PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

Dois linchamentos virtuais em uma tarde numa briga de vizinhos no WhatsApp

Getty Images
Imagem: Getty Images
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

03/10/2020 04h00

A pitangueira foi cortada durante a noite. No dia seguinte, a foto com seus braços decepados de forma grosseira já circulava no grupo do WhatsApp do condomínio. "Onde?" foi a primeira pergunta. "Na rua do meio, na calçada entre duas casas", responderam. Ao meio-dia, uma dúzia de comentários lamentava a poda violenta. Duas horas depois, procurava-se o culpado.

A Prefeitura foi descartada, seus cortes eram limpos, secos, informou-se. A moradora da casa da frente? Também não, ela estava devastada, chorando pelas pitangas que não comeria neste final de ano. O morador da casa ao lado, que dividia a sombra da árvore? Talvez. Ele era um indivíduo mal-humorado, um dos que não pagavam a taxa de administração do condomínio, lembraram. Vamos chamar esse morador de X.

O principal problema com X, naquele episódio, era que ele não participava do grupo de WhatsApp. Não podia se defender. Portanto, durante boa parte do dia, X foi considerado um violador de pitangueiras. Enquadrável na Lei Municipal 17.267 de São Paulo e sujeito à multa de R$ 815. No grupo, comentaram as insubordinações civis de X e alguns chegaram a reencaminhar posts antigos, flagrantes daquela vez em que X jogou o lixo na calçada, da outra vez em que seu cachorro fez cocô na portaria, da outra em que ele dirigiu a 60 por hora nas ruas da vila. Todos estavam contra X.

Até que Y apareceu.

Y paga o condomínio e participa do grupo do aplicativo de mensagens. Verdade que tende a discordar da opinião de muitos vizinhos, mas, sim, com certeza é considerado um membro que respeita as regras da comunidade. Ele é conhecido por defender os animais, inclusive os marsupiais, que aparecem na região. Sustenta, contra a maioria, o direito de passagem dos ambulantes pela portaria. Tem um tipo de humor que nem todos entendem, mas comparece às assembleias e ajuda nos mutirões de limpeza. Segundo um dos líderes da associação da vila, Y é uma prova de que a diversidade, embora desafiadora, acaba somando para o bem comum.

"Que barbaridade!", disse Y, no calor do debate. "É um crime. Vou denunciar!"

Para quem acompanhava a conversa de fora, parecia que Y seria aplaudido, já que ele prometia sair do ativismo de mensagem para praticar o ativismo de resultados: ia denunciar o crime, em vez de só falar mal dele. Mas o que se seguiu foi uma surpresa. Pouco a pouco, o grupo foi se voltando contra Y.

"Peraí, acho precipitado denunciar. A gente nem tem certeza de que foi ele", disse uma moradora.

"Mas vocês não disseram que foi ele?", respondeu Y.

"Não, ninguém afirmou. Foi apenas uma suposição, precisamos investigar melhor...", disse outro morador.

"Por que, em vez de denunciar, você não vai conversar com X?", comentou um morador.

"Olha o telhado de vidro. Hoje é ele, amanhã é você."

"Geeeente, vamos parar de brigar por bobagem? Tem coisa muita mais séria acontecendo."

"Acho que crime ambiental é bem sério", respondeu Y.

"Odeio linchamento virtual."

"Eu também sou contra."

"Não podemos viver em uma comunidade onde esse tipo de coisa acontece."

"O quê? Crime ambiental?", provocou Y.

"Não, acusar as pessoas sem prova. Isso é igual a caça às bruxas."

"Y, me chama no privado. Gostaria de conversar com você", disse um dos membros da associação da vila.

"Podemos falar por aqui mesmo", disse Y, já se sentindo acuado.

"É que não gostamos de resolver nossos problemas dessa maneira", argumentou o membro da associação. "Entendo que você ficou chateado com o que fizeram com a árvore, mas a gente precisa tentar uma abordagem mais conciliatória em vez de partir para a acusação e o confronto."

E por aí foi. No início da noite, o grupo havia esquecido de X e transformado Y no vilão, um vizinho que acusa sem provas, denuncia em vez de conversar, cria confusão e parte para o linchamento moral. Conversando com Y mais tarde, comentei que ele havia caído em uma cilada do debate digital.

"Você estava propondo a denúncia do crime, não do autor, mas ninguém quis se dar ao trabalho de entender", eu comentei. Y entrou na conversa em um momento em que a fervura estava baixando, hora em que, talvez, as pessoas estivessem se dando conta de que tinham ido longe demais nas acusações. Tinham acabado de linchar X, mas não gostaram do que fizeram. Então, Y apareceu para assumir e expiar a culpa. Foi quando o grupo se voltou contra ele.

Psicologia barata de comunicação de massa, eu sei, mas já vi isso acontecer algumas vezes em conversas do aplicativo. Fácil entrar na onda quando se critica algo indefensável —a destruição de uma linda árvore—, mas difícil assumir a responsabilidade de fazer algo de verdade a respeito. Fácil atropelar o que está no caminho, opinar sem tentar entender o interlocutor. E a onda, da mesma maneira que vai, volta, apagando o que ficou para trás.

Y me garantiu que não ligava para o que o grupo pensava, mas eu sei que ele estava bem chateado. Ninguém sai de um linchamento sem cicatriz. Mesmo quando o linchamento é virtual.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Nós