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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Nunca pergunte qual é a 'tribo' de um indígena", diz socióloga Fulni-ô

A socióloga indígena Patricia Rodrigues é da etnia Fulni-ô, de Pernambuco - Acervo pessoal
A socióloga indígena Patricia Rodrigues é da etnia Fulni-ô, de Pernambuco Imagem: Acervo pessoal
Flávia Martinelli Flávia Martinelli*

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Flávia Martinelli*

Colunista de Universa

28/05/2021 13h37

*Com reportagem de Ariane Silva, especial para o blog MULHERIAS

Patrícia Rodrigues é indígena do povo Fulni-ô. Formada em ciências sociais pela USP (Universidade de São Paulo), é militante há 25 anos não só pela causa indígena, mas também pelo direito à moradia, saneamento, saúde e educação. Moradora da capital paulista, ela não faz parte de nenhuma "tribo" e explica: "o termo é usado para reforçar o papel do indígena como um selvagem. Eu não tenho 'tribo', eu tenho um território, em Pernambuco, onde fica a minha aldeia".

Pagu, indígena  - acervo pessoal  - acervo pessoal
Pagu ao centro, de blusa verde, na aldeia dos Fulni-ô em Pernambuco
Imagem: acervo pessoal

E são os territórios, justamente, os principais motivos de conflitos que afetam a população indígena. O direito a eles, garantido pela Constituição, só é efetivado com as demarcações — que já vinham desacelerando desde o governo de Dilma Rousseff (PT) — e, agora com Jair Bolsonaro (sem partido) na Presidência, praticamente pararam.

Assassinatos de indígenas aumentaram 150% só no primeiro ano do governo atual e, neste mês, a Câmara dos Deputados aprovou o fim do licenciamento ambiental no Brasil, impactando diretamente os povos tradicionais. "A gente está vivendo uma conjuntura bastante extrema com a pandemia. Passou abril, mês da visibilidade indígena, mas a luta não pode parar. Respeito, reconhecimento e tradição são assunto para o ano inteiro."

A seguir, Pagu fala sobre a luta indígena no Brasil.

"A gente não deixa de ser indígena porque ocupa universidade ou trabalha"

"É importante desconstruir essa visão de que somos homogêneos, que é reforçada até nas escolas, na forma como a gente conta a história da população indígena no Brasil. Nós temos 305 etnias no nosso país, que falam mais de 200 línguas e têm tradições e territórios diferentes. A gente também ocupa a cidade, a universidade, a política, os espaços profissionais. A gente não tá só ali na aldeia, como todo mundo imagina, vivendo lá na Amazônia.

Pagu, indígena - acervo pessoal  - acervo pessoal
"Me formei an USP numa época em que não existiam cotas sociais, muito menos para indígenas. Foi uma experiência dolorosa, contraditória, eu tinha que ficar provando que eu era indígena, pois achavam que aquele não era meu lugar"
Imagem: acervo pessoal

É preciso mudar a forma como a sociedade se refere à população indígena. A gente não se reconhece pelo termo 'índio', que foi dado para nomear a gente lá em 1500, a partir do pensamento colonial de que a gente era um grupo sem alma e sem fé.

Nos reconhecemos como 'indígenas', que são aqueles que vêm da terra. Mais que isso, aliás, a gente se reconhece pelo termo 'povos originários', porque estamos nesse território que é conhecido como América Latina, como Brasil, desde a origem.

Crescida na cidade, Patrícia Rodrigues, a Pagu, foi buscar em Pernambuco as suas raízes. É filha, neta, bisneta e tataraneta de Fulni-ôs e Guaranis.  - acervo pessoal - acervo pessoal
Pagu, indígena
Imagem: acervo pessoal

Muitas pessoas me perguntam 'qual é a sua tribo?' Sempre respondo que não tenho tribo, que moramos num território onde há uma aldeia. Além de reafirmar que não somos selvagens tribais, o termo 'território', que representa o espaço geográfico onde vivemos, também confere respeito. As pessoas moram no campo, na cidade, e nós, na aldeia, que só vale para um território reconhecidamente indígena. Ao repensar o nosso vocabulário, obrigamos a sociedade a repensar como trata e retrata a população indígena.

"O respeito aos indígenas tem que acontecer na prática, não só no discurso"

Essa discussão toda precisa ser praticada, né? A sociedade precisa aprender a lidar com a presença indígena em diferentes espaços e os governos devem construir políticas e efetivar os direitos da população indígena como garante a constituição. Falo de políticas de reparação histórica, como cotas para indígenas no serviço público, na disputa da política no parlamento ou no Poder Executivo. São ações de reconhecimento pela importância negada aos indígenas. E é importante também reconhecer que somos diversos, somos também biólogos, advogados, historiadores, médicos, e merecemos respeito profissional como qualquer cidadão. Apoiar a luta indígena significa agir, na prática, no dia a dia.

Manifestação na aldeia Fulni-ô - Arquivo Paulo Pontes - Arquivo Paulo Pontes
Manifestação na aldeia Fulni-ô
Imagem: Arquivo Paulo Pontes

A gente entende que as pessoas não foram educadas para isso. A história oficial não reconhece, por exemplo, que a população indígena foi escravizada e vítima de um genocídio, ou seja, do assassinato em massa que foi feito aqui no território das Américas e matou 75 milhões de indígenas.

Pagu, indígena  - acervo pessoal - acervo pessoal
"Na luta indígena, palavras importam tanto quanto ações."
Imagem: acervo pessoal

Muitas vezes, somos retratados na história como se a gente fosse só o bom selvagem que estava ali. Canibais sem nenhum tipo de inteligência ou formulação de saber, sem alma. Para quebrar essas noções, a visibilidade indígena precisa ir muito além de apenas um mês ou um dia em abril.

A aldeia dos Fulni-ô fica no sertão de Pernambuco, na cidade de Águas Belas. O Yathe, sua língua original, é a única língua indígena viva no Nordeste, e é usada nas escolas. - Beto Macário/UOL - Beto Macário/UOL
A aldeia dos Fulni-ô fica no sertão de Pernambuco, na cidade de Águas Belas. O Yathe, sua língua original, é a única língua indígena viva no Nordeste, e é usada nas escolas.
Imagem: Beto Macário/UOL

Por isso, é um ato político falar que não venho de uma tribo e que faço parte de um território e uma aldeia. Porque os Fulni-ô têm, sim, um território que já deveria estar demarcado desde 2010 e que ainda é uma reserva indígena de uma cidade, Águas Belas, em Pernambuco, de 36 mil habitantes. Essa cidade que, na realidade, se construiu em cima do território original indígena."

Quer saber mais sobre Pagu? Assista ao vídeo sobre o resgate de suas origens fulni-ô:

Errata: o texto foi atualizado
Antes, a nota informava que o nome do município é Águas Claras. O certo é Águas Belas.

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