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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil lidera assassinatos: transexuais vivem em média 35 anos, diz estudo

Segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 175 pessoas transexuais foram assassinadas no Brasil no ano passado - José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 175 pessoas transexuais foram assassinadas no Brasil no ano passado Imagem: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Um novo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), organização que desde 2017 monitora denúncias de violência contra pessoas trans no Brasil, foi publicado nesta semana e traz a terrível marca de 80 assassinatos de transexuais apenas no primeiro semestre de 2021.

Em 2020, segundo a organização, o país bateu o recorde em número de assassinatos contra essa parcela da população, com 175 mortes violentas. O relatório mostra ainda que a idade das vítimas também diminuiu de 17 para 13 anos e a estimativa média de vida de uma pessoa trans hoje é de 35 anos.

Em junho deste ano, Victor Madrigal, especialista independente da ONU em proteção contra violência e discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero, gravou uma mensagem em vídeo para a Câmara dos Deputados, chamando a atenção para o fato de que o Brasil lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans em números absolutos no mundo.

"O país, infelizmente, ainda lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans em números absolutos, e dentro dessas fatalidades, observamos que cerca de 80% das vítimas eram negras. Sabemos que garantir uma legislação inclusiva, que proíba a discriminação, é o primeiro passo. Mas, para além disso, é necessário estabelecer políticas públicas que se dirijam ao enfrentamento dessa situação. Durante muito tempo, as instituições sociais contribuíram para perpetuar uma ideia equivocada de que as pessoas LGBTI+ são de alguma forma inferiores ou causam algum dano à sociedade. Exatamente porque o estigma contra essas pessoas está tão arraigado na sociedade. É preciso ir além da proibição legal e adotar iniciativas que busquem ativamente reeducar e conscientizar a população geral para transformar a percepção danosa e equivocada de que pessoas LGBTI+ são imorais, criminosas ou doentes. (...) A função primordial de uma nação deve ser proteger e proporcionar o bem-estar social de todos os cidadãos independentemente de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero".

Combate à violência

Diminuir os crimes de ódio contra pessoas trans exige uma série de medidas que, como diz Madrigal, vão além da criminalização da LGBTfobia e que parecem muito distantes do centro de interesses do atual governo. Requer um trabalho de educação nas escolas, políticas públicas de combate à violência, acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade e conscientização da população, oferta de empregos e um debate qualificado sobre igualdade de direitos, em que não se decida que alguém vai ser torturado e assassinado porque não compartilha das mesmas ideias, religião ou orientação sexual.

Dizer isso é falar tão básico, mas nem o básico a gente tem: o monitoramento feito pela Antra, por exemplo, é autônomo, pois não há dados oficiais sobre essas mortes. E, como diz o relatório, "A violência transfóbica é, de certa forma, passada de pai para filho, ensinada nas escolas, nas câmaras legislativas, nos púlpitos e cultos religiosos, na gestão pública e alcança toda sociedade que segue passiva e é co-responsável por essa barbárie. E ganha ainda mais força com uma ofensiva anti-gênero e anti-trans que se intensifica na agenda fundamentalista global, onde o Brasil se mantém como um de seus principais agentes".

Não é apenas desinteresse, é um projeto de destruição. Em meio à pilha de mortos que se acumula no Brasil, os corpos dissidentes seguem no topo do ranking mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL