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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI da Covid: aceitar conduta indefensável de mulheres não é feminismo

A médica Nise Yamaguchi deu declarações falsas sobre a pandemia na CPI da Covid nesta quarta (2) - Flickr/Senado Federal
A médica Nise Yamaguchi deu declarações falsas sobre a pandemia na CPI da Covid nesta quarta (2) Imagem: Flickr/Senado Federal
Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

04/06/2021 04h00

A cena é: um senador com o nariz para fora da máscara contesta uma médica infectologista usando estudos falsos, conspirações com atriz pornô, números errados e desinformação. Ela calmamente rebate com argumentos e dados científicos. "Ciência não é opinião. Posso juntar a opinião de um milhão de pessoas e ainda seriam opiniões. Ciência é método", argumentaria Luana Araújo durante sua sabatina na CPI da Covid nesta quarta-feira (2).

Atitudes machistas durante a CPI têm sido sistematicamente denunciadas desde seu início em 27 de abril. Aqui mesmo em Universa foram publicadas reportagens e colunas sobre isso. Quando ainda nenhuma mulher havia deposto, a antropóloga Lilia Schwarcz escreveu: "Não há um dia sequer que os senadores deixem de interromper senadoras no meio de suas falas, lhes peçam 'calma', cortem suas palavras ou as desqualifiquem moralmente".

E com o maior número de convocações de mulheres para depor na CPI (já que o de senadoras continua desproporcionalmente minoritário) o machismo segue escalando. Interrupções, gritos, questionamentos inapropriados e aquele "tom" de voz condescendente adotado por homens que acreditam que sua genitália os eleva intelectualmente (sim, porque estes homens nem consideram a possibilidade de orientação sexual não ter a ver com genitália), se tornam cada vez mais evidentes. Nada de novo — o que acontece dentro daquela sala no Senado brasileiro reproduz não apenas simbolicamente mas de fato por representatividade eleita, a misoginia estrutural do país.

Mas aceitar atitudes criminosas e desinformação propagadas por mulheres como a secretária nacional da Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde, Mayra Pinheiro, vulgo 'capitã cloroquina', ou da oncologista e imunologista Nise Yamaguchi — também defensora ferrenha de protocolos ineficazes contra a covid-19 — em nome de uma suposta 'sororidade' é, no mínimo, leviano.

No momento em que o país beira as 500 mil mortes por coronavírus por má condução do governo, falta de vacinas, uso de protocolos ineficazes e sem fundamentação científica, negacionismo e presidente cavalgando sem máscara entre multidões, Pinheiro e Yamaguchi se prestam a um papel vergonhoso e humilhante.

No Twitter, Jair Bolsonaro (sem partido), indignado, postou que Yamaguchi participou de um verdadeiro "tribunal de exceção" e que foi humilhada. Veja: não a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que ele disse que não estupraria porque era feia. Não a jornalista Patrícia Campos Mello, que ele disse que "queria dar o furo". Não a ex-presidente que, sendo atacada por homens violentos durante o processo de impeachment, teve que ouvir Bolsonaro dedicar seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, "o pavor de Dilma Rousseff" em referência às torturas sofridas por ela na ditadura militar. Essas humilhações de mulheres não importam ao presidente.

Em seu perfil no Instagram, a antropóloga e professora Débora Diniz fez uma reflexão importante sobre Yamaguchi: "A médica é uma peça útil: alguém que, em nome do jaleco branco, oferece a chancela necessária aos brutos. O ridículo a que foi exposta hoje beirou a humilhação. A cena em que manuseava papéis em busca de respostas foi angustiante pela vergonha em público. A pergunta é: por que ela se oferece a esse papel? Que gratificação moral recebe? A de ser a escolhida para falar em nome dos patriarcas". Debora acrescenta: "É isso que faz o patriarcado bruto. Ela se crê a eleita, eles a jogam ao ridículo. O que a aproxima de Damares e Regina Duarte? Mulheres permanentemente expostas ao ridículo pois são mercadorias úteis ao patriarcado".

O patriarcado só aceita mentes submissas e corpos dóceis que possam ser jogados na linha de frente e usados como peça no jogo político. Sem protagonismo ou autonomia.

E a passagem de Luana Araújo pelo governo e pela CPI confirmam isso. Indicada pelo ministro Marcelo Queiroga, ela ocupou o cargo de secretária de enfrentamento à pandemia da covid-19 por apenas dez dias. Por se posicionar publicamente contra o uso de cloroquina e ivermectina, que chamou de "neocurandeirismo", foi cortada e informada que seu nome "não passaria" pelo crivo da Casa Civil.

Não aceitando ser mera peça do jogo político, ao ser cobrada por postagens em redes sociais, disse: "Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse que há um ano nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu, infelizmente, ainda mantenho isso, nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que lado da borda da terra plana a gente vai pular".

Luana ainda criticou o fato de não haver senadoras na CPI e reagiu aos ataques com lucidez e ciência. O feminismo existe para cobrar equidade de direitos, para emancipação, não é "ditame para expiação ou perdão", como disse Débora Diniz. O feminismo nos ensina a não deixarmos nossos corpos e mentes à disposição, como peças de um jogo a ser jogado pelo patriarcado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL