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Pé na estrada: para viajar, ela transformou seu carro em um minitrailer

Ingrid Saffran Evangelista transformou seu carro em um ?minitrailer? - arquivo pessoal
Ingrid Saffran Evangelista transformou seu carro em um ?minitrailer? Imagem: arquivo pessoal
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

10/04/2021 04h00

Depois de um ano de pandemia, Ingrid Saffran Evangelista estava enlouquecendo com o confinamento. Dona de um espírito livre e aventureiro, ela já tinha morado, antes com os pais, depois com o marido, em três países, quatro estados brasileiros e catorze cidades ao longo de sua vida.

Aos 55 anos, se sentia empacada. Precisava colocar o nariz para fora, mas não queria romper as normas de isolamento social. O que fazer? Levar a casa para passear: essa foi a solução que Ingrid encontrou. Faria viagens breves, com contato pessoal limitado, e usaria seu carro como quarto de hotel. Depois de uma extensa pesquisa em tutoriais de internet, Ingrid passou a trabalhar no seu pequeno Fox Connect: iria adaptá-lo para que ele se transformasse em um motor home básico, mas funcional.

Retirou os bancos traseiros, preencheu parte do espaço com uma caixa com ferramentas, um kit de primeiros socorros e um mini banheiro químico. No restante da traseira, Ingrid instalou um colchão de espuma. Para garantir a privacidade, pedaços de manta térmica foram recortados. Serviriam de cortina.

Banheiro e cama garantidos, Ingrid concluiu que aquilo poderia funcionar. Arrumou a mochila com uma troca de roupa, toalha de banho e biquíni, organizou a casa para que sua gata pudesse sobreviver a até três dias de ausência da dona, providenciou frutas, água e lanche. E foi para a estrada.

Aqui, Ingrid, artesã e artista plástica, nos conta o que aconteceu depois disso.

Este é o seu segundo mês como dona de um mini motor home. Quantas viagens já fez?
Fiz três breves viagens para a Serra da Mantiqueira, três locais diferentes. Foram lugares que, durante a pandemia, tinham me chamado a atenção, havia visto reportagens com moradores de lá e fiquei muito curiosa. Não ficam muito longe de casa, umas 4 horas no máximo de viagem, o que ajudou nesse começou. Deu para ver que o carro funciona muito bem. O banheiro químico é ótimo, não deixa cheiro nenhum no carro e tem um reservatório grande. Para dormir também deu supercerto. Com a manta nas janelas, ficou bem escuro e quentinho.

E onde você dormiu? Não ficou com medo?
Na primeira cidade, uma vila na verdade, São Francisco Xavier, eu estava querendo dormir na praça. Estacionei o carro lá e fui perguntar para a dona de um café se haveria problemas. Mas ela conseguiu um local muito melhor, um terreno vago em uma pousada. No terreno, tinha até cachoeira. Passei a noite lá e foi muito tranquilo. Também já dormi em estradinha de terra, porque meu carro não conseguiu subir, e dormi na frente de uma pracinha. Você me perguntou de medo, mas me sinto muito segura, porque tranco o carro, coloco as cortinas e deixo a janela um pouquinho aberta para entrar ar. Até instalei aquelas canaletas nas portas do carro, como as que se usava antigamente. Também não sou uma pessoa medrosa. Gosto de me sentir livre, adoro viajar, mesmo sozinha. Acho que vem da minha história de vida.

Ingrid retirou os bancos traseiros do carro e preencheu parte do espaço com uma caixa com ferramentas, um kit de primeiros socorros e um mini banheiro químico - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ingrid retirou os bancos traseiros do carro e preencheu parte do espaço com uma caixa com ferramentas, um kit de primeiros socorros e um mini banheiro químico
Imagem: Arquivo pessoal

Você viajou muito, não é? E se mudou bastante também.
Sim, sim. E antes da minha vida adulta, eu já gostava dessa história de pegar estrada. Meu pai tinha transformado um ônibus em um enorme motor home, com beliches, cama, banheiro, cozinha... Era enorme e a família fez várias viagens nele. Gosto muito dessa ideia de sair conhecendo o mundo sem muita programação, sem compromisso.

Quais são seus planos? Quais os roteiros que pretende seguir daqui para frente?
Meu único roteiro é o seguinte: quero ir para lugares que, por algum motivo, me chamem a atenção. Seja pelo estilo de vida da comunidade, pela natureza... Não tenho um plano, exatamente. Mas tenho um desejo, o de encontrar um lugar para viver. Em algum momento eu acho que vou chegar em um lugar e dizer: é aqui. Era o que eu buscava.

E o que você busca?
Um lugar perto do mato ou da praia, nunca fui muito de cidades grandes. Com pessoas com as quais eu me sinta bem, uma comunidade que entenda que cada um pode ser do seu jeito. Já deu para perceber que não gosto de caixinhas, me sinto aprisionada. Quero um lugar onde eu possa plantar minha comida e participar do crescimento de outras pessoas, investindo na comunidade. O que eu sei fazer, o que eu conheço, quero poder passar para os outros. E também aprender com os outros.

Sua família, seus amigos, eles se preocupam com as viagens?
Não. Minhas duas filhas são adultas, vivem no Sul do país. Mando vídeos das viagens para elas só depois que viajei, então nem tem como ficarem preocupadas... Mas nem elas nem meus amigos se incomodam, esse é o meu jeito. Eles respeitam. Também sabem que eu escolho lugares pequenos e calmos, sabem que não vou dormir em uma rodovia agitada. Tomo os cuidados que preciso tomar.

Como tem sido a experiência?
Muito mais interessante do que eu tinha imaginado. Estamos no meio de uma pandemia e então eu estava bem preocupada em não me expor ou expor outros à possíveis contaminações. Mas, mesmo assim, acabei conhecendo pessoas com quem criei uma grande conexão. Foram encontros acidentais, acho que quase nenhum deles foi muito planejado, mas depois eu percebia que as pessoas eram muito especiais, estavam fazendo coisas nas quais eu queria me envolver. Por exemplo, no bairro do Souza, na cidade de Monteiro Lobato, tem um casal que está criando um projeto para construção de casas de barro. Se chama Regenera. Eles pretendem transferir essa tecnologia para pessoas que precisam da casa e podem multiplicar o conhecimento ao seu redor. É um projeto incrível que tem tudo a ver com o que pretendo, trocar conhecimento para melhorar a vida das pessoas.

Que conselho você daria para quem quiser te imitar?
Apenas um conselho: faça! Não complique muito as coisas. Não sei se o melhor momento é agora, por causa da Covid. Eu sou extremamente cuidadosa, uso máscara, mantenho distância, mas nem todo mundo consegue. Então, quando for possível, faça, não fique esperando. Algumas pessoas que souberam da minha experiência, ficaram animadas. Me diziam que eu mostrei para elas que dá para ter um motor home mais simples do que imaginavam para fazer suas viagens. É muito gratificante inspirar esses pequenos sonhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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