a TodesPlay, criada pela cineasta Viviane Ferreira. São filmes, séries e desenhos animados feitos por e para pessoas negras, sempre com opções gratuitas e um preço (R$ 6,90) que estimula o consumo e a produção de um audiovisual com a nossa cara.

Por que não nos vemos nas telas?

O último levantamento feito pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) saiu em 2018 (com dados relativos ao ano de 2016) e apontou que 75,4% dos longa-metragens nacionais foram dirigidos por homens brancos; 19,7% por mulheres brancas e só 2,1% por homens negros. Sentiu falta das mulheres negras? Pois é, naquele ano nenhum longa-metragem dirigido e roteirizado por elas saiu, mesmo com incentivos e verbas públicas para apoiar a produção brasileira, que não temos mais. O cenário para pessoas negras do audiovisual é explicito: faltam oportunidades e isso se reflete no que encontramos para assistir.

A cineasta Viviane Ferreira, da TodesPlay - Divulgação - Divulgação
A ideia só podia ser de uma mana: a TodesPlay foi fundada pela cineasta Viviane Ferreira, que foi criada na comunidade Coqueiro Grande, em Salvador, e hoje, além de presidente do Comitê Brasileiro de Seleção do Oscar 2021, foi nomeada diretora-presidente da SPCINE, a a empresa de cinema e audiovisual de São Paulo, vinculada à Secretaria de Cultura da cidade. A plataforma é gerenciada pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), tem foco em equidade de gênero e raça e foi pensada para semear um mercado de audiovisual mais diverso.
Imagem: Divulgação

Basta um dispositivo com internet para a Todes liberar o acesso a curtas, longas e séries de vários gêneros produzidos por realizadores negros de todas as regiões do mundo. A plataforma ainda oferece, gratuitamente,, a transmissão de festivais. É só fazer o cadastro no site.

Cena do documentário "As Pastoras - vozes femininas do samba", dirigido por Juliana Chagas, teria dificuldades de se inserir no circuito comercial de cinema, mas pode ser assistido no conforto de casa pela plataforma - Divulgação  - Divulgação
Cena do documentário "As Pastoras - vozes femininas do samba", dirigido por Juliana Chagas. A cineasta sabe da dificuldade de se inserir no circuito comercial de cinema e seu filme pode ser assistido pela plataforma
Imagem: Divulgação

"Indústria do cinema ainda é bastante elitista"

A cineasta Juliana Chagas Gouveia, sócia da produtora Goiabeira Filmes, dirigiu o documentário "As Pastoras - vozes femininas do samba", que compõe o catálogo da TodesPlay. O filme conta a história de quatro Pastoras da Portela: Tia Surica, Neide Santana, Áurea Maria e Jane Carla, e tem como pano de fundo o bairro da Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro.

Para ela, o cinema ainda é uma arte para poucos. "Se pensarmos na grande indústria, ainda é bastante elitista, mesmo que hoje se tenha mais espaço para as vozes periféricas", afirma. "Conseguir recursos para um trabalho autoral é o grande desafio enfrentado pelos cineastas que querem fugir dos estereótipos."

"Assim" (2013), dirigido por Keila Seruya Sankofa. Cinema negro para além do "favela movie" no TodesPlay  - Reprodução  - Reprodução
"Assim" (2013), dirigido por Keila Seruya Sankofa.Cinema negro para além do "favela movie"
Imagem: Reprodução

"Quero assistir o povo narrando sua diversidade"

Produtora cultural, artista visual e realizadora audiovisual nascida no Amazonas, Keila Seruya Sankofa, também gestora do coletivo Grupo Picolé da Massa, realiza desde 2015 a Mostra Itinerante de Audiovisual Cine Bodó, onde trabalham formação, produção e exibição nas comunidades periféricas de Manaus". Para a TodesPlay, a cineasta disponibilizou o documentário "Assim", que mostra a ida de duas travestis ao supermercado.

"Tenho duas demandas: uma como profissional e outra como telespectadora. As pessoas pretas têm sua diversidade, o Norte do país ainda não está presente nessa produção, distribuição, nesse contar em primeira pessoa. Há outra urgência, que é ver indígenas narrando, por meio do cinema, seus sagrados, sua diversidade como povo e tradição, nessas demandas eu sou o público, eu quero sentar e assistir tudo isso", explica.

Nana e Nilo é um dos desenhos infantis disponíveis no TodesPlay. A série, baseada nos livros dos irmãos gêmeos Nana e Nilo, tem 3 episódios na plataforma. - Reprodução  - Reprodução
Nana e Nilo é um dos desenhos infantis disponíveis no TodesPlay. A série, baseada nos livros dos irmãos gêmeos Nana e Nilo, tem três episódios na plataforma.
Imagem: Reprodução

"Saber que a produção é feita por um cineasta ou produtor periférico faz muita diferença"

Para o assinante Aloysio Vieira de Souza, o TodesPlay é uma oportunidade de ver pessoas negras em temas que vão além da miséria e da criminalidade como no "favela movie", gênero popularizado pelo filme Cidade de Deus: "o que se via muito no cinema nacional eram filmes feitos por brancos de classe média que tentavam 'emular' histórias de periferias", comenta. "Na TodesPlay encontramos uma periferia criativa, diversa, muito além da marginalidade."

Aloysio vê na missão da TodesPlay um novo momento da produção audiovisual nacional, que busca recursos para realizar suas produções e dá conta de distribuir e facilitar o acesso, sem depender mais das salas de cinema comercial ou do circuito dos festivais. "Outra coisa bacana é que tem bastante curtas-metragens, conteúdos pouco vistos por aí, filmes que antes só eram exibidos nos circuitos de de audiovisual, que grande parte do público ignorava por não ter acesso. Agora tem".

Curta "Travessia", de 2017 (direção de Safira Moreira): "Utilizando uma linguagem poética, Travessia parte da busca pela memória fotográfica das famílias negras e assume uma postura crítica e afirmativa diante da quase ausência e da estigmatização da representação do negro." - Divulgação/Travessia - Divulgação/Travessia
Curta "Travessia", de 2017 (direção de Safira Moreira): "Utilizando uma linguagem poética, Travessia parte da busca pela memória fotográfica das famílias negras e assume uma postura crítica e afirmativa diante da quase ausência e da estigmatização da representação do negro."
Imagem: Divulgação/Travessia

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