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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mal saiu do divórcio, Adele parece ser obrigada a superar a sofrência

A cantora Adele lançou o álbum "30" com "mais superação e menos sofrência do que esperava", segundo os resenhistas - Simon Emmett / Divulgação
A cantora Adele lançou o álbum '30' com 'mais superação e menos sofrência do que esperava', segundo os resenhistas Imagem: Simon Emmett / Divulgação
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

20/11/2021 04h00

Adele lançou novo álbum. Os críticos dizem que nele tem mais superação e menos sofrência do que se esperava. Eu me pergunto: isso é um elogio?

Essa é a primeira obra que ela lança depois do divórcio e, dado o histórico já meio melancólico da cantora, previa-se uma coleção de lágrimas. É verdade que Adele chora um pouco, mas o tom geral do novo trabalho dela, dizem os resenhistas, é de levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Que bom que a cantora está celebrando o otimismo e a vontade de viver novos amores. Mas vou aproveitar o gancho para refletir sobre a sofrência e a superação: por que temos tanto medo de uma e aplaudimos tanto a outra?

Claro: ninguém gosta de sofrimento. Queremos um mundo onde a dor não exista. O incômodo, não importa sua intensidade, é algo a ser evitado, jamais tolerado ou apreciado.

No Brasil, o remédio mais vendido é um analgésico, usado contra dores de cabeça e dores musculares. Nosso país, todos sabem, é campeão no uso de vários medicamentos contra dores da alma. Os ansiolíticos, que tiram a ansiedade e a angústia "com a mão", são mais baratos do que uma garrafa de vinho porcaria. E, diferentemente de uma garrafa de vinho, que acaba na mesma noite, cada caixinha de ansiolítico dura um mês inteiro. Causa dependência, pode estar aumentar o risco de demências, mas e daí? Com eles, a dor passa. E passa na hora. Curioso isso, não é?

No país alegre e caloroso - essa, a autoimagem que gostamos de promover para nós e para os outros —, há mais sofrência do que em muitos outros países do mundo, a julgar pelo alto consumo que fazemos dos benzodiazepínicos e dos antidepressivos.

Não estou julgando o uso dos remédios — sou daquelas que acreditam que devemos fazer uso das ferramentas que facilitam a vida. Em casos extremos, quando a depressão, por exemplo, tira toda a sua força vital, quando morrer parece mais atraente que viver, sou absolutamente a favor dos antidepressivos e outras substâncias e terapias que possam reverter situação tão dolorosa.

Depressão, o mal do século 21

A depressão, dizem alguns psicanalistas, é a ausência absoluta do desejo. Quando alguém não sente falta de levantar da cama, de tomar banho, de se alimentar, de se relacionar com outras pessoas, ele está negando o mais vital dos desejos, o da sobrevivência. Se não houvesse esse desejo, tão presente nos seres vivos, estaríamos extintos antes mesmo de termos começado a nos espalhar pelo planeta. Onde não tem desejo, tem angústia: aquela dor no peito, aquele mal-estar difuso que não sabemos de onde vem.

A vontade de viver, universal para todos os seres vivos, nos acompanha desde que nascemos. A angústia também, pelo menos entre os humanos.

Seres inteligentes querem saber de onde vieram e para onde vão. A falta dessas respostas nos angustia. Mas, de alguma forma, a maioria de nós consegue equilibrar a vontade de viver com a angústia. Então, por que aumenta o número das pessoas que não consegue? Por que estamos sofrendo tanto?

A Organização Mundial da Saúde classifica a depressão como o mal do século 21. As últimas estatísticas publicadas pelo IBGE sobre a doença mostram que houve um aumento de 34 % de pessoas deprimidas no Brasil em seis anos, de 2013 para 2019.

Falta couro curtido aos millenium?

Tem gente que acredita que falta a essa geração o couro curtido. Teríamos facilitado demais a vida dos filhos e assim, diante de uma frustração, eles se deprimem.

Outros acreditam que o problema esteja na régua imposta a eles, erguida nas alturas. Depois de preencher a infância dos filhos com cursos de música, inglês, natação etc.., esperaríamos demais deles na idade adulta. Contávamos com alto desempenho: bons empregos, muito dinheiro, sucesso, destaque onde estivessem.

Quando as pessoas não conseguem se encaixar, quando se sentem excluídas de um projeto de vida boa, de sucesso, elas podem desistir. Muitas vezes antes de tentar. Essa seria uma explicação para tantos jovens da geração millenium estarem deprimidos? Explicaria, em parte, a existência de tantos que não estudam e não trabalham, os nem-nem. Será que eles desistiram dos sonhos que sustentaram os desejos dos seus pais por que não se acharam à altura? Ou desistiram porque não viram sentido nesses sonhos? Ou, ainda, no campo das mil hipóteses, eles estariam deprimidos diante de ameaças concretas do fim do futuro, como a crise climática e pandemias?

Excesso de escolhas

Recentemente, em uma aula do filósofo gaúcho Draiton Gonzaga de Souza, da PUC do Rio Grande do Sul, aprendi que o excesso de escolhas também nos angustia. Diz ele, citando o psicanalista francês Charlos Melman, que atualmente temos mais coisas a escolher. "O problema é não saber o que desejar, temos muitas opções... São muitas possibilidades e eu não posso escolher tudo. Então, quando eu escolho, mais deixo do que pego. E até não escolher é uma escolha."

Desculpe, leitor e leitora, por levantar tantas perguntas neste texto. Gostaria de trazer mais respostas.

A única coisa absolutamente certa é que estamos sofrendo mais — nossos filhos estão sofrendo mais. Quando pais e mães veem seus filhos em sofrimento, é natural que eles rezem pela superação.

Torcemos para que os filhos recém-divorciados superem logo o fim do casamento, para que os filhos sem dinheiro superem logo o desemprego, para que os filhos deprimidos superem a doença.

Celebramos a superação da dor porque acreditamos que, somente assim, as pessoas estarão vivas. "Só quero que meu filho supere essa tristeza e seja feliz", diz a mãe diante do filho deprimido, sem se dar conta de que o que ela pede não é razoável. Felicidade é um estado raro, totalmente incomum em uma sociedade que cobra alto desempenho em tudo e deixa todos insatisfeitos — ou, no máximo, parcialmente satisfeitos.

Isso mesmo: cobramos alto desempenho também na superação da dor. Consideramos pessoas que se superam — superando a dor ou seus próprios limites — como pessoas melhores do que as outras, já notou? Na música "Eu Bebo Vinho", Adele diz: "Por que estou obcecada com as coisas que não posso controlar? Por que estou buscando a aprovação de pessoas que nem conheço? Nestes tempos loucos, espero encontrar algo em que possa me agarrar".

Espero que Adele, 33 anos, pura millenium, encontre algo a se agarrar no seu devido tempo e que não sinta a superação como um dever a ser cumprido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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