PUBLICIDADE

Topo

Cris Guterres

O que fazer quando o Ano Novo já chega nos tirando o sono do empreendedor?

Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

05/01/2021 04h00

Aquela imensa ansiedade pelo fim de 2020, para mim, veio precedida de medo, insônia e pânico. Eu, que estava no meio do mês de dezembro gritando pelo fim daquele ano caótico, acordei em 2021 querendo voltar umas casas no jogo da vida.

A noite não adormeceu em meus olhos. Escrevo este texto após minha terceira noite mal dormida do ano, e olha que o ano começou há apenas quatro dias. Durante a madrugada desperta, minha mente era tomada por preocupações por viver num país desgovernado, sem perspectivas reais de controle da situação que nos acomete. Eu já escrevi sobre medo aqui nesta coluna.

Não tenho vergonha de falar que ele, o medo, tem sido meu companheiro durante todos os anos da minha vida. Quase sempre o controlo, em algumas situações ele me vence, mas atualmente tem sido necessário muita terapia para tentar conter este sentimento paralisante que é me sentir só na imensidão do céu.

Hoje, o que mais me assusta é a possibilidade de não controlar as dívidas que minha empresa acumulou durante os últimos dez meses. Estamos colecionando somas na casa de seis dígitos.

Tudo vai ficando mais difícil com o aumento exponencial de preços das matérias-primas, aumento do custo dos serviços em razão da necessidade de cumprirmos protocolos mais rigorosos de higiene e também porque optamos por não demitir ninguém da equipe durante o ano que acaba de passar.

Estou esgotada, não aguento mais me reinventar e ter ideias para driblar a crise. A essa altura conduzo uma equipe exausta. À qual já não sei mais o que dizer para inflar o sentimento de entusiasmo. O ano que se passou foi extremamente desafiador. Mas 2021 será ainda mais custoso.

Iniciamos o ano com o fim. É o fim do auxílio emergencial, o maior programa de transferência de renda da história. Findados os meses de pagamento do auxílio, o número de pessoas abraçadas pelo programa superou o número de pessoas com carteira de trabalho assinada no país. É o fim do programa de redução e suspensão dos salários que, mesmo timidamente, auxiliou os empresários na manutenção de empresas com ínfimo faturamento.

É fim do último fio de sensatez que um dia ousou existir por aqui e que se esvaiu mar adentro após o mergulho de Jair Bolsonaro no dia primeiro de janeiro na Praia Grande, causando aglomeração entre os banhistas. Quando imaginamos que já vimos de tudo, que não há mais como piorar, somos surpreendidos com mais um festival de irresponsabilidade e desrespeito.

Para 2021, assistiremos um aumento exponencial da desigualdade no país, um crescimento vertiginoso da pobreza, mais e mais empresas fechando as portas ou demitindo funcionários e se jogando em empréstimos a juros alarmantes numa tentativa desesperada de não chegar ao fim.

Vou respirar fundo e realizar meu plano de contenção do medo para sobrevivência em momentos de crise. A frase que mais tem me norteado ultimamente é da escritora afro-americana Toni Morrison: "Se quiser voar, tem que largar o que te puxa para baixo". Sendo assim, o medo vou largar no mar da Praia Grande.