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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Saí de casa nas noites mais frias do ano para ajudar moradores de rua'

Paula Ferraz, 46 anos, criadora do projeto Transafeto, que dá assistência à população que dorme ao relento no centro da cidade, especialmente as pessoas LGBTQIA+  - Alê Ruaro
Paula Ferraz, 46 anos, criadora do projeto Transafeto, que dá assistência à população que dorme ao relento no centro da cidade, especialmente as pessoas LGBTQIA+ Imagem: Alê Ruaro
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

31/07/2021 04h00

Na gélida noite de quarta feira (28), aconteceu um milagre em São Paulo. A igreja católica Pastoral do Povo de Rua, e uma estação de metrô, a Dom Pedro II, abriram suas portas para que os moradores de rua pudessem dormir dentro dos seus recintos. "Nunca tinha visto isso acontecer", diz Paula Ferraz, 46 anos, criadora do projeto Transafeto, que dá assistência à população que dorme ao relento no centro da cidade, especialmente as pessoas LGBTQ+.

Muitas outras noites frias ainda virão e cada vez mais vemos pessoas morando nas calçadas, embaixo de marquises e até em cemitérios — na Zona Norte da cidade, um grupo de mulheres trans vive em meio a túmulos. Seguindo Paula nas redes sociais, fico sabendo que, além de marmitas, ela e parte de sua família - o marido Davi, a filha Laura, de 14 anos, e o filho Allan, de 27 - distribuem cobertores e roupas no inverno. Vejo fotos de Paula buscando cestas básicas doadas por empresas, por amigos e pelo Casarão Claudia Wonder, que presta assistência social a pessoas LGBTQIA+ da zona Oeste de São Paulo. Vejo a família conversando com outras famílias que se acomodam em barracas. Vejo Paula, sete filhos - dois adotivos - e seis netos, levando um bolo de aniversário ao aniversariante do mês no entorno do Pátio do Colégio, centro da cidade. Paula é uma mulher e uma instagrammer muito ativa.

Você foi para a rua nesta semana?
Fui. Na terça-feira, não tinha planejado sair, mas chovia tanto que eu, meu marido e meu filho saímos de madrugada para distribuir chocolate e café quentes. Doamos 40 litros, um senhorzinho tomou 5 copos de chocolate, de tanto frio que fazia.

Um morador, que não tinha cobertor, pegou a toalha das costas e colocou em cima da minha cabeça, para que eu não me molhasse enquanto distribuía o café. São histórias assim que fazem a gente ter fé

Na quarta-feira, fui de novo e hoje (quinta-feira, quando a entrevista foi dada) quero levar mais cobertores.

Por que tem tantas pessoas LGBTQ+ na rua?
Falta de oportunidade. Falta de emprego, falta de acolhimento da família. Quando a família descobre que a criança é gay, lésbica ou trans, já começa a rejeição. Vejo isso todo dia, os pais não aceitam, as mães não aguentam segurar a situação em casa, muitas vezes levam a culpa pela homossexualidade dos filhos... Meu filho adotivo, que hoje tem 27, foi expulso de casa aos 10 anos pelo pai. Ele era irmão do colega do meu filho Guilherme, que também é gay. Adotei porque não aguentei ver aquela criança abandonada tão cedo. Mas isso acontece direto e, hoje, tento não me envolver demais, porque tem todo tipo de pessoa, inclusive oportunistas que podem querer te explorar depois.

