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Cris Guterres

Brasil é cheio de Madalenas: mulheres quase todas pretas sendo escravizadas

Madalena passou mais de 30 anos vivendo presa em apartamentos de uma mesma família em Patos de Minas - Reprodução/TV Globo
Madalena passou mais de 30 anos vivendo presa em apartamentos de uma mesma família em Patos de Minas Imagem: Reprodução/TV Globo
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

29/12/2020 04h00

Este não foi um ano fácil para a maioria dos habitantes do planeta. No que diz respeito ao território brasileiro, eu diria que o ano foi ainda mais difícil para as mulheres, acima de tudo para as mulheres que sobrevivem às margens: mulheres negras, periféricas, ribeirinhas, quilombolas, mulheres trans. Mulheres que somam entre si a força da resistência.

Liberdade é um substantivo feminino, mas uma capacidade negada às mulheres. Estamos, ainda hoje, aprendendo a transgredir pelo direito de decidir sermos nós mesmas.

Mas quando achamos que estamos dando passos largos na luta pela igualdade entre gêneros, nos deparamos com fato que mostram quanto ainda há para mudar. Há alguns dias, um caso de escravidão de uma mulher negra contemporânea chocou o país. Madalena Gordiano, passou 38 dos seus 47 anos de vida como escrava na casa da família Milagres Rigueira em Pato de Minas (MG). Madalena, passava, lavava, cozinhava, servia, mal dormia e se recolhia no quarto de despejo da casa. Bem vindos ao Brasil colonial!

O país está cheio de Madalenas. São jovens meninas, mulheres mais velhas, e até mesmo idosas quase todas pretas ou quase pretas. Mulheres vivendo nos quartos de despejo sendo escravizadas para servir aos mandos e desmandos de famílias que insistem em manter vivas as relações de subalternidade do período escravocrata.

Existe um olhar colonizador sobre os corpos negros. Um olhar que não permite que sejamos qualquer coisa além do que um objeto a serviço da manutenção do branco enquanto uma metáfora de poder.

A tragédia de Madalena vem nos mostrar que a história não é o passado. A história é o presente. Não há como fingirmos o contrário. Não nos peça para esquecer as mortes, as humilhações e os sufocamentos se ainda estamos escutando o estalar do chicote gritar no pé de nossos ouvidos.

O Brasil reúne mais de seis milhões de empregadas domésticas, mulheres que são mal remuneradas, em grande maioria desrespeitadas, mal pagas e obrigadas a se subordinarem a relações de trabalho que descumprem as legislações.

E você? Tem empregada doméstica ou diarista em casa? Como você trata a pessoa que escolheu para cuidar da sua casa e muitas vezes das coisas mais valiosas que você tem na vida, sua família? Ela tem direitos garantidos?