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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Para salvar minha filha, larguei do meu marido abusivo'

Vitória Piazaroli atualmente dá palestras sobre violência doméstica e relacionamento abusivo em encontro de motociclistas no interior de São Paulo - Reprodução/ Facebook
Vitória Piazaroli atualmente dá palestras sobre violência doméstica e relacionamento abusivo em encontro de motociclistas no interior de São Paulo Imagem: Reprodução/ Facebook
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

20/12/2021 04h00

Existem muitas maneiras de olhar a mesa da festa da firma onde você está se divertindo com a turma neste fim de ano. Uma dessas maneiras, nada bonita, é imaginar que algumas das suas colegas, ao chegarem em casa, vão sofrer na mão de maridos abusivos. Se aplicarmos dados de pesquisas a esta realidade, não seria impossível imaginar que a diretora do departamento de marketing, a assistente administrativa, a analista de RH e a gerente financeira escondessem de você alguma história arrepiante envolvendo chutes e empurrões, xingamentos e humilhações dentro de casa. Sim, esse texto vai falar de violência doméstica e relacionamentos abusivos.

Minha entrevistada é uma microempresária de 51 anos, motociclista e ex-peoa de rodeio que conta ter sido humilhada, rejeitada e surrada pelo pai de seus três filhos durante duas décadas. Separada do seu agressor há três anos, quando partiu em defesa da filha do casal, Vitória Piazaroli atualmente dá palestras sobre violência doméstica e relacionamento abusivo em encontros de motociclistas no interior de São Paulo e contrata apenas mulheres vítimas de violência doméstica em sua pequena empresa.

UNIVERSA - Uma das coisas difíceis de entender em relacionamentos abusivos é o fato de uma mulher, vítima de violência doméstica, suportar o marido por tanto tempo. Talvez seja até uma atitude preconceituosa da nossa parte, como se a mulher fosse culpada e não vítima da situação. O que você acha disso?
VIÓRIA PIAZAROLI - Sim, com certeza, uma mulher que está em um relacionamento abusivo se sente culpada. O processo para ela entender que está sendo a vítima é um caminho muito longo, falo sempre isso nas minhas palestras. Mesmo depois que a gente é desprezada, xingada, espancada, ainda assim a gente pode pensar que fez alguma coisa errada. Ou até achar que isso faz parte de um casamento, que a gente tem que suportar por causa dos filhos. Ou que tem que suportar porque um dia vai acabar. Mas não acaba, a violência só piora. Sei disso não só porque sofri 20 anos em um relacionamento abusivo, mas porque trabalho com mulheres que foram vítimas de violência na minha empresa de prestação de serviços de limpeza e jardinagem. A violência dentro de casa costuma chegar devagarzinho mas dura muito tempo.

Você me mostrou muitas cópias de boletins de ocorrência que registrou contra seu ex-marido. Como foi sua história com ele?
Quando conheci meu marido, eu era peoa de rodeio no interior de São Paulo. Eu era a única mulher, na época, nos anos 90, quando os rodeios ainda não eram proibidos. Eu me apaixonei e casamos. Logo, tivemos a primeira filha. Era um casamento tranquilo, ele trabalhava, eu ficava em casa porque estava grávida e não podia mais participar de rodeios. Comecei a fazer doces para fora.

Era um relacionamento normal. Mas, depois que minha filha nasceu, as coisas começaram a mudar.

Ele trabalhava de dia e estudava à noite. Não sei se começou a sentir falta de liberdade dos colegas de faculdade, mas passou a me desvalorizar. Começaram os xingamentos, as pequenas humilhações. Nas festas, ele ficava olhando para as outras mulheres. Na cama, dizia para eu deitar longe dele. Na hora de tirar uma foto, ele falava para eu não sorrir porque ia ficar mais feia ainda. Claro que eu não gostava, me sentia péssima, mas as pessoas diziam que quando a gente tem filho, os maridos se afastam. Eu acreditava nisso.

