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Menopausa: espero que geração de nossas filhas fale sobre o que escondemos

A menopausa é o nome dado à última menstruação e marca o fim da fase reprodutiva da vida da mulher - iStock
A menopausa é o nome dado à última menstruação e marca o fim da fase reprodutiva da vida da mulher Imagem: iStock
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

25/04/2022 04h00

Uma mulher quer voltar ao mercado de trabalho. Ela era muito boa no que fazia antes de largar tudo para cuidar dos filhos. Agora, o marido está desempregado, os filhos estão adolescendo e ela precisa urgentemente de um salário fixo. O que essa mulher faz? Mente a idade.

Tira sete anos da bio e se apresenta no novo emprego com 42, em vez dos 49 apontados na certidão de nascimento. "Dizem que 50 são os novos 40, mas, para o mundo corporativo, no meu tipo de trabalho, 50 podem ser o mesmo que 60, 70 ou 80", ela diz. Kate trabalha com investimentos, um universo agressivo e cheio de testosterona —coisa que, aliás, perto dos 50 anos, ela vem perdendo aceleradamente.

E assim começa um ótimo livro sobre a menopausa "Não Sei Como Ela Dá Conta" (ed. Versus), da romancista britânica Allison Pearson. No catálogo da Netflix, o livro dá a base ao filme "Não Sei Como Ela Consegue", com a atriz Sarah Jessica Parker no papel da protagonista.

O livro é bem contemporâneo. O cenário que cerca a rotina da Kate faz com que a gente se identifique logo com a protagonista: o pânico com o bumbum da filha exposto em uma belfie (a selfie das nádegas) nas redes sociais, a preocupação com a hipnose causada pelos games no caçula, a culpa pela mãe adoentada e os conflitos com a irmã mais nova. Um retrato típico da geração de mulheres de classe média que chegam à maturidade.

Allisson Pearson, hoje, tem mais de 60 anos. É jornalista, colunista de jornais britânicos, casada, com dois filhos, igual à protagonista do livro. Na vida pessoal, parece ser uma pessoa detestável, que se opõe, segundo seu perfil na Wikipedia, aos direitos de pessoas transgênero. Mas o livro dela, embora não seja nenhuma obra prima da literatura, tem um grande mérito: fala da menopausa.

Em uma época em que tantas questões femininas, antes silenciadas, vieram à tona, a menopausa ainda continua um tabu.

"Ninguém te fala sobre a vulva careca". A frase que abre o livro, de autoria da atriz Whoopi Goldberg, resume tudo.

Ninguém fala sobre a depressão, sobre a sensação de que o centro de gravidade da Terra mudou, sobre a falta de lubrificação e de desejo sexual, sobre a queda de cabelo, a secura da pele. Os calores, sim, são percebidos. Impossível escondê-los. Mesmo assim, tentamos. Ficamos vermelhas, queremos tirar a blusa no meio de uma reunião, mas continuamos ali, comportadas, aguentando o tranco. Por quê?

Como deixamos de falar e de trocar experiências sobre um rito de passagem tão brutal? Do ponto de vista fisiológico, a menopausa é um teste de estresse de altíssima intensidade no corpo.

Hormônios que mantinham o mecanismo funcionando de repente são sugados e enviados para o espaço, para o planeta da infertilidade talvez. Sim, menopausa é o aviso ancestral de que o corpo feminino deixa de ser capaz de gerar vida em algum momento. Por que não conversamos sobre isso?

Até a minha geração, de modo geral, a menopausa acontecia quando estávamos no auge da carreira e com filhos adolescentes em casa. E também quando os pais —envelhecidos— passavam a exigir cuidados, em uma inversão da ordem natural das coisas. Portanto, a menopausa chegava em um péssimo momento para as mulheres da minha idade.

Nos encontrávamos ensanduichadas entre filhos, pais e trabalho. Nessa hora, quando precisávamos muito de paciência e energia, tesão pela vida, foi retirada da gente uma linda composição hormonal que ajudou a sustentar aquele mítico papel de mulher guerreira, porém acolhedora. Ou vice-versa.

Pois bem, deixamos passar essa.

O debate sobre a menopausa e o impacto que ela causa na vida das mulheres ficará para outra geração, talvez a das nossas filhas. Será que a menopausa as atingirá em outro momento da criação dos filhos, já que a maternidade foi retardada em vários anos?

Será que nós, seus pais, exigiremos menos ou mais cuidados? Como elas vão encarar o recurso da reposição hormonal, para combater os piores efeitos da menopausa?

Perguntas que só elas podem responder. Torço para que, até lá, mais livros, filmes e palestras sobre a menopausa sejam lançados.

Meninas, vocês são boas em levantar o tapete onde escondemos a poeira. Falem sobre a menopausa.

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