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Cris Guterres

Por melhor que sejam, negros sempre serão "as pessoas de cor", né, Mourão?

Faixa é deixada em frente a supermercado do Carrefour após assassinato - Reuters
Faixa é deixada em frente a supermercado do Carrefour após assassinato Imagem: Reuters

Colunista do UOL

23/11/2020 14h46

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Quando fiquei sabendo sobre o assassinato de Beto Freitas no Carrefour em Porto Alegre eu já estava tendo um dia permeado de sensações de medo. Meu filho, um adolescente negro de 16 anos, tinha sido enquadrado pela polícia enquanto caminhava pelas ruas dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, em direção à aula de esporte.

Depois de provar que o celular do ano e as roupas de marca eram mesmo dele e que não tinha drogas ou armas na mochila, o menino foi liberado pelos policiais que o abordaram como um sujeito suspeito pelo fato de ser negro. Eu ouso dizer que não existe registro de um jovem branco que ao caminhar pela região com as roupas da mesma grife que meu filho usava tenha sido enquadrado por policiais no bairro. Se chegou a ser abordado, provavelmente era para checar se estava tudo bem, ou se precisava de ajuda com alguma coisa.

O mal-estar que entala na garganta e deixa gosto de enxofre na boca foi inevitável depois que li a primeira manchete sobre o crime no mercado. Fiquei imaginando que o ocorrido com Beto poderia ter acontecido com meu filho, com meu irmão, com meu primo, meus amigos. Alguns lugares são como campos minados para um negro.

Os supermercados matam gente preta e não é de hoje. No dia 14 de maio de 1987, Júlio César de Melo Pinto foi assassinado por policiais em Porto Alegre. Júlio foi preso como suspeito de ter assaltado o supermercado, o que ficou provado posteriormente que não aconteceu. Após preso, no caminho entre a cena do crime e a delegacia, Júlio foi assassinado pelos policiais. O crime seria perfeito não fosse um fotógrafo do Jornal Zero Hora ter fotografado Júlio vivo dentro da viatura. O caso foi relatado no brilhante documentário "O Caso do Homem Errado" da cineasta Camila de Moraes.

A mesma cidade, um supermercado como cenário e trinta e três anos de distância entre o crime que acabou com a vida de Júlio Cesar e o assassinato de Beto Freitas. Dois homens negros assim como João Pedro, o jovem assassinado por sufocamento no supermercado Extra no Rio de Janeiro em 2019 e Januário Alves de Santana que foi amordaçado e espancado por seguranças do Carrefour na cidade de Osasco na grande São Paulo em 2009 acusado de roubar o próprio carro.

Na periferia, são comuns as histórias sobre o quartinho de massagem do supermercado. Ali se perpetuam as leis coloniais e corpos negros são torturados pelos seguranças que se comportam como malfeitores a serviço dos senhores de engenho.

O Carrefour logo tratou de lançar para a imprensa os comunicados padronizados que eles já têm salvos numa pasta de gestão de crise no computador. Para assassinato de homens negros dentro da loja use as seguintes frases: "lamentamos profundamente", "não compactuamos com práticas discriminatórias" e "a empresa de segurança é terceirizada".

Uma vantagem de se terceirizar os serviços de segurança é não se responsabilizar por lavar a mancha de sangue que fica empoçada pelo chão.

Não importa as roupas que você vista, os gestos que você faça, negros sempre serão aquelas pessoas de cor, não é mesmo Mourão?

O general, pós-graduado em letramento racial escolheu atirar para a desigualdade social como motivo do crime e usar sua experiência da década de 60 para construir a tese de que racismo não existe no Brasil. Mourão segue a linha do presidente Jair Bolsonaro e invalida, a despeito de muitas vidas, a existência de um dos problemas mais profundos e devastadores da sociedade brasileira.

Vale lembrar que o Carrefour é apoiador deste governo que nega a pandemia mundial, incita a violência na população, articula sabotagens à democracia, propaga falas homofóbicas e machistas, só para citar algumas das situações que não condizem com a conduta que a empresa Carrefour disse respeitar no comunicado após a morte de Bento Freitas e na fala de seus gestores que está sendo veiculada nas redes de televisão em horário nobre.

Eu fico o tempo todo pensando na funcionária do mercado que acompanhava os seguranças. Ela assiste àquela cena como se estivesse sentada em casa vendo a novela na TV. Ela não reage, ela não grita, ela não sai do telefone, nem parece se assustar. E ainda tenta constranger um cliente que filmava a selvageria.

Para a escritora negra e nobel de literatura Toni Morrison, assim como a classe e o gênero, a raça foi criada pelos humanos para servir de medida classificatória a fim de julgar como deficientes os seres humanos que necessitavam ser controlados para que a narrativa de poder de uma determinada parcela da humanidade ganhasse força.

Torturar indefesos para provar não ser fraco sempre fez parte da violenta narrativa criada pela raça branca para justificar a raça negra como desumana quando na verdade o exemplo de desumanidade cabe bem a quem tortura e mata e a quem assiste e não reage.