Seu casamento sempre foi assim?
Mais ou menos, tivemos alguns momentos bons. Quando engravidei do segundo filho, ele mudou, deu uma acalmada, ficava mais em casa. Nessa época, montamos uma empresa de elétrica e nossa vida melhorou. Mas não durou muito, não. Logo, ele começou a voltar mais tarde para casa, passar a noite fora. Eu reclamava, dizia que ele não podia me deixar sozinha com dois bebês em casa sem nem atender o telefone quando eu ligava. Mas ele foi piorando. Bebia e gritava muito comigo. A gente só brigava. Eu passei a dormir no quarto com meus filhos, mas algumas vezes ele me obrigava a dormir na cama de casal, dizia que tinha direito. Eu nem sabia, naquela época, o que era ser vítima de estupro do próprio marido.

Você não contava para ninguém?
Eu não podia. Minhas irmãs desconfiavam, mas eu não contava nada. Tinha medo da reação do meu pai se ele ficasse sabendo. Achava que ele ia matar meu marido e acabaria na cadeia. Então fiquei naquela vidinha. Eu era praticamente uma empregada dele, cuidando da casa e das crianças. Mas aí veio o pior, quando eu engravidei do meu terceiro filho e ele pediu para eu tirar o bebê. Dizia que ele não tinha dinheiro para ter mais filho, que o filho não podia ser dele porque "ele mal tocava em mim". Chegou a falar para o pai dele: "Essa desgraçada está grávida de novo".

Quando eu respondi que ia ter o bebê, levei minha primeira surra. Enquanto ele me batia, eu me enrolava para proteger a barriga. Mas aí, no sétimo mês de gravidez, meu marido caiu do telhado e fraturou o braço. Eu precisei cuidar dele. Nenhum amigo, nenhum irmão apareceu, só eu mesma. Dava banho, comida...

E ele mudou de novo?
Mudou. Me abraçou um dia, pediu perdão para o bebê na minha barriga, virou outro homem. Arrumou uma empregada para me ajudar em casa, procurou a Igreja, passou a cuidar do bebê também. Virou um paizão. Isso durou um ano e meio. Depois, começou tudo de novo: os xingamentos, a humilhação, a violência. Em 2006, me separei dele pela primeira vez, tinha acabado de saber que eu tinha sido contaminada por uma doença sexualmente transmissível. Mas, seis meses depois, voltamos a morar juntos. Ele me paparicou muito, levava as crianças para passear, a gente acampava, ele não deixava faltar nada dentro de casa. É assim que acontece, né? A gente separa várias vezes até conseguir dar fim a um relacionamento abusivo.

Quando eu quis me separar de novo, porque tinha voltado a ser maltratada, ele me ameaçava. Dizia que ia tirar as crianças de mim, que já tinha uma carta do juiz autorizando. Foi nesse período que registrei vários boletins de ocorrência contra ele. Mas os policiais iam em casa, conversavam com ele, davam um sermão e ficava tudo na mesma. Uma vez, eu fui parar no hospital e os policiais me disseram que, se eu quisesse, meu marido ia ser preso na mesma cela de uns caras violentos, que iam bater tanto nele que não seria surpresa se ele não voltasse para casa. Meu filho do meio estava junto comigo e começou a chorar, desesperado. Claro que não deixei meu marido ser preso, quem faz isso com o filho?

E como você conseguiu deixá-lo de vez?
Teve um fato. Minha filha mais velha, aos 18 anos, disse em casa que era bissexual. Meu marido voou para cima dela, começou a apertar o pescoço, achei que ia matar ela de verdade. Eu estava na cozinha, com uma faca na mão. Me joguei entre eles e disse que, se ele não soltasse minha filha, eu ia enfiar a faca nele. Pela primeira vez, tive coragem de enfrentá-lo porque percebi que ele podia machucar meus filhos. Antes, quando ele queria bater nas crianças, eu deixava que ele batesse em mim, no lugar.

E ele te deixou em paz?
Não, me perseguiu por muito tempo, até arrumar uma nova mulher, faz três anos. Antes, precisei conseguir uma medida protetiva contra ele, porque ele me mandava mensagens horríveis, me ameaçando e ameaçando as crianças. Foi tudo horrível. Eu fiquei mal, deprimida, voltei para a casa dos meus pais. Sem dinheiro, sem trabalho... Mas aos poucos fui me reerguendo com a ajuda dos motociclistas, que considero meus irmãos. Hoje, tenho uma empresinha e contrato apenas mulheres vítimas de violência doméstica. Me considero vitoriosa, apesar de tudo. Sou neta de uma avó indígena que foi vítima de feminicídio. Tenho uma história de luta. Por isso me chamo Vitória, nome que adotei depois da separação.

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