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Como mediar conflitos de vizinhos na pandemia: síndico profissional ensina

André Rocha é síndico e afirma que por causa da pandemia e do isolamento as pessoas ficam mais ansiosas e intolerantes. - Arquivo Pessoal
André Rocha é síndico e afirma que por causa da pandemia e do isolamento as pessoas ficam mais ansiosas e intolerantes. Imagem: Arquivo Pessoal
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

27/03/2021 04h00

Conheci o André Rocha em um curso de mediação de conflito. Sendo síndico profissional, André buscou o curso com o objetivo de aprimorar técnicas de mediação, mais do que necessárias em tempos de confinamento.

"As pessoas ficam mais ansiosas e intolerantes", conta ele, que tem administrado brigas de vizinhos por causa de barulho, de uso de espaços compartilhados e de medo de contaminação. Bem, depois de um ano dentro de casa, fazendo ou não home office, quem não fica ansioso, intolerante, impaciente e implicante?

Eu fico. Acho que meus vizinhos também, se eu levar em conta o nível crescente de beligerância na troca de mensagens sobre pequenos desacordos. Nesta breve entrevista, pedi a André que dividisse comigo - e com você - o que é possível fazer para melhorar a convivência em um condomínio.

O que é mais difícil na gestão do condomínio?

Eu poderia dizer que os prédios estão cada vez mais complexos, o que exige um trabalho de gestão parecido com o de uma empresa. Isso seria verdade. Mas, com certeza, o mais difícil continua sendo o de sempre, a administração das relações interpessoais. Legislação, contabilidade, tudo isso é insignificante perto de um conflito entre duas pessoas. O que não deixa de ser irônico, porque apesar do que a maioria pensa, não é papel do síndico fazer a gestão do relacionamento entre vizinhos. Isso não está escrito no Código Civil. Mas, se o síndico não faz esse papel direito, o clima ruim afeta não só os moradores como o próprio valor do imóvel.

Como assim? Essa é nova para mim...

Sim, condomínios onde há muita briga e desentendimento são locais pouco atrativos. Conheço um condomínio magnífico, um condomínio clube. Morar lá custa caro, mas não custa mais caro se compararmos com outros parecidos. O problema desse lugar é que os moradores não param lá. Muita gente saiu, vendeu ou alugou. Os que alugaram, saíram rapidinho. O prédio está cheio de placas de vende-se e aluga-se. Por quê? Porque o clima de lá é péssimo, pesado. A fama do condomínio é de gente barraqueira.

Em um condomínio menos barraqueiro, por que as pessoas brigam?

Em geral, as brigas surgem porque algumas pessoas querem que somente as coisas delas funcionem, o resto que se dane. Ou brigam porque se desentenderam em algum momento e passam a implicar uns com os outros. Além disso, tem perfis de moradores mais problemáticos.

Tem gente, por exemplo, que gosta de exercer o papel de policial, de fiscal do prédio. Tem gente, especialmente o tipo emergente, que está bem de vida, com carrão, dinheiro no bolso, e que acha que é o rei do pedaço e que as regras valem para os outros, menos para eles. Tem também aqueles moradores antigos que não aceitam advertências ou mudanças. Com eles, o síndico sempre vai ouvir "Moro aqui há tantos anos...", "Tenho idade para ser sua avó".

Imagino a cena...

Tem ainda o morador que acha que os funcionários do prédio são seus empregados. Dão ordens, pedem para que eles carreguem suas coisas, inventam novas regras. Isso é muito comum. Já precisei "desorientar" funcionário que passou a limpar o elevador com um produto inadequado por ordem de um morador.

Conversei muito com moradoras que chamam funcionários do prédio para dar uma forcinha em pequenos consertos. É engraçado, porque tem um modus operandi muito comum que descobri ao trocar experiências com outros síndicos. Essas moradoras, em geral mulheres, começam deixando doces, pratos de comida, brigadeiro etc. na portaria. Depois, passam a dar ordens. Aí, tenho que convencer o funcionário que ele não precisa obedecer e convencer a moradora de que aquilo não é correto.

Na pandemia, imagino que os conflitos tenham aumentado.

Sim, as pessoas ficaram mais ansiosas, nervosas e intolerantes, o que é natural, porque de repente você precisa ficar trancado em casa, com crianças, com o home office. E chega uma hora que alguém leva a culpa. Quem melhor do que o vizinho? (rs).

Que tipo de conflito você precisa mediar?

Barulho, por exemplo, incomoda mais agora, porque as pessoas estão trabalhando em casa. A própria covid tem gerado desentendimentos, as pessoas ficam preocupadas com a contaminação e acabam exagerando. Quando sabem que um dos moradores se contaminou, querem descobrir a identidade, querem exigir que a pessoa faça exames para mostrar que não estão mais infectadas... Enfim, coisas que não respeitam o direito à privacidade e não têm amparo legal.

Nenhum síndico em nenhum condomínio pode exigir que um morador faça exames de Covid, mesmo quando o argumento é o de proteger o restante dos moradores.

Como você resolve esse tipo de problema?

No caso do barulho, a questão era uma reforma que precisava acabar para que o morador se mudasse para o apartamento. Mas como tinha gente trabalhando em casa, fizemos uma votação para diminuir o horário do barulho. Determinamos que a hora da quebradeira seria das 11h30 às 13h30. No restante do dia, a obra poderia continuar com serviços menos barulhentos, como pintura.

Que aprendizados você teve no curso de mediação que vão te ajudar na tarefa de apartar vizinhos?

Se o problema não tem uma solução pré-definida legalmente, devemos construir juntos a solução. Em vez de levar a solução, vou responsabilizar os moradores para encontrar uma. Acho que esse foi o aprendizado mais importante, temos a tendência de querer resolver sozinhos porque dá trabalho construir coletivamente. Mas funciona muito mais.

Outro aprendizado é o de tentar entender a motivação das pessoas. Por que, por exemplo, um morador se preocupa tanto em saber se o regulamento permite que seu vizinho use a piscina à noite? Ou por que uma moradora quer olhar a câmera de vigilância para descobrir quem quebrou a cadeira do salão de festas? Por que eles se sentem tão incomodados a ponto de mandar mil mensagens sobre o assunto? Esse é o tipo de coisa que, no curso, a gente chamou de necessidade não atendida. Por trás da implicância, da desconfiança, da acusação, tem algum tipo de necessidade que eu não costumava perceber. Agora, estou atento.

Depois, então, me conta, por favor, qual a necessidade deles. Fiquei curiosa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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