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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Carta às minhas filhas: que sorte a minha, vocês são feministas!

Uma reflexão no Dia Internacional da Mulher.  - tortoon/Getty Images/iStockphoto
Uma reflexão no Dia Internacional da Mulher. Imagem: tortoon/Getty Images/iStockphoto
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

06/03/2021 04h00

Querida filha,
Minha geração trabalhou insanamente. Talvez por isso você reclame da pouca presença materna na sua infância. Para falar a verdade, eu mesma não me lembro daqueles detalhes que, hoje, você coleciona sobre seus próprios filhos. Nunca fiz brigadeiros sem açúcar como você, nunca cozinhei pipoca orgânica na panela - as minhas eram de micro-ondas.

Não tinha tempo para nada, eu achava. Aliás, minha principal queixa era a de não ter tempo para mim. Engraçado, pensando agora, como as mulheres da minha geração adoravam ser reconhecidas como multitarefas. Equilibristas de pratinhos. Multifocadas. Guerreiras. Bonitas, competentes.

Nossa meta era a excelência em tudo. Excelentes profissionais, mães, filhas, amigas, esposas ou namoradas. Magras. Sempre jovens. Tão boa quanto os homens. Caímos no conto de um sistema que precisava de mulheres trabalhando, consumindo e cuidando da casa.

Parece ingenuidade, mas essas foram as nossas crenças e talvez, apenas talvez, tivesse que ser assim para que, hoje, vocês pudessem ser como são, escolhendo histórias diferentes das nossas, renegando e contestando os nossos valores. (Ah, preciso te contar: fizemos as mesmas coisas com os nossos pais.)

O que explica que você, suas amigas e todas as mulheres de sua geração tenham conseguido fazer tanto pelos direitos das mulheres, a ponto de transformar a palavra feminista em elogio e não palavrão, como foi na minha época?

Foi porque estudaram em escolas construtivistas, que valorizaram o livre pensar? Foi porque, na falta de irmãos e da presença desejada dos pais, desenvolveram um senso tão forte de sonoridade com as amigas? Foi porque, nós, seus pais, acreditamos que os filhos deveriam ser felizes, acima de tudo, e que o amor era mais importante do que a rígida disciplina? Foi porque vocês perceberam que o papel de mulher não estava reduzido a cuidar de casa? Foi porque nós também criamos homens melhores, que trocam fraldas, levam os filhos para a escola e até faltam no trabalho por causa de um problema na família?

Não me leve a mal, seu pai é um bom homem. Participou de uma ou duas reuniões da escola quando você era criança, te ajudou naquele trabalho de física, lembra? Nunca sequer cogitou que você não pudesse usufruir da mesma liberdade que tinha o seu irmão. Mas jamais te deu banho ou deixou de trabalhar para ficar com você nos casos de gripe ou de sarampo.

Já seu parceiro faz isso. Embora seja mais do que justo, embora eu tenha te educado para ter os mesmos direitos que os homens, ainda me assombro com isso e com tantas conquistas de sua geração.

Às vezes você me repreende por ser politicamente incorreta, o que me faz sentir velha e culpada. É um saco, de verdade. Me dá vontade de te chamar no canto e dizer: "Na sua idade, eu estava batalhando em um ambiente machista, abrindo caminho para você, inclusive. Na sua idade, eu não pedia dinheiro emprestado dos meus pais e não tinha nenhuma rede de apoio para te criar. Então, não fique me dando aulas, por favor".

Por outro lado, logo perdoo seu pedantismo. A forma é péssima, mas o conteúdo é correto. Você tem razão em construir um futuro com menos preconceitos e mais respeito às diferenças para seus filhos, meus netos. Um futuro mais progressista, menos truculento. A propósito, caso você estivesse do outro lado, aquele lado sombrio e violento, eu juro que iria queimar meu diploma de mãe.

Então, nesse Dia das Mulheres, eu quero te parabenizar. Que linda mulher você se tornou. (Tudo bem eu falar linda, filha?)

P.s.: Em 2008, seis anos antes de morrer, a escritora e feminista Maya Angelou escreveu o livro Carta a Minha Filha, um relato sobre sua vinda e luta pelos direitos humanos. Ao mesmo tempo, o livro é um legado que a ativista norte-americana deixa às mulheres mais jovens, que ela chama de filhas. Este texto se inspira no livro de Maya.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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