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Cris Guterres

Neste Brasilzão, Deise Gouveia mostra que quedas também podem te levantar

Deise é o novo símbolo do país até o surgimento da próxima celebridade instantânea - Reprodução
Deise é o novo símbolo do país até o surgimento da próxima celebridade instantânea Imagem: Reprodução
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

09/12/2020 04h00

Se você é uma pessoa bem conectada às redes sociais, usuário assíduo de whatsapp e membro honorário em grupos de familiares e amigos, certamente você viu ou compartilhou o vídeo da Deise Gouveia despencado bêbada de uma escadaria enquanto voltava para casa no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, após uma noite de festa regada a álcool e animação com as amigas.

Se você não viu, não se culpe, nada de errado em estar fora do babado. Só vou te dizer que no país da piada pronta estar conectado e não acompanhar os ícones humorísticos do momento te transforma em alguém muito sério.

Deise é o novo símbolo do país até o surgimento da próxima celebridade instantânea. Da manhã de sábado, quando caiu e as amigas postaram o vídeo na internet, até a manhã de terça, quando escrevo este texto, Deise havia acumulado mais de 450 mil seguidores no Instagram.

Tem muita blogueira que demora anos para conseguir 100 mil, e Deise, com um tombo, conseguiu muito mais em três dias. Com um número como este dava para ela ter sido eleita vereadora de uma grande cidade nas últimas eleições municipais e já pode até sonhar com a sua participação na próxima edição de "A Fazenda", da TV Record.

Neste Brasilzão de meu Deus, quedas podem te levantar ou te enterrar. O tombo da Deise foi imensamente mais comentado do que o tombo de duas meninas negras assassinadas com um único tiro de fuzil em Duque de Caxias, também no Rio de Janeiro, enquanto brincavam na porta de casa. O que anda acontecendo com a sociedade que nem se importa mais com a vida de duas crianças pretas? Será que o país que escravizou corpos negros por mais de 300 anos algum dia se importou?

Nós somos experts em criar Deises. De tempos em tempos uma pessoa comum viraliza na internet por nos fazer gargalhar e esquecer das nossas mazelas. Se alguém tentar iniciar uma conversa com você sobre os 180 mil mortos por Covid no país você pode mudar de assunto repentinamente e fugir da chatice trazendo à tona o vídeo da Deise. Você viu o vídeo da Deise caindo da escadaria? Se a pessoa estiver por fora do assunto você saca o celular e envolve ela numa risadaria sem fim e pronto.

Serve pra tudo. A gente pode escamotear qualquer assunto por detrás do vídeo da Deise. Dá pra esconder os números da violência contra a mulher que continuam aumentando no país, a gente esquece até que Doria e Bolsonaro estão usando a vacina como pesca voto para as próximas eleições presidenciais. A gente já nem lembra mais que a Michelle, mulher do presidente Bolsonaro, não explicou por que recebeu os R$ 89 mil do Fabrício Queiroz, um homem que fora preso e é investigado por suspeita de participação no escândalo da rachadinha.

Eu quero Deise para presidente! A mulher que com um tombo é capaz de fazer desaparecer com todos os problemas do Brasil. Eu voto em Deise para assumir o núcleo de humor da TV Globo no lugar de Marcius Melhem demitido após as denúncias de assédio sexual feitas em conjunto por seis mulheres que trabalhavam sob o seu comando, inclusive a atriz e humorista Dani Calabresa.

Deise, quando despencou escadaria da vizinha abaixo, estava toda errada. Voltava pra casa de uma noite de farra às 9h da manhã em plena ascensão das contaminações de covid, sem máscara e bebendo na rua. No fundo, no fundo, eu tenho mesmo é inveja dela. Não pelos seguidores e nem pela fama repentina, mas pela diversão no baile, a caminhada na rua sem máscara, o porre alcoólico de lavar a alma e a despreocupação com quem será o próximo contaminado.