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Carla Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Naomi Wolf, ícone feminista, é negacionista e antivacina. E agora?

Naomi Wolf é autora do famoso livro feminista "O Mito da Beleza"  - FilmMagic/GettyImages
Naomi Wolf é autora do famoso livro feminista 'O Mito da Beleza' Imagem: FilmMagic/GettyImages
Carla Lemos

Carla Lemos é feminista, carioca, criadora do blog Modices e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor".

Colunista de Universa

04/03/2021 04h00

E quando você descobre que a autora do livro que mudou sua vida é uma negacionista, conspiracionista e antivacina? Pois foi o que aconteceu comigo nesta semana, quando começaram a me mandar textos e tuítes de Naomi Wolf, autora de "O Mito da Beleza".

Ex-conselheira política de Bill Clinton, a escritora americana já se posicionava contra o isolamento social e o uso de máscaras, mas decidiu ir além. Primeiro, deu entrevista para a Fox News afirmando que a pandemia seria um "disfarce" para as autoridades usarem os poderes de emergência e instaurarem regimes autoritários.

Depois, tuitou e postou um vídeo com teorias da conspiração sobre a pandemia, dizendo que a nanotecnologia usada em vacina contra a covid-19 seria, na verdade, uma forma de empresas coletarem dados das pessoas. O Twitter e o YouTube baniram as publicações, mas a decepção já estava instaurada.

O livro que Naomi lançou em 1990, "O Mito da Beleza", me abriu as portas do feminismo e despertou em mim a consciência para diversas opressões que eu sentia e praticava com outras mulheres. E não foi só comigo.

Nesses 30 anos, ele se tornou um dos livros feministas mais vendidos do mundo. Eu mesma já o indiquei inúmeras vezes nas minhas redes sociais, em entrevistas e em conversas de bar — quando elas ainda eram possíveis. E o feedback que recebia era unânime: "Obrigada, Carla, esse livro me ajudou".

"O Mito da Beleza" faz a gente ver sem filtros esse assunto tão onipresente na vida das mulheres. Ele colocou os fatos em perspectiva, mas a autora deu uma exagerada.

Antes desse "exposed" (exposição) negacionista, eu já conhecia essa crítica de que a escritora "exagerava" distorcendo dados tanto em "O Mito da Beleza" quanto em seu mais recente livro, sobre a criminalização da homofobia na Inglaterra.

Em uma entrevista de Naomi à BBC, em 2019, duas semanas antes do novo livro ser lançado, o apresentador e historiador do programa apontou um erro grave na edição. Ela havia interpretado um termo de maneira incorreta, e isso mudava o significado de tudo. Sua editora imediatamente recolheu os 35 mil exemplares a 5 dias do lançamento.

Fiquei chocada. Encontrei então uma crítica literária do "The New York Times" falando de como Naomi sempre foi controversa e distorcia dados para sustentar suas teses. No caso de "O Mito da Beleza", as estatísticas sobre anorexia nos Estados Unidos.

Ninguém sabia direito de onde ela tinha tirado aqueles dados e isso acabou se tornando um questionamento frequente em seus trabalhos — e atraiu críticas por "pesquisas desleixadas e informações exageradas".

Uma terapeuta sexual citada em outro livro controverso de Naomi diz que "às vezes, as pessoas têm que ir a extremos para fazer com que as pessoas falem sobre um tópico". Infelizmente, não dá para dizer que essa estratégia não funciona.

A importância de "O Mito da Beleza"

Livro "O mito da beleza", de Naomi Wolf - Divulgação - Divulgação
Lançado há 30 anos, o livro de Naomi é uma importante contribuição ao feminismo
Imagem: Divulgação

O impacto cultural de "O Mito da Beleza" é enorme, especialmente agora com a popularização dos movimentos de "body positivity", de aceitação do corpo. Naomi inspirou mulheres por todo mundo, ampliou as conversas sobre como a obsessão pela beleza feminina é usada como uma estratégia política.

Mas, desde que a internet descobriu a Naomi negacionista, o que eu vejo é gente querendo desqualificar tudo. Vejo listas circulando de livros para substituir "O Mito da Beleza" e são cinco livros para compensar o conteúdo de um. É complicado...

Existem sim outras escritoras que abordam questões similares como a psicanalista britânica Susie Orbach, autora de "Fat is a Feminist Issue" (Gordura é uma questão feminista, em inglês) e "Bodies" (Corpos), que já citei em um texto para Universa sobre disformia corporal. Ou a filósofa Heather Widdows que, em 2018, lançou "Perfect Me", que aborda a busca da beleza como ideal ético e moral. Livros ótimos, mas todos ainda sem tradução para o português, tornando a ampliação do debate dificílima.

Mas, será que devemos mesmo jogar "O Mito da Beleza" na fogueira? Os filmes novos do Woody Allen podem estar sendo boicotados, mas nenhuma escola de cinema do mundo deixará de estudar seus filmes e usá-los de referência. Assim como não farão com os de Stanley Kubrick ou Alfred Hitchcock. São trabalhos relevantes, com muito a ensinar.

Ter passado sozinha por todo esse processo de decepção com a Naomi Wolf foi importante. Esses novos fatos me deixaram decepcionada, porém, não surpresa.

Talvez a gente precise de uma nova versão revisionista de "O Mito da Beleza", atualizado com o tanto de pesquisa, informação e dados oficiais que temos hoje sobre o impacto da pressão estética e da gordofobia na nossa sociedade. Ou talvez a gente só precise lidar com o fato de que pessoas não são perfeitas, lógicas e 100% coerentes. Nem suas obras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL