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Cris Guterres

Dezembro chegou. Cadê sua máscara de oxigênio?

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

01/12/2020 04h00

Chego neste primeiro dia de dezembro com uma expectativa absurda de que o ano acabe logo. Nunca desejei tanto o fim de um período como tenho estimado o fim de 2020 e desta egrégora incômoda que o cerca. Acaba vintão e leva esta energia densa e desconfortante junto com você.

Que ano caros leitores! Que ano! Olha, vou dizer pra vocês que realizei grandes conquistas e sonhos ao longo destes meses, mas ainda assim a sensação de desagrado e desalento foi presença constante e diária.

Passei 2020, como muitos de nós, fazendo escolhas que pudessem contribuir para adiar o fim do mundo. Esta era a minha intuição no primeiro trimestre deste ano. Eu tinha certeza de que havia acabado a nossa estadia na Terra e passava horas pensando no que fazer para ganhar mais um dia no planeta.

Neste instante, o meu caminhar, que sempre tinha sido em direção ao futuro, eu sempre vislumbrava a ideia de que existe um futuro e que neste lugar sou melhor e mais evoluída, de repente, este momento desarmou-se e eu passei a enxergar ainda mais o agora.

Fui prospectada para uma avaliação interna e forçada. Eram essas as opções que eu tinha no mês de março. Fingir que nada estava acontecendo e tapar os olhos para o soluçar do planeta ou entender que a Terra estava em plena despressurização e colocar a máscara de oxigênio — que ao contrário do que sempre disseram as aeromoças, não caíram automaticamente.

Se você já andou de avião sabe que assim que o piloto começa a taxiar a pista, antes da decolagem, a equipe de bordo anuncia os avisos de segurança. Mostram as saídas de emergência e nos alertam para como agir diante da possibilidade de ficarmos sem respirar: "Em caso de despressurização, as máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Caso esteja acompanhado de alguém que necessite de sua ajuda, coloque sua máscara primeiro para em seguida ajudá-lo". Esse é o anúncio e se você ainda não andou de avião deve tê-lo visto em algum filme ou série.

Muitos de nós, principalmente os viajantes experientes negligenciam esta instrução do voo por já se acharem muito espertos. Eu sempre ligava meu fone de ouvido e dava de costas para o comissário de bordo nesta etapa. Minha soberba me fazia acreditar já saber exatamente o que fazer, somada a ela o fato de um positivismo intenso que me fez negligenciar o aprendizado para os momentos de crise. Aquele famoso "isso nunca vai acontecer comigo".

Se eu tivesse prestado toda a atenção, teria entendido que esta mensagem não era só para o momento dentro do avião, mas um presságio para a vida.

No início do ano, quando o planeta nos desafiou e disse: Vai lá, quero ver você respirar agora! Nós tivemos que nos movimentar em busca da máscara de oxigênio e usar o princípio básico de sobrevivência num avião: Coloque primeiro a máscara em você e depois em alguém que necessite de sua ajuda. Se você não consegue respirar, como vai conseguir ajudar qualquer um que seja ao seu lado?

Esta foi a oportunidade que ganhei para repensar o que eu estava fazendo por mim. Independente do caminhar da vida, o que eu estava fazendo para cuidar de mim e me colocar em primeiro lugar? Não pretendo falar em egoísmo, talvez esta seja uma maneira egoísta sim de viver, mas o fato é que se eu não estiver de máscara não vou ajudar a ninguém.

A máscara esconde nosso rosto, abafa nossa voz e nos convida a olhar pra dentro. Eu, que sempre me orgulhei de ser uma mulher em movimento, me via obrigada a me questionar pra onde eu estava me movimentando.

Tenho me sentido em vantagem por ter chegado no dia primeiro de dezembro de um ano em que mais de um milhão e meio de pessoas já morreram sufocadas pelo coronavírus e muitas outras sufocadas por um vírus mais mortal e presente socialmente, o racismo.

No dia 4 de abril eu escrevi meu testamento, facilitei ao máximo toda e qualquer ação judicial que minha família precisasse tomar caso eu viesse a falecer por falta de ar. Eu tive medo de morrer e sei que naquele momento o meu medo da morte me tornava alguém mais cuidadosa para comigo e com o planeta. Chorei cálices de lágrimas, e desacreditei em minha milenar resistência.

Chego em dezembro esgotada e ansiando o fim. Não do mundo, mas do ano. Chego sonhando e agradecendo aos mesopotâmios por terem tido esta brilhante ideia de dividir o tempo em 12 fatias. Assim foi possível que a gente evoluísse alimentando a sensação de positividade e renovação a cada 12 ciclos lunares.

Não sei o que esperar de 2021, mas seguirei lutando, chorando e sonhando — tudo isso usando minha máscara.