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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rayssa Leal: na pista do skate feminino, as minas se vestiram de liberdade

Rayssa Leal, a fadinha, conquistou a prata no skate street da Olimpíada de Tóquio - Wander Roberto/COB
Rayssa Leal, a fadinha, conquistou a prata no skate street da Olimpíada de Tóquio Imagem: Wander Roberto/COB
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

27/07/2021 04h00

No último domingo (25), eu estava pronta para outros rolês caseiros, quando meu filho mais velho lançou: "vai ter a final de skate das minas já, já". Até então, ainda não tinha me envolvido com as Olimpíadas.

Vi a abertura, mas fiquei desanimada com aqueles gatos pingados da delegação brasileira. Minha síndrome de vira-lata gritou ao ver aqueles figurinos sensacionais de algumas delegações, como as de alguns países africanos, pesadões em história e cultura. Puro esplendor e força. Fiquei pensando no nosso, em tudo que poderia ser, e no que sobrou: um look com perfume meio havaiano (aparentemente eu estava equivocada, já que houve toda uma pesquisa unindo símbolos da cultura brasileira e japonesa nas estampas, que daqui não enxerguei) e uma sambada mixuruca.

Depois, acompanhei alguns jogos, mas sempre com um olho na tela da TV e outro em outro lugar. Alguns nomes me fizeram dar atenção: Richarlison, por motivos de gols, e Douglas Souza, por motivos de graça, talento, carisma e cama de papelão.

Então chegou o convite do meu filho mais velho. Para começar com o assunto de estilo, que já rolou no texto e é algo que me faz brilhar o olhar, cabe dizer que sempre pirei com o estilo dos skatistas. Os panos, sim, são "da hora", mas também falo da música, da liberdade, da ousadia, do linguajar, da brisa, do savoir vivre mesmo.

A bateria feminina já começa bem, com a narração cheia de propriedade, porém sem afetação, de Karen Jonz, tetracampeã mundial de skate, artista, musicista e youtuber — que até uma "xerecada" soltou. (Outro ponto de atenção, o desconforto que uma xereca pode causar...)

Depois, foi só ladeira acima. Um entra e sai de garotas sensacionais, de todos os tipos! Altas, baixas, magras, gordas, sérias, sorridentes, binárias, não binárias. Senti falta das manas pretas na festa também.

Trabalho com moda e beleza há quase vinte anos, então, é mais do que normal eu prestar atenção nesses elementos. Não me orgulho disso quando a aparência é limitante ou quando isso acaba se tornando o único assunto possível sobre uma mulher. Obviamente, esse não seria o aspecto primeiro a se observar no âmbito esportivo. Inclusive, há temas urgentes a serem (tardiamente) tratados nesse contexto, como, por exemplo a sexualização dos corpos femininos no esporte. E a pauta já veio à tona nessa edição, com a iniciativa da equipe alemã de ginástica artística, que decidiu escolher o que usar e como usar.

No entanto, hoje tô aqui falando do ponto de vista subjetivo de uma mulher que trabalha na área de beleza. Me senti compelida a falar de aparência no caso específico das skatistas. E é por um bom motivo, prometo.

Ali, eu vi roupas muito legais e super estilosas, todas remetendo à liberdade, com nada que pudesse ser lido como sugestão de associar aqueles corpos a corpos puramente sexuais (especialmente por termos crianças e pré-adolescentes competindo). Tinha menina com make, menina sem make. A vaidade estava presente, mas não era o foco. E que delícia ver aquelas meninas voadoras à vontade no próprio corpo!

Que alegria ver o skate como esporte olímpico. E que alegria maior ainda ver o skate feminino representado e ganhando cada vez mais força e espaço. Um esporte cada dia mais inclusivo, que permite a criação de importantes identificações.

Pensa, que louco, como os esportes em geral têm uma certa padronização estética. Não apenas quanto aos uniformes, que por si só remetem à normatização, rigor e ordem, mas nos corpos. O esporte pode ter isso de remeter a algo meio inalcançável, a essas deusas e deuses do Olimpo, tão distantes das nossas realidades, tão impossíveis. Aí vem o skate, cheio de vida e diversão, mas não é só. Aí vem Rayssa Leal. Fiquei rendida do começo ao fim por essa garota voadora.

Ela estava ali, aos 13 anos, competindo em uma Olimpíada, permeada por símbolos, como o de ser a brasileira mais jovem a competir numa edição dos jogos. Lado a lado com suas próprias lendas e ícones, lutando de igual para igual.

E o que ela fez? Ela dançou, gente. Ela dançou, fez mais amizades, ficou brava, se divertiu, curtiu uma linha na pista. Caiu. Quase caiu e emendou na queda, uma espécie de coreografia, que, daqui, reivindiquei como parte da manobra. Achei aquele carinho que ela fez no chão, para se manter no skate, até mais bonito do que cair em pé. Isso deveria ser implementado como manobra e batizado com o nome dela. Manobra Rayssa Leal!

Acontece que, além de toda essa graça e diversão, essa garotinha me saiu com uma medalha de prata no peito! Humanidade bruta em estado de graça, com tudo que tem direito. Que mina foda!

Para gente refletir o que isso tudo significa, quero só finalizar contando mais uma coisa. Hoje, as amigas da minha sobrinha colaram aqui pela manhã. Adivinha como elas vieram? Sim, claro, de skate.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL