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Para que serve o Dia da Visibilidade Trans? Esse texto explica

Bandeira do Orgulho Trans. Dia 29 de janeiro, ontem, foi o Dia da Visibilidade Trans. - Wikimedia Commons
Bandeira do Orgulho Trans. Dia 29 de janeiro, ontem, foi o Dia da Visibilidade Trans. Imagem: Wikimedia Commons
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

30/01/2021 09h28

Eu me lembro de quando a vi. Minha afilhada queria apresentá-la à família e pediu à mãe que fizesse um jantar para a ocasião. A mãe, minha amiga, estava nervosa. Eu estava nervosa. Iríamos conhecer a "namorada", a mulher pela qual minha afilhada havia se apaixonado. Era uma mulher trans.

Então, quando ela abriu a porta do apartamento, fizemos de conta que aquilo acontecia todo dia, que pessoas trans entravam e saíam das nossas casas rotineiramente. Mas era a primeira vez e ela sabia disso.

"Oi", ela cumprimentou. Também estava nervosa, dava para perceber. Deixou a bolsa vermelha de couro no sofá e se encaminhou para a mesa, onde bebericávamos um gelado vinho rosé. Era verão e ela usava um vestido envelope bem leve, florido. Maquiagem básica, rímel e batom rosa claro. Não tinha seios.

"Oi", respondemos, alegres, tentando ser calorosas.
"Senta aqui, amor", disse minha afilhada, indicando uma cadeira que ficava bem diante de mim.
"Foi difícil chegar?", perguntou minha amiga. A namorada morava em outra cidade.
"Não, não, estou acostumada com o bairro. Morei por aqui quando fiz o mestrado".

A voz não era feminina nem masculina. O rosto, suave mas anguloso. As mãos, delicadas.
Passamos o jantar conversando sobre preferências literárias, feminismo e o livro que ela pretendia lançar em breve. A namorada era muito inteligente. Muito acima da média. Era muito culta também, o que fez a conversa, em determinado momento, se transformar em uma espécie de entrevista. Nós perguntávamos, ela respondia.

Demorou para meu olhar acalmar, assentar. Acho que precisei de uma hora ou mais para não constrangê-la com uma curiosidade involuntária. Você sabe como é? Quando estamos diante de um ser humano diferente do padrão? Aquela teimosia dos olhos em buscar similaridades e se espantar com a falta delas?

Em determinado momento, dávamos risada das histórias que ela contava - que excelente contadora de histórias ela era. Entendi por que minha afilhada tinha se apaixonado tão profundamente. A namorada era uma pessoa acostumada a brilhar, cativar, seduzir.

Mas esquecemos o fato de ela ser trans? Não, seria uma hipocrisia dizer isso. Não foi no primeiro jantar que a namorada deixou de ser diferente para mim ou para minha amiga, foi preciso mais tempo e proximidade.

Para ela, a moça, imagino que aquele foi apenas mais um jantar com novos ignorantes - no sentido de que ignorávamos a convivência com pessoas trans. Para nós, o jantar foi um daqueles momentos em que nos testamos. Somos de fato quem achamos que somos? Ou vamos ser traídos pelo preconceito? Vamos, ao contrário, nos deixar encantar pelo que não conhecemos?

O preconceito nasce do medo. O medo nasce do desconhecido. O desconhecido é aquilo que não vemos, não entendemos. Quando o desconhecido começa a frequentar a nossa casa, ele se torna um de nós. E nós nos tornamos um deles. (Não, isso não quer dizer que as pessoas se "tornam" trans ou homossexuais. Quer dizer apenas que, na convivência, podemos voltar a ser igualmente humanos.)

Dia 29 de janeiro, ontem, foi o Dia da Visibilidade Trans, por isso quis contar a história desse encontro. Inesquecível para mim.
A data foi criada em 2004 e poucos entendem a necessidade da existência dele.

Se este texto não for convincente, talvez o assassinato da menina trans Keron o seja. Ela faria 14 anos no dia 28. Ficará com 13 anos para sempre porque morreu semanas antes de seu aniversário. Keron foi torturada, espancada, perfurada, violada no dia 4 de janeiro, em Camocim, no Ceará, por um adolescente de 17 anos. Foi um assassinato bárbaro, como costumam ser as mortes das pessoas trans.
O medo nasce do desconhecido. O medo mata. Sim, sim, precisamos dar mais visibilidade às adolescentes, às crianças e às pessoas trans. Elas estão conosco. Nós somos elas.

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