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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Quero um país melhor': uma conversa entre dois patriotas no Brasil de 2021

Adriano Vizoni/Folhapress
Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

11/09/2021 04h00

"Eu queria, sim, ter ido aos protestos de 7 de setembro", diz ela.
"Ainda bem que não foi", respondo.
"Não fui, mas queria ter ido."
"Para quê? Para pedir a volta da ditadura? Pelo amor de Deus, aquilo foi horrível. Lembra do nosso primo, que precisou ficar escondido um tempão?"
"Não, não tem nada a ver com a ditadura. Só queria pedir um país melhor".
"Mas esse cara não vai te dar um país melhor. Ele já está te dando um país pior."
"Eu não acho, não concordo. Para mim, nada foi pior do que o governo do PT."
Silêncio. Sabemos, as duas, que aqui vai recomeçar uma conversa antiga. Mas antes que eu diga alguma coisa, ela fala.
"Não quero discutir política com você. Cada um tem sua opinião."
"Mas é o único jeito. Acho que você não está vendo o mal que ele faz para minha vida, sua vida, para o país. Me diga uma coisa que melhorou depois da eleição, só uma..."
"Não estou falando dele, já te expliquei. Estou falando de um país melhor, com ou sem ele."
"Mas, então, não faz sentido para mim. As pessoas que foram protestar no dia 7 estavam ali por causa dele."
Silêncio de novo.
"Eu sei que você foi na passeata a favor do PT", diz ela, de repente.
"Foi a favor da democracia, não a favor do PT."
"Eu não te critiquei, critiquei? Falei que você não devia ir, por acaso?"
"Falou."
"Mas isso foi por causa da pandemia."
"Eu usei máscara."
"Af, você entendeu. Eu respeitei sua opinião. Você não respeita a minha."
"Eu respeito a sua opinião. Mas não respeito o que ele está fazendo com a gente. Você não vê que tudo que ele fala tem a ver com violência, com ódio? Eu não entendo, isso não combina com você. Você é a pessoa mais solidária que conheço."
"Tá, reconheço que, às vezes, ele exagera um pouco. Mas tem muita coisa que a mídia distorce e inventa. Já não aguento mais ouvir aqueles jornalistas da GloboNews, só criticando, falando mal. Me dá até nojo."
"Você se lembra de que eu sou jornalista, né?"
"Você é diferente. Eu te conheço."
"Esses jornalistas têm mais embasamento para falar do que os vídeos de Youtube que você recebe no WhatsApp. Lembra daquele do médico que defendia a cloroquina?"
"De novo você vai falar disso? Já te disse, ele citou um monte de dados, tinha cara de médico, diploma pendurado na parede. Por que ele não pode expressar a opinião dele?"
"Expressar a opinião, ele pode. Mas não pode enganar as pessoas com mentiras. Ele cita pesquisas científicas, mas não são pesquisas confiáveis. Diz que é médico para passar autoridade, mas tem médico de todos os tipos, certo? Ele conta uma história pessoal que deveria provar que, se aconteceu com ele, vai acontecer com todo mundo. É assim que se faz fake news. É uma receita de bolo."
"Ah, cada um fala uma coisa. Não sei mais no que acreditar."
"Acredite em mim. Eu também quero um país melhor."
"Bom, pelo menos nisso a gente concorda."
"É, pelo menos nisso", digo. "Mas faz um favor para mim, um favor pessoal. Pensa aí em uma listinha de coisas boas que ele fez desde que assumiu para a gente discutir depois. Coisas práticas que melhoraram a vida das pessoas, que trouxeram mais emprego, menos miséria, mais saúde e educação."
"Você sabe que não deixam ele fazer nada."
"Não deixam ele fazer porque ele quer fazer coisas ilegais, inconstitucionais, quer destruir tudo. Nossa, ainda bem que não deixam ele fazer mais, não ia sobrar justiça no país."
Silêncio. Eu me exaltei um pouco.
"Mudando de assunto, tá chovendo aí?"
"Nadinha. Muito seco, ar horrível."
"Aqui está um calor insuportável e estão dizendo que vão perder a lavoura."
"Desmatamento dá nisso."
"Pois é. Será que a gente vai ficar sem água mesmo? Soube que os chineses estão comprando toda a água do mundo."
"Se eles compraram o Pantanal, devem ter tido prejuízo."
"Nem me fala, que coisa mais triste. O Pantanal se acabando."
Nós duas conhecemos o Pantanal em seu auge. É triste demais.
"Bom, a gente se fala outro dia", ela diz. "Vou levar o carro para abastecer. Parece que vai faltar gasolina de novo. Se bem que ela está tão cara, acho que não consigo encher o tanque."
"Tá bom, se cuida. Pensa no que te pedi."
"Beijos, te amo."
"Também te amo."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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