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Cris Guterres

Planejando compartilhar o vídeo do Morgan Freeman? Leia este texto antes

Frederic J. Brown/AFP
Imagem: Frederic J. Brown/AFP
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

17/11/2020 04h00

Faltam apenas três dias para a branquitude brasileira se refestelar sentando o dedo com vontade no botão "compartilhar" das redes sociais e inundar o universo virtual com o vídeo do Morgan Freeman afirmando que para o racismo deixar de existir é só a gente parar de falar sobre ele. Todo Dia da Consciência Negra (20/11) tem sido assim.

Tem aquela outra foto também do ovo marrom e do ovo branco pra mostrar que dentro é a mesma coisa — essa imagem também tem bastante alcance nas redes. Não é o suficiente? Tem ainda aquela outra frase: "Não vejo cor, vejo pessoas".

Eu fico imaginando o quanto as pessoas que postam este vídeo ficam ansiosas pela chegada do dia 20 de novembro só pra aliviar toda a tensão acumulada ao longo do ano após descobrir que seu filho perdeu a vaga na USP para um preto ou que aquele negro que ele abordou na loja para saber o preço da roupa na verdade era também um cliente.

É, meu caro cara pálida, eu te entendo, as coisas já não são mais as mesmas neste país. Nem se pode mais postar o vídeo do Morgan em paz. Tem sempre um fiscal do politicamente correto pra vir infernizar a sua possibilidade de continuar insistindo em se manter do lado hegemônico da história.

O fiscal está tentando cessar o seu direito de propagar declarações de apoio à supremacia branca. Afinal de contas, a culpa nem é sua. Quem entregou os negros para os portugueses foram os próprios negros e Zumbi tinha escravos. Por que raios você vai ter que pagar esta conta abrindo mão dos privilégios que seus antepassados conquistaram pra ti às custas de sangue africano?

Você está lendo este texto com uma cara tão estranha. Não vai me dizer que já postou o vídeo do Freeman? Eita! Calma, não se desespere, longe de mim querer te criticar.

Já faz algumas primaveras que muitas pessoas preferem compartilhar este tipo de conteúdo em novembro ao invés de se permitir a ler um parágrafo das escrevivências de pensadores negros brasileiros como Sueli Carneiro, Abdias do Nascimento, Djamila Ribeiro ou Silvio de Almeida.

Não falar sobre o racismo não faz com que ele deixe de existir. Você pode escolher negar a realidade para escapar de uma verdade desconfortável, mas ela continuará existindo e a nossa abstenção a transformará em algo muito violento pro lado oprimido do sistema.

Não há hoje no Brasil um problema maior do que o racismo. Nos abstivemos durante décadas, a maioria de nós aceitou a falácia de Gilberto Freire sobre sermos uma democracia racial e nós nos transformamos num país especializado em matar homens e mulheres negros seja por arma de fogo ou como vítimas da ingerência governamental.

O Zuckerberg deveria criar um botão anti-Morgan Freeman no Instagram e no Facebook. Cada vez que um brasileiro sem consciência racial postar o vídeo do Freeman, uma campainha tocará e o deixará de castigo. Titio Zuck te deixará sem internet enquanto insistir em usar a narrativa de pessoas negras na tentativa de negar o racismo.

Colocar um negro contra outro tem sido, há mais de 500 anos, uma das estratégias de controle utilizada pelos europeus para dominar a África, desqualificar toda a produção e contribuição histórica do continente africano para a humanidade e, por consequência, construir uma narrativa falaciosa de poder galgada no apagamento e transformação do outro em objeto.

Os brasileiros aprenderam direitinho. Adoram pegar uma fala de um negro que se oponha ao movimento de equidade racial para utilizá-la como arma contra todos os fatos e indicadores que demonstram o quão violenta e racista é a sociedade em que vivemos.

O romantismo em torno do mito da democracia racial no Brasil fez com que muitas pessoas não entendessem a profundidade da questão. Mas, na atualidade, insistir em continuar não entendendo é uma escolha que tem um preço alto para toda a sociedade.

Assim como o escritor James Baldwin, eu também acredito que a maioria dos brancos não odeia os negros. Eles só não conseguem ser empáticos com a situação de desigualdade à qual os negros estão sujeitos no Brasil. Mas essa ausência de empatia nos custa vidas e sonhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.