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'Sempre fui menina': aos 10 anos, ela mostra que crianças trans existem

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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

18/09/2021 04h00

Quando fui entrevistar a mãe de A., menina trans de 10 anos de idade, ela me contou que a filha gostaria de ser ouvida. "Ela sempre me surpreende. Tem resposta para tudo." O motivo inicial da minha conversa com a mãe: conhecer a história da tentativa da família de aprovar a retificação definitiva de gênero de A. na certidão de nascimento. Se a justiça autorizar, o nome masculino de A. não constará mais em nenhuma forma de identificação. Esse seria um passo além da inclusão do nome social nos documentos — etapa já cumprida pela família de A. que, no entanto, a considera insuficiente para poupar a menina de constrangimentos.

A. mora com os pais e a irmã, de 20 anos. Se veste como menina desde os 8 anos de idade e seu desenvolvimento vem sendo acompanhado por uma equipe formada por médicos (pediatra e psiquiatra) e psicólogos desde os 3 anos.

Decidi conversar com a criança, e publicar o resultado, editando alguns trechos que pudessem levar ao reconhecimento dela na cidade onde mora, porque A. tem razão: dificilmente crianças são ouvidas pelos adultos em assuntos que dizem respeito a elas. Além disso, é comum que se duvide da existência de crianças e adolescentes trans, como se eles, desde cedo, não tivessem o direito e a necessidade de buscar a própria identidade.

Partimos do pressuposto de que o gênero da criança está dado em seu nascimento. E nem sempre isso é verdade. Crianças e adolescentes trans existem, não são personagens exóticos inventados por pais permissivos

São crianças e adolescentes que se identificam com outro gênero, que não o do nascimento. Quando essa identificação persiste (não se trata de "uma fase"), é profunda e genuína, os familiares têm diante de si uma jornada difícil, independentemente da decisão que tomem (ignorar, rejeitar ou apoiar). Mas o apoio, dizem os especialistas no tema, vai facilitar muito a jornada dos próprios filhos, que sempre terão uma casa para voltar depois de um episódio de preconceito e rejeição.

Então, A., sua mãe está aí do seu lado, mas ela me disse que você não precisa de ajuda para responder, é verdade?
É, eu gosto de falar. Sou do signo de Leão.

Ah, não sei muito sobre signos, mas entendo o que você quer dizer. Bem, por que você achou importante falar comigo?
Porque ninguém ouve criança. Quando a gente fala com um adulto, ele fala em cima da gente e a criança tem que ficar calada. Se a criança continua falando, mais alto, eles dizem estamos julgando eles. Um dia, a amiga da minha mãe chegou em casa e ficou me chamando pelo antigo nome. O tempo todo. Não adiantava eu olhar de cara feia para ela, ela ficava insistindo. Então, quando ela estava indo embora, eu tive que falar para ela não voltar mais aqui porque, na minha casa, ela tinha que me respeitar. (A mãe de A. havia me contado essa história. A fala de A. selou o rompimento de uma amizade de 27 anos, segundo ela. Sua amiga não aceitou que A. passasse a se vestir como menina e a ser chamada por um nome feminino. Na visita, recriminou a mãe por apoiar a garota e se indispor "com as leis de Deus". Segundo a mãe de A., depois que de assumido o gênero feminino publicamente, houve distanciamento de muitos conhecidos. "Eles têm vergonha da gente", diz a mãe."). Esses adultos não entendem.

O que você acha que eles não entendem?
A gente é igual, é ser humano. Eu me sinto ótima, bem normal. Sou um ser humano como eles. E não é porque a gente tem cabelo curto que não é mulher. Não é porque um homem tem cabelo longo que não é homem. Eu sempre, sempre me senti uma menina. Eu nasci assim, sou assim. Quando minha vó, que morreu, viajava, ela trazia maquiagem para minha irmã e para mim. Trazia bonecas também, porque sabia que eu gostava. Sempre gostei.