Por exemplo?
Um casal que a gente ajudou recentemente. Eles são adictos, o que é muito comum na rua. Nem todo mundo é, mas acontece bastante. Uma noite, pediram que eu levasse o filho de 2 anos comigo, porque era uma época de muitas brigas na região e eles ficaram com medo, pediram para eu proteger a criança até passar a confusão. Eu sei que não devia fazer isso, mas eu e meu marido levamos a criança para casa. Era praticamente um bebê, ficou dois dias com a gente. Quando abrimos a porta de casa, ele correu e começou a abraçar tudo: o sofá, a televisão, a geladeira. Era como se ele estivesse pensando: saí do inferno e agora tenho isso tudo. Mas quando devolvemos, foi uma tristeza muito grande, ele não queria de jeito nenhum voltar para os pais. Acabamos conseguindo um lugar para o casal ficar, arrumamos emprego e tudo depois de uma reportagem que saiu no programa Profissão Repórter, da TV Globo. Mas o empregador descobriu que o cara era um criminoso. Infelizmente, a gente não sabia disso. Nosso objetivo é ajudar quem está passando necessidade. Não tem como investigar o passado.

Por que aumentou a demanda na rua?
Aumentou a fome. Tem muita gente na rua. Antes, eu distribuía 400 marmitas por semana, faz três meses que a gente distribui uma média de 1 mil marmitas e é pouco. Na Sé (área central, onde fica uma das maiores estações de metrô e a mais importante Catedral da cidade), nem adianta ir se não tivermos pelo menos 500 marmitas para distribuir.

Você distribui marmitas para todo tipo de morador de rua, certo?
Sim, nosso foco é a população LGBT, que é mais desassistida de todas. A população trans costuma sofrer preconceito nas filas de doação comida. Cansei de ver mulher trans e homem trans serem expulsos ou enviados para o final da fila. Uma das leis da rua é que mulher pega comida antes do homem.

Mas muita gente que distribui comida separa as pessoas em duas filas, uma de homem e outra de mulher. E mulheres trans não são aceitas em nenhuma das filas. O preconceito está em todo lugar

Mesmo assim, quando a gente chega com a marmita na rua, não dá para dizer "você sim, você, não". A gente distribui para quem pede, não só para quem é gay, lésbica ou trans.

Você estava me contando que já conseguiu tirar bastante gente da rua, enviando para casas de acolhimento, para clínicas de recuperação, conseguindo emprego...
Sim, nós já conseguimos fazer bastante coisa, embora eu dependa da doação de amigos, empresários, entidades de assistência social. Mesmo assim, algumas dessas pessoas voltam para as ruas. Tem um problema recorrente na população das mulheres trans. Muitas vezes, elas voltam para a rua por causa dos maridos. Quando estão solteiras, elas conseguem fazer bicos, trabalhar e pagar uma vaga em uma pensão. Mas quando arrumam um namorado e eles ficam desempregados, vão para a rua com eles.

Você está tentando arrumar barracas para mulheres e homens trans. Por quê?
Só existem duas casas de acolhimento para mulheres trans em São Paulo. Cada uma tem capacidade para 30 pessoas apenas. No caso dos homens trans, é mais complicado ainda porque, como eles ainda têm órgão sexual feminino, são alvo de abusos em casas de acolhimento de homens hetero. Então, o jeito é ir para a rua mesmo. A gente vê a população de rua aumentando a cada dia. Por isso, meu próximo sonho é fazer uma casa de acolhimento em Perus. Imagino uma espécie de república que vai ser administrada pelas moradoras. Elas querem autonomia para recomeçar a vida, então imagino cobrar um valor quase simbólico de aluguel, algo que elas consigam trabalhar e pagar. Eu ofereço o espaço, os móveis e uma cesta básica por mês. Nesta casa, eu já tenho uma cozinha montada, onde faço as marmitas, então agora só preciso dos beliches para os 3 quartos e os móveis da sala.

Você tira o dinheiro da sua sobrevivência das doações?
Imagina. Eu trabalho como doceira, faço eventos de aniversário e casamento. Meu marido faz Uber, de vez em quando vira motoboy, a gente se vira. Nos últimos meses, estamos retirando dinheiro do bolso porque a demanda está grande demais. Está apertado para nós, mas doar marmitas, levar uma palavra de carinho, fazer uma festinha de aniversário para um morador de rua... Eu adoro fazer isso, vivo para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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