Você se lembra da sua primeira boneca?
Claro! Eu ganhei dos meus pais depois de uma festa de aniversário que eu fui. Era uma festa da Frozen e eu fiquei brincando com uma boneca linda da Elza que estava em cima da mesa do bolo. Nossa, era muito linda aquela boneca. Aí, um homem começou a gritar para mim: solta isso aí, menino. Isso é coisa de viadinho. Corri pra debaixo da mesa e quando minha mãe me pegou, eu lembro de dizer pra ela que eu não era menino, era menina. Aí, fomos embora de festa e, no caminho, tinha uma loja de brinquedos. Minha mãe comprou uma Barbie da Elza pra mim. Agora, tenho uma coleção de Barbies. Eu adoro. Sempre levo para a escola.

Pode levar?
Agora, não pode, por causa da pandemia, a gente só tem aula remota. Mas antes eu levava. Tinha um dia da semana que os alunos podiam levar um brinquedo. Como eu me vestia de menino, as meninas me ignoravam no recreio, sabe? Só no dia dos brinquedos, elas vinham para perto de mim para ver as Barbies.

E hoje, como você está na escola?
As professoras me respeitam muito. Um dia, uns meninos começaram a me zoar e a me chamar do nome antigo e a professora que estava do meu lado deu uma bronca, falou que aquilo era errado e que meu nome era A. e que era desse jeito que eu tinha que ser chamada. (A mãe já havia dito para mim que a direção da escola e o corpo docente sempre apoiaram A. "Eles me chamavam para tirar dúvidas, sabiam que eu ia a palestras, que eu consultava especialistas no assunto. Então, quando não sabiam o que fazer, me chamavam para eu orientar, nunca para julgar ou criticar.")

E do primeiro vestido, você se lembra?
Ah, era da minha irmã. Ela tinha dois vestidos que eu adorava. Um, eu usava como vestido mesmo. O outro, fazia de capa. De vez em quando, eu pegava um lençol e amarrava na minha cintura. (A mãe de A. explicou que, mesmo sendo tratada pelo nome feminino que escolheu dentro de casa, em ambientes públicos e na escola ela só começou a se vestir como menina aos 8 anos de idade, quando começou o que a família chama de transição. Antes disso, mesmo aos 2 anos de idade, A. já colocava fraldas de pano em cima da cabeça como se fosse uma peruca.)

Sua mãe me contou que você não gosta de ver fotos antigas. Pode me explicar por que não gosta?
Porque eu não sou daquele jeito. Com cabelo curto, roupa de menino. Não sou aquela pessoa. Parece outra pessoa que estão dizendo que sou eu. A única foto que eu gosto é a do aniversário de 15 anos da minha irmã. Eu usei um terno, mas a gravata era borboleta, eu que escolhi. Amarela. E passei muita, muita maquiagem que eu peguei emprestada da minha irmã. Passei uma sombra azul e um batom pink. Passei glitter na minha cara inteira. Eu tinha o cabelo curto, mas um pedaço era mais comprido. Aí, eu peguei e lambrequei de gel até ficar meio ondulado, bem diferente. Dancei muito, fui até o chão com minha irmã, foi uma maravilha.

Sua mãe te contou que vocês estão tentando mudar sua certidão de nascimento. Você entende o que é isso?
Sim, entendo. Vão tirar meu nome antigo. Eu quero muito que isso aconteça porque aí não vão errar mais meu nome. Um dia desses, eu estava no médico e ele me chamou pelo meu nome antigo. Ele chamou, chamou e eu fiquei com muita vergonha, mas uma hora precisei levantar e ir até o consultório. Foi muito horrível, ficou todo mundo olhando.

Muito obrigada pela entrevista. Para a gente acabar a conversa, me diga o que você acha que poderia mudar no mundo...
Podia mudar tudo. Tinha que mudar o prefeito, eliminar o preconceito do planeta. Somos todos iguais. O preconceito só acontece com a gente, humanos. No mundo dos animais, existem leões que são gays e são respeitados.